CURTA AS FÉRIAS LENDO

Sexo, crimes, drogas, rock’n’roll. Os lançamentos para deixar a estação ainda mais agradável

 

Por Ronaldo Bressane

 

STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS

SAFADEZA
“Estou cansada de não ser lida; vou escrever pornografia”, justificou, à época, conforme contam Humberto Werneck e Caio Fernando Abreu na fortuna crítica de Pornô Chic (Biblioteca Azul; 276 págs.; R$ 60). O chiquérrimo volume abrange o delicioso, divertido e, sim, ainda assustador Caderninho da minilolita, Contos d’escárnio/Textos grotescos e Cartas de um sedutor, sua trilogia tresandando a sexo de todos os tipos imagináveis. Apesar do escândalo, Hilda não virou best-seller. Só viu sua fama de autora maldita consolidada, e esta prosa ganhou sua etiqueta de praxe: altíssima literatura.

 

 

STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS

SACANAGEM SURREAL 
Moebius & Jodorowski, caso fosse uma dupla de futebol, seria algo impensável como Sócrates e Garrincha, ou Ademir da Guia e Ronaldo Gaúcho: fantasistas delirantes, espalharam sua magia por dezenas de álbuns de quadrinhos, um expandindo o talento do outro. Este Garras de Anjo (Nemo; 72 págs.; R$ 49) é uma tabelinha de 1994 entre o desenhista e roteirista francês e o escritor e cineasta chileno. A narrativa indefinível e aberta trata da viagem iniciática de uma mulher em busca de sua identidade; no percurso, ela transita entre vários parceiros sexuais, passeia da homossexualidade ao sadomasoquismo, flerta com estranhos fetiches, muda de sexo e idade e de tempo e espaço.

 

 

STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS

O CREME DO CRIME 
Uma das obras mais elegantes de Alan Moore é relançada em volume único. Publicada entre 1991 e 1996, Do Inferno (Veneta; 592 págs.; R$ 81) investiga os assassinatos de Jack, O Estripador, em 1888. O traço severo e ordenado de Eddie Campbell – que obedece à clássica divisão jogo da velha em cada uma das páginas em preto e branco – oferece segurança ao mergulho nas múltiplas camadas do roteiro, que parte de uma teoria conspiratória: os crimes aconteceram para ocultar o nascimento de um bastardo herdeiro do trono britânico. Misturando fatos históricos rigorosamente pesquisados às elucubrações delirantes de Moore, a graphic novel foi uma das responsáveis por elevar os quadrinhos ao status de gênero adulto. Foi adaptada para o cinema em filme estrelado por Johnny Depp, em 2001.

 

 

STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS

EXOCET 
Depois de anos desaparecidas das livrarias e disputadas em sebos, as narrativas essenciais de Fausto Fawcett são republicadas. Santa Clara Poltergeist e Básico Instinto (Encrenca; 144 págs.; R$ 28 e 208 págs.; R$ 34, respectivamente). No finzinho dos anos 80, o copacabanenho, cercado de louraças-belzebu como Regininha Poltergeist, estourou com seu canto-falado fundado no funk.
A origem das letras alucinantes está nessa prosa original, que propõe o Rio de Janeiro como território de caos sígnico – distopia à beira-mar, dionisíaca e muito perigosa. Seu texto não envelheceu: “Guimarães Rosa urbano”, no dizer do cineasta Cacá Diegues, raros narradores têm estilo tão peculiar e faro tão apurado para captar as contradições brasileiras, sem perder jamais o humor.

 

 

STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS

HELTER SKELTER
“O homem errado no lugar certo e na hora certa”: assim é definido um dos mais infames criminosos do século XX em Manson, de Jeff Guinn (Dark Side; 520 págs.; R$ 40). Afinal, Charles Manson (recém-casado, aos 80 anos, com uma gatinha de 20, em seu xilindró eterno) tinha o
talento de transformar o discurso e o comportamento hippie em incitação a ódio, caos e destruição. A tese de Guinn propõe que Manson foi o catalisador do lado escuro do flower power, revelando que o paz & amor não passou de outra mentira do sonho americano.

 

 

STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS

KILLING DOG WITH A SHOUT 
“Se você vai passar uns dias em Nova York ou viver por lá sem muito cascalho, esse guia vem muito a calhar”: deste modo o tradutor Thiago Nasser apresenta o Guia Broke-Ass Stuart – Para Viver com Pouco Dinheiro em NY (A Bolha Editora; 352 págs.; R$ 50). “Nova York nunca será sua, você sempre será dela”, afirma Schuffmann, um californiano que diz ter feito esse guia para celebrar o fato de que não é preciso ter um cartão de crédito ilimitado para aproveitar uma cidade ao máximo. Escrito com muito humor e espírito de aventura, cada verbete é uma minicrônica que dá acesso aos lugares mais estranhos e alternativos: bares, restaurantes, lojas, baladas, hostels, igrejas, parques, praças, ruas, estações.

 

 

STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS

SOL QUADRADO 
Após assistir ao funeral da mãe, o francês Merseault conhece uma garota linda e vai à praia com ela. A certa altura acaba só, sob o sol enlouquecedor, afrontado por um árabe argelino que o ameaça. Sem pensar, ele o mata, em seguida é julgado e condenado à morte. Argelino como Albert Camus, o quadrinista Jacques Ferrandez adaptou fielmente O Estrangeiro (Quadrinhos na Cia.; 144 págs.; R$ 55). Com conhecimento da geografia da colônia francesa, tornou a história tão concreta quanto absurda. A primeira parte é pura luz, enquanto na segunda Merseault afunda nas sombras.

 

 

STATUS 44 - APPROACH, ENTRELINHAS

É O BICHO 
Prestes a virar filme, Oeste, de Alexandre Fraga (Record; 308 págs.; R$ 35), promete ser para o jogo do bicho do Rio de Janeiro o que foi O poderoso chefão para a máfia siciliana de Nova York. Desde Rubem Fonseca não surgia no País um thriller policial tão eletrizante, que mostra com linguagem seca os meandros da sociedade brasileira. Estabelecida na região oeste do Rio, onde se concentram as famílias da contravenção, a narrativa disseca a máquina dos jogos de azar, que começou ingênua, depois misturou-se ao tráfico de drogas e armas e hoje é substituída pelas máquinas caça-níqueis.