A CAMINHO DA ESCURIDÃO

Somente 300 mergulhadores em todo o Brasil estão aptos a descer até 300 metros de profundidade para consertar tubulações petrolíferas. status mergulhou nesse universo e mostra por que essa é uma das profissões mais perigosas do mundo

 

Por Denise Menchen, do Rio de janeiro

 

STATUS 44 - VAI ENCARAR?

Em 2012, o mergulhador catarinense José Roberto dos Santos, 44 anos, realizava reparos em tubulações petrolíferas, na Bacia de Campos, a uma profundidade de 255 metros, quando recebeu a ordem para voltar imediatamente ao “sino”, uma espécie de elevador que leva o profissional até o fundo do mar e o traz até a câmara hiperbárica instalada no navio. Na profundidade em que ele se encontrava, Santos tentava chegar o mais rápido possível na cápsula, mas não era fácil. Ele não sabia o que estava acontecendo – o que só aumentava a sua preocupação – e uma ordem vinda da superfície não podia ser ignorada. Ao chegar, entretanto, encontrou o colega lutando contra um alagamento no sino, que deveria estar seco. Os minutos que se seguiram foram os de mais puro pavor, contido apenas pela necessidade de ação. O supervisor de mergulho, que acompanhava tudo pelas imagens transmitidas ao navio, orientava os dois a abrir e fechar uma série de válvulas para garantir a entrada de gases no local. A tensão, que já tomava conta do pequeno habitáculo com cerca de quatro metros quadrados, aumentou quando o supervisor deixou escapar: “Se vocês estão apavorados, imagine eu aqui”. “Mas quem ia morrer era a gente”, diz Santos à Status. Quando a situação foi, finalmente, controlada, a água já cobria quase a totalidade do sino. Aos poucos, o nível foi descendo e a escotilha pôde ser fechada. Duas horas depois do início do problema, causado pelo rompimento de uma mangueira na superfície, eles voltavam à câmara hiperbárica. Salvos, os dois mergulhadores não se contiveram. Abraçados, caíram juntos ao chão chorando.

O abalo emocional persistiu pelos dez dias em que tiveram que permanecer na câmara aguardando a conclusão da descompressão. Santos era constantemente atormentado por flashbacks. Para dormir, dependia de medicamentos. O retorno para casa tampouco significou o fim do pesadelo. Passados mais de dois anos, o trauma da experiência ainda o acompanha. Ambientes fechados tornaram-se um desafio. Uma simples viagem de elevador provoca dores no peito e falta de ar. Uma tentativa de mergulho amador em uma praia catarinense no verão passado foi interrompida pelo mesmo motivo. A simples visão da máscara que por tanto tempo o acompanhou já provoca mal-estar. Uma psiquiatra o diagnosticou com estresse pós-traumático e depressão. Mas, devido a dificuldades financeiras, ele só consegue ver a médica uma vez a cada dois meses. Seus ganhos mensais, antes na média de R$ 12 mil, foram reduzidos a uma pensão do INSS de pouco mais de R$ 2 mil. “Antigamente eu comia bife, agora estou comendo osso”, resume. A história de Santos se confunde com a de outros 300 brasileiros que se dedicam a uma das profissões mais perigosas do mundo: o mergulho em águas profundas. A rotina, aliás, não é para qualquer um.

 

NINGUÉM SAI

Para executar serviços de reparo, manutenção e operação de dutos e poços submarinos, os mergulhadores enfrentam maratonas de até 28 dias de isolamento, dos quais passam apenas algumas horas efetivamente debaixo da água. A maior parte do tempo é gasta mesmo nas câmaras hiperbáricas, ambientes vedados, com escotilhas no lugar de portas, onde é possível elevar a pressão atmosférica para os mesmos níveis que o profissional encontrará a mais de 50 metros de profundidade e, depois, trazê-la de forma controlada ao patamar normal, que no nível do mar é de uma atmosfera (1 atm). Geralmente, seis homens dividem um ambiente de poucos metros quadrados hermeticamente fechado. Câmeras registram todos os seus movimentos ininterruptamente. As imagens são transmitidas ao vivo para uma sala bem próxima dali. No entanto, mesmo com toda a vigilância, a capacidade de resposta a qualquer incidente que rompa a tranquilidade no local é limitada. Seja em caso de brigas, acidentes, problemas de saúde ou a perda de um parente próximo, a regra é clara: ninguém sai de imediato. Descumpri-la pode ser fatal.

As câmaras ficam em navios e são apenas um pouco mais largas do que um corredor. Nelas, apenas o básico: beliches, uma mesa com cadeiras e um banheiro. A pressurização do ambiente é feita de acordo com a profundidade na qual será realizado o trabalho. A cada dez metros, ela aumenta em 1 atm. Num mergulho de 250 metros, portanto, chegará a 26 atm. Somente depois disso uma dupla de mergulhadores descerá ao mar. A jornada rumo às profundezas do oceano é feita a bordo do sino, que também é pressurizado para a profundidade desejada. O espaço no interior do sino é ainda mais exíguo e, quando ele atinge seu destino, a escuridão costuma imperar. A partir dos 180 metros, apenas a luz dos equipamentos ilumina peixes, dutos e válvulas. A visibilidade costuma não passar dos 15 metros. A temperatura nessas profundidades também é congelante. Para sobreviver, os mergulhadores dependem do fluxo contínuo de água quente do navio para o interior de seus macacões de neoprene. Outra mangueira que parte da superfície, batizada de “umbilical”, leva os gases de que precisam para respirar. Devido às condições extremas, o trabalho se estende por, no máximo, seis horas. Depois disso, o sino é novamente fechado e sobe em direção à superfície para novamente se acoplar à câmara. Se não houver outros mergulhos programados para os dias seguintes, a descompressão gradual pode começar. E, só depois que ela estiver concluída, o que pode levar mais de dez dias, é que os mergulhadores deixarão a câmara.

A técnica visa a impedir mudanças bruscas de pressão atmosférica, que seriam inevitáveis caso os mergulhadores subissem para a superfície sem o sino pressurizado. Associada à substituição do nitrogênio pelo hélio na mistura de gases que eles respiram, essa medida minimiza os riscos de uma série de problemas de saúde (leia mais na pág 43). Graças a isso, hoje é comum que mergulhadores que atuam na Bacia de Campos, no litoral do Sudeste do País, cheguem a profundidades de até 300 metros – o recorde nacional atual é de 326 metros. Para profundidades maiores são utilizados robôs, que, infelizmente, não são tão eficientes. Mas, apesar de todas as medidas de segurança, acidentes ainda ocorrem, deixando mergulhadores com graves sequelas físicas e psicológicas. “É igual a avião, que tem um monte de dispositivo de segurança, mas continua caindo”, compara Athayde dos Santos Filho, 53, mergulhador há 17 anos e um dos diretores do sindicato da categoria.

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PERDA DE CONSCIÊNCIA

No caso do carioca Alexandre Macedo, 31, os problemas vieram num dia de mar agitado em agosto do ano passado. Ele e um colega desceram a uma profundidade de 102 metros para realizar a inspeção da espessura de um duto também na Bacia de Campos. Como de praxe, um sairia para executar o serviço enquanto o outro esperaria no sino. Naquele dia, o último papel coube a Macedo. Segundo ele, porém, o equipamento responsável por manter o sino estável, compensando as oscilações do mar que fazem o navio subir e descer, não estava em funcionamento. O sino acabou sendo puxado para cima e, pouco depois, voltou à profundidade original. A diferença brusca de pressão teve efeitos imediatos: seu tímpano esquerdo se rompeu e ele teve fortes náuseas. Também perdeu a visão do olho esquerdo. Assim que voltou para o navio, Macedo avisou a enfermeira de plantão. Ela se comunicou com um médico em terra, mas, como ele não sentia mais dores, decidiram que não era preciso interromper os trabalhos. No dia seguinte, mesmo sem ter sido examinado presencialmente por um especialista, o mergulhador voltou para o mar. Dessa vez saiu para a água. Enquanto executava o trabalho, voltou a ficar enjoado e com tonturas. Acabou desmaiando e precisou ser resgatado pelo colega.

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O mergulhador Alexandre macedo (fotos) em ação e na câmara hiperbárica. Em um de seus mergulhos, o sino subiu bruscamente e até hoje ele tem sequelas: seu tímpano se rompeu, perdeu a visão do olho esquerdo e não tem a mesma força de antes

De volta à câmara hiperbárica, Macedo só recobrou a consciência no dia seguinte. Sua pressão arterial estava baixa e ele não conseguia movimentar o lado esquerdo do corpo. Apesar disso, teve que esperar mais quatro dias até que o processo de descompressão terminasse e ele pudesse ser levado para o hospital. O médico que o atendeu disse que ele tinha sofrido um ataque isquêmico transitório, possivelmente provocado pela obstrução de vasos sanguíneos do cérebro por bolhas de gás que se formaram após o rompimento de seu tímpano. Desde então, Macedo sofre com as sequelas. Apesar de ter recuperado os movimentos do lado esquerdo do corpo, já não tem a mesma força e nem a mesma sensibilidade de antes. O controle intestinal também foi prejudicado. A visão do olho esquerdo nunca voltou. “Outro dia tive que viajar sozinho para o Rio e acabei esbarrando em uma mulher na rua. Ela reclamou: ‘pô, tá cego’? Isso dói demais”, lamenta Macedo, que reclama também da falta de assistência da Fugro, empresa para a qual trabalha, a única a operar com mergulho profundo no Brasil e que tem a Petrobras entre seus principais clientes. Procurada pela reportagem da Status, a companhia não quis falar.

COMO É O MERGULHO SATURADO

  1. Os mergulhadores entram em uma câmara hiperbárica (ambiente hermeticamente fechado, com escotilhas no lugar de portas).
  2. Equipamentos injetam gases na câmara, elevando a pressão interna até que ela se iguale à da profundidade à qual o mergulhador irá. O nitrogênio é substituído pelo hélio, que é eliminado com mais facilidade pelo organismo, para evitar a doença descompressiva.
  3. Quando se atinge a pressão desejada, os mergulhadores descem para o “sino”, uma espécie de elevador que é acoplado à câmara e que também foi pressurizado.
  4. O sino leva os mergulhadores até a profundidade desejada. Lá, eles abrem a escotilha e saem para realizar o trabalho. Por segurança, um mergulhador permanece no sino.
  5. Ao fim do trabalho, o sino é fechado novamente e sua pressão interna é mantida estável para que ele seja levado até a embarcação.
  6. Com os mergulhadores novamente na câmara hiperbárica, a pressão do ambiente é reduzida progressivamente, o que pode levar vários dias.
  7. Dependendo da profundidade e do trabalho a ser executado, o processo inteiro dura até 28 dias, sendo dez apenas de descompressão. Durante todo esse período os mergulhadores permanecem confinados.

Diante de tantos perigos, cabe uma questão: o que atrai esses profissionais? Os mergulhadores ouvidos por Status são enfáticos ao dizer que o dinheiro e a liberdade que se segue após o confinamento são os principais atrativos. Em um ano, o mergulhador passa no máximo quatro períodos de 28 dias na câmara hiperbárica. Para cada um deles, ganha cerca de R$ 36 mil brutos. No resto do tempo fica em casa, recebendo cerca de R$ 2 mil mensais. Após 25 anos é possível aposentar-se com esse mesmo salário. O preço a pagar é alto. Além do risco de acidentes, o isolamento em um ambiente exíguo, sem privacidade e com poucas opções de contato com a família em terra (celulares são proibidos para evitar incêndios) também tornam a rotina do mergulhador difícil. “São vários dias preso com um monte de barbudos”, resume Athayde dos Santos Filho,  que já chegou a se envolver numa briga durante o confinamento. Após um colega ter vomitado, outro quis evitar que o cheiro se espalhasse pelo ambiente pendurando uma toalha em frente à escotilha que separa a parte principal da câmara do banheiro. Santos Filho dizia que era preciso deixar o ar circular, o que deu início a uma discussão acalorada entre adultos com voz de pato – efeito cômico do hélio que eles precisam respirar. “A turma do deixa-disso teve que nos separar”, lembra.

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Alexandre macedo precisou ser resgatado pelo colega enquanto mergulhava

COSTELA QUEBRADA

Para a psicóloga Ana Maria Stingel, do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, é compreensível que conflitos ocorram. Ela afirma que as condições que os mergulhadores são obrigados a enfrentar lembram uma versão mais branda de um estudo clássico na área, chamado de A patologia do tédio. Nesse experimento, voluntários eram isolados em um ambiente monótono, livre de estímulos, e observados pelo pesquisador. “Em poucos dias eles começavam a alucinar”, diz. “O ser humano precisa de variedade”. Para diminuir as chances de problemas, ela afirma que o ideal é que as empresas formem grupos de mergulhadores com afinidades entre si. Caso contrário, as consequências podem ser graves. Em 2008, por exemplo, uma briga terminou com um mergulhador com uma costela fraturada e o pulmão perfurado. O médico Tomaz Brito, atual presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica, foi chamado para a embarcação. Como o processo de pressurização pode ser feito de forma mais rápida do que o de descompressão, a solução encontrada por ele foi entrar numa câmara vaga, submeter-seà elevação de pressão por um período de cinco horas e só então passar, por uma escotilha, para a câmara contígua onde estava o ferido.

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Geralmente, seis mergulhadores ficam na câmara hiperbárica e não podem sair. A descompressão pode levar até dez dias

O caso que mais o marcou, porém, foi o de um mergulhador que teve uma crise de apendicite aguda dentro de uma câmara pressurizada para 112 metros de profundidade. O processo de descompressão de emergência foi iniciado, mas, para não ter que esperar, o médico novamente resolveu se pressurizar. Quando finalmente pôde entrar no local, lançou mão de tudo que estava a seu alcance para tentar diminuir a velocidade de evolução da doença. “Introduzi antibiótico venoso, anti-inflamatório, analgésico, uma sonda nasogástrica para diminuir a pressão intra-abdominal… E rezei”, conta. Felizmente, o quadro se manteve sob controle e, assim que pôde sair da câmara, mais de 30 horas depois, o mergulhador foi levado de helicóptero para o hospital. Brito até hoje respira aliviado por não ter sido obrigado a removê-lo antes que a descompressão tivesse sido concluída. “Seria uma decisão muito difícil, porque isso poderia causar lesões cerebrais graves”, diz. “A alternativa teria sido convencer um cirurgião a entrar lá para operar o paciente naquelas condições.”

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Mas não é só nos momentos de saúde frágil que a impossibilidade de deixar a câmara incomoda. As notícias que vêm da terra, normalmente por telefonemas e e-mails recebidos pela equipe da embarcação, também podem desestabilizar. “Se um parente morre, o melhor é nem ficar sabendo. Dependendo da profundidade para a qual se está pressurizado, nem a missa de sétimo dia dá para pegar. O melhor é concluir o trabalho e levar uma coroa de flores para o defunto depois”, afirma Santos Filho, mostrando que uma pequena dose de humor negro também pode ser útil para a profissão.

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