EVANGELINE LILLY

Pouco à vontade no papel de atriz, a canadense que interpretou a personagem Kate Austen de Lost e a elfa Tauriel, na última superprodução de Peter Jackson, O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, conversou com a Status em Nova York

 

Por Elaine Guerini  |  Fotos Sarah Dunn*

 

STATUS 44 - ENTREVISTA

 

Assim que Evangeline Lilly, 35 anos, pisa na suíte do hotel The London, em Nova York, dá para perceber o esforço da morena de olhos verdes para não ser reconhecida nas ruas. Ela usa óculos de grau e esconde os cabelos na altura dos ombros sob um gorro de lã – como se isso pudesse esconder a beleza radiante da canadense. Ainda que seu rosto de traços delicados seja conhecido ao redor do globo, graças à personagem Kate Austen, de Lost, Evangeline nunca quis ser atriz e sempre repudiou o assédio que sofreu durante as seis temporadas da série (encerrada em 2010). “Sou medíocre nessa profissão”, diz, com ar sério. Ela até já engatou uma carreira paralela, como escritora de livros infantis.

Para “pagar as contas”, Evangeline aceita “um convite ou outro” para filmar, desde que o papel não seja uma cópia da fugitiva Kate. “Fiquei tão viciada naquela vibração nervosa da personagem que, ao ouvir o diretor gritar ‘ação!’, eu já saía correndo”, recordou a atriz, que trocou a agitação de Kate pela energia graciosa e etérea da elfa Tauriel. Depois de ingressar na mitologia de J. R. R. Tolkien na aventura O Hobbit: a desolação de Smaug (2013), ela reprisa o papel da chefe da Guarda Real da Floresta das Trevas na última superprodução de Peter Jackson, O Hobbit: a batalha dos cinco exércitos, atualmente em cartaz. Em julho, Evangeline ainda debuta no universo da Marvel Comics, tomando as telas na pele da heroína Hope Van Dyne no filme Homem-Formiga. “Pelo menos nenhuma das novas personagens me obriga a ficar de biquíni. Passei muitos anos vendo fotos minhas em roupas de banho na capa das revistas. Não aguentava mais”, disse a atriz à Status, enquanto bebia (ou tentava beber) seu café latte. “Será que os americanos nunca vão aprender a fazer café?”

– É verdade que até hoje não se considera uma atriz?
– É. Eu simplesmente caí nessa profissão por acaso. Tive a sorte de ser chamada para trabalhar várias vezes. Mas há outros nomes na indústria do entretenimento, que são atores de verdade, como Cate Blanchett, Robert Downey Jr. e Johnny Depp. São profissionais que, apesar de terem alcançado o reconhecimento mundial, sempre nos fazem esquecer quem são, mergulhando totalmente na pele do personagem. Há ainda outra categoria de atores menos badalados, que o público talvez nem conheça de nome. Eles também conseguem atingir performances extremamente convincentes. Eles se tornam os personagens, sem precisar representá-los.

– Mas sua atuação como Kate, em Lost, também convenceu.
– Isso porque as pessoas nunca tinham me visto fazendo outra coisa (risos). Ninguém sabia se era só isso que eu podia fazer. E talvez seja.

– O fato de você ter sido abordada por agentes de modelos e de atores na rua, por conta da sua beleza, incomodou?
– Muito. Talvez isso tenha desencadeado toda a minha implicância com a profissão. Fui abordada umas cinco vezes nas ruas, antes de dizer sim. Não gosto da ideia de chamar a atenção pela minha aparência física, como se isso fosse a única coisa que tenho a oferecer. Não é. Sempre abominei a ideia de uma mulher ganhar a vida explorando simplesmente a beleza. Nunca quis isso para mim e continuo não querendo.

– Por que aceitou então o papel que mudaria a sua vida, em Lost?
– Porque, na época, eu era uma estudante sem saldo bancário. Fazia bicos para pagar a faculdade (de relações internacionais), mas não conseguia sobreviver (nesse período, Evangeline foi garçonete, aeromoça e professora primária). Não conseguia consertar o carro e nem mesmo a janela quebrada do meu apartamento (risos). Ao descobrir que eles queriam me pagar muito bem para estrelar a série, falei para mim mesma: “Você não está em condições de recusar dinheiro”. Mas sempre soube que isso não me realizaria profissionalmente.

– Já sentiu que suas declarações, de quem conquistou o sucesso sem querer, deixam os outros desconfortáveis, principalmente seus colegas de profissão?
– Já. As pessoas olham surpresas para mim e perguntam: “Como assim? Como você se atreve a reclamar?’’. Mas é humano se questionar. Ou não? A verdade é que só mesmo ocupando uma tal posição você entende o preço a pagar. Talvez muita gente quisesse estar no lugar do presidente dos EUA, Barack Obama. Eu imagino que, depois de um longo dia de trabalho, eu desistiria, se estivesse naquele posto. Deve ser muito duro. Não fui criada para gostar da visibilidade.

– Como foi criada?
– Cresci numa cidade pequena, Fort Saskatchewan, em Alberta, no Canadá. Minha família, de classe média, nunca glorificou Hollywood. Nunca tivemos revistas de celebridades em casa. Nós nem assistíamos muito à TV. Cresci com outros valores. Do lado da minha mãe, nossos parentes eram intelectuais ateus. Do meu pai, eram missionários que nunca deram importância ao dinheiro. Nunca fui materialista.

– Você disse certa vez que, com a fama conquistada em Lost, os homens pararam de convidá-la para sair. Isso realmente aconteceu?
Sim. Os homens fora do meio artístico simplesmente pararam de falar comigo. Acho que eles passaram a se sentir intimidados, achando que, por ser conhecida, eu não teria mais interesse em sair com um cara normal. Mas é justamente o contrário. Quem sofre muito com o assédio precisa de um companheiro com os pés no chão, capaz de trazê-la para a realidade todos os dias.

– Mas não é um pouco contraditório você dizer não querer exposição, ao mesmo tempo que estrela uma franquia poderosa, como O Hobbit, e entra para a bilionária família Marvel, em Homem-Formiga?
– Eu sei (risos). Não faz sentido. Às vezes até eu sinto que a situação é um pouco injusta, levando em conta o tanto que outros atores gostariam de estar no meu lugar. Outras atrizes certamente mereciam mais do que eu por quererem muito mais. Só posso dizer que, mesmo sem eu ter ido atrás, as pessoas envolvidas nessas superproduções acharam que eu era a atriz certa para os trabalhos.

– Será que o fato de você não correr atrás a torna mais atraente aos olhos dos diretores?
– Talvez (risos). Já ouvi histórias malucas. Peter (Jackson) me contou que um diretor amigo dele, cujo nome não vou revelar, pediu para ser recomendado para mim. Ele teria dito: “Fale bem de mim para Evangeline, já que ela não aceita qualquer trabalho”. Mas o oposto deve acontecer também. Muitos cineastas devem pensar: “Se ela não é apaixonada por atuação, por que eu deveria escalá-la para o meu filme?”. Mas confesso que diretores que se levam muito a sério não me interessam. Amei filmar os dois Hobbits com Peter por ele ser um louco irreverente. Embora saiba que está lidando com milhões de dólares e tenha respeito pelo dinheiro que usa, ele leva a filmagem na boa. Costuma dizer que “continuidade nas cenas é para os fracos” (risos). Ele está sempre descalço no set e nunca abandona aquele cabelo desgrenhado, tipo Albert Einstein. Não podemos perder a noção da brincadeira. Atuar é isso, por mais que tenhamos brinquedos muito caros à disposição.

– O que leva da experiência de O Hobbit? O que mais a marcou nas duas filmagens?
– Embora grande parte do nosso trabalho tenha sido atuar diante de tela verde (fundo virtual onde são colocados os efeitos especiais em pós-produção), muitas vezes estávamos em locação. Foi incrível rodar apreciando a natureza, em todo o seu esplendor, na Nova Zelândia. Como cresci lendo os livros de Tolkien, participar da franquia foi a realização de uma fantasia. O meu cenário favorito criado foi o da adega, com os barris de vinho. Fizeram uma fantástica reconstituição dessa passagem, que me impressionou quando eu era criança. Eu adorava a sensação de estar rodeada de gênios artísticos no set. Muitas feras participaram da criação dos cenários e dos figurinos, permitindo que nós realmente mergulhássemos no espírito da Terra Média. Daquela magia eu sinto falta.

– E do que não sente falta?
– De receber o roteiro na noite anterior à filmagem e precisar decorar tudo, em inglês e em élfico, para a manhã do dia seguinte. E ainda ter de dizer as falas com certa graciosidade. Também não gosto de me lembrar do frio que passei, quando precisava tirar aquela roupa apertada da Tauriel para amamentar o meu filho a cada duas horas, em pleno inverno, na Nova Zelândia (Evangeline é mãe de Kahekili, que significa “trovão”, na língua havaiana. Ela e o namorado, Norman Kali, que foi assistente de produção de Lost, ainda moram no Havaí). Ter de me apaixonar por uma bola de tênis também não foi muito divertido (ela não contracenava com Kili, vivido por Aidan Turner, por ele ser um anão). Cair de amores por bonitões de carne e osso é muito melhor (risos).

– Como Tauriel, que já tem 600 anos, acha que chegou a hora de a personagem se apaixonar e ter filhos? Ou ela deve seguir como guerreira?
– Ela é muito jovem para se casar (risos). Uma das questões que Peter e eu tentamos investigar foi a vida amorosa dos elfos. Qual será a noção de amor para eles? Será que eles podem se apaixonar e se reproduzir como os humanos? Mas nós não encontramos nada sobre isso na mitologia. Quando Tolkien criou os elfos, fez deles seres ancestrais, vindos já desde o início dos tempos. Talvez por isso eles não precisem perpetuar a espécie. Ou alguém já ouviu falar de um bebê elfo?

– Você se sentiu mais poderosa interpretando tanto Kate quanto Tauriel, personagens fortes que exigiram muito preparo físico?
– Os papéis femininos fortes sempre dão certo poder. Mas há uma grande diferença entre a mulher forte e a mulher que quer ser homem. Eu não teria conseguido fazer a segunda categoria. Não me inspira o perfil da mulher que perde o contato com a sua essência feminina. Ser mulher é ter sensibilidade e compaixão. Não há nada de errado em chorar e ser maternal. Odeio os papéis de fortonas que desprezam essas qualidades, sugerindo uma suposta fraqueza na feminilidade. Preciso sentir uma combinação de força externa com vulnerabilidade interna. Só assim atuar é divertido para mim, apesar de não me dar tanta satisfação quanto escrever.

– Sempre soube que escrever seria a sua grande paixão?
– Sim. Aos 14 anos comecei a escrever a série de livros que acabei de lançar nos países de língua inglesa, The Squickerwonkers (é a história de Selma, uma menina mimada que aprende uma lição em show de marionetes. A ilustração é de Johnny Fraser-Allen, que atuou nos efeitos especiais da franquia O Hobbit). Gosto do sentimento de me perder no mundo da imaginação, passando a viver lá durante o processo criativo. O trabalho do ator é muito limitado. Ele pertence a um universo que já foi estabelecido pelo roteirista, diretor, desenhista de produção, figurinista e outros. Se o ator for muito bom, talvez consiga usar esses parâmetros para criar um espaço próprio. Já eu prefiro começar do zero.

– Antes do lançamento, testou o livro com o seu filho? Ele gostou?
– Testei com o meu filho e muitas outras crianças. E nenhuma delas ficou com medo, apesar da minha abordagem de conto de fadas obscuro. Acho importante o público infantil aprender logo cedo o peso das decisões que tomamos na vida. Hoje em dia, a literatura do gênero não traz mais a tal moral da história. As crianças têm a falsa ideia de que tudo dará certo no final, não importa o que elas façam. Introduzindo esses elementos morais, espero incentivar a criançada a pensar mais nas consequências de suas ações.

– De certa forma, foi o sucesso de Lost que abriu portas para a sua carreira de escritora. Isso significa que você fez as pazes com a fama?
– A fama ainda me desperta sentimentos ambivalentes. Reconheço, porém, que ter passado os dois últimos anos em casa, escrevendo e cuidando do meu filho, me ajudou a ver a minha carreira de atriz com outros olhos. Sou agradecida por muitas coisas. Claro que ter conquistado um público de bilhões de pessoas espalhadas pelo mundo facilitou a publicação do meu livro. Hoje, percebo melhor as vantagens e as desvantagens de ser conhecida. Já não me sinto tão prisioneira, como na época de Lost, quando eu era seguida pelos fotógrafos por toda parte. Aprendi a surfar melhor por essas ondas. Mas nunca vou me enganar sobre uma coisa: é um equívoco achar que fama põe alguém no caminho da felicidade. O que ela acaba fazendo é forçar você a percorrer um longo desvio (risos).