SEXO EM CENA

Todas as cenas de sexo são ridículas aos nossos olhos, da mesma forma que a gente considera obsceno o sexo dos outros, nunca o que praticamos nós mesmos

 

Por Reinaldo Moraes

 

STATUS 44 - PORNOPOPEIA

“Assim, Klara virou-separa os pés da cama, pôs sua parte mais indecente sobre o nariz e a boca ofegantes de Alois e tomou em seus lábios seu velho aríete de guerra. Titio estava tão mole quanto um rolo de excremento.”

Cara, te juro que não fui eu que escrevi isso. Nem tenho roupa pra escrever esse tipo de coisa. O autor dessa pérola foi ninguém menos que Norman Mailer, no romance O castelo na floresta, na tradução competente e inspirada de Pedro Maia Soares pra Companhia das Letras. E quem a garimpou, em meio ao aluvião de literatura despejado todos os dias sobre a crosta terrestre, foi o crítico e premiado escritor Sérgio Rodrigues, que há anos mantém na internet um dos melhores e mais bem escritos blogs de literatura do País, o Todoprosa, com ótimas resenhas críticas, faturadas sem complicações acadêmicas, além de contos e textos variados, do próprio Sérgio e de outros autores, e de notícias e comentários sobre o mundinho literário.

Ocorre que o Sérgio comentava dia desses no blog dele a recente publicação da lista anual de agraciados com o Bad Sex Award, um contraprêmio literário gozador atribuído pela prestigiosa Literary Review às dez piores cenas de sexo contidas em obras de ficção publicadas naquele ano.Esse texto estrambótico extraído do Mailer, por exemplo, entrou na lista de 2007, mas o autor nem sequer tomou conhecimento da provocação, e não por soberba ou rancor, mas apenas por ter morrido em novembro daquele mesmo ano.

Sérgio Rodrigues, em seu post sobre o “prêmio ruim-de-cama”, possível tradução pra Bad Sex Award, se insurge contra a brincadeirinha dos intelecas ingleses da Literary Review, que tiram arbitrariamente as cenas de sexo de seus contextos narrativos, onde têm outros significados e produzem determinados efeitos na percepção do leitor. Nosso atento blogueiro sugere que quem não deve ser muito bom de cama são os ingleses, razão pela qual, aventando discutíveis princípios de bom gosto literário, eles resolvem sacanear a veia libidinosa dos escritores contemporâneos.

Ele deve ter razão, o Sérgio Rodrigues. De minha ociosa parte, porém, nem achei tão ridículas ou destrambelhadas as cenas escolhidas pelos sabidinhos da revista inglesa em 2014, conforme se pode ler no site deles da internet.
Me soaram até que divertidas, as sacanagenzinhas literárias, embora não tenha lido na íntegra os contos ou romances que as contêm. Claro que chamar o pau de “velho aríete de guerra” e compará-lo, quando em estado flácido, a um “rolo de excremento” põe no chinelo as eventuais excentricidades dos demais escrevinhadores de cenas de sexo (des)agraciados com o Bad Sex Award.

A escritora May-Lan Tan, por exemplo, uma chinesinha graciosa de Hong- Kong que vive em Londres e está na lista dos ruim-de-cama de 2014, faz um personagem de seu conto DD-MM-YY descrever desta maneira a corriqueira sensação de meter a mandioca na fogosa parceira: “É como enfiar seu pau no sol”. Pouco antes, ao ser boqueteado pela mesma fulana, o mesmo personagem dizia que “ela tem a menor e mais ardente boquinha do mundo, como se armazenasse lava incandescente nas maçãs do rosto”. Porra, já sinto o cheiro de chouriço torrado só de pensar na literalidade dessa imagem que me parece, de qualquer modo, bem asiática, sobretudo se for um sol nascente.

Já a holandesa Saskia Goldschmidt, em seu romance A fábrica de hormônios, faz seu personagem garanhão relatar, sem medo do lugar-comum: “Desabotoei e abaixei minha calça, e a minha fera, por fim liberada da jaula, avultou muito louca”. Daí, depois de embocar a cabeça da fera liberada na xota da mina, ele comenta que “ela estava quente como água fervendo dentro de um destilador de laboratório”.  Pelo visto as mulheres escritoras, como May-Lan e Saskia, têm certa predileção por descrever suas heroínas sexuais como vulcões fervilhantes prontos para esturricar as pirocas incautas que adentram seus organismos pela boca, pela vagina, sejá lá por onde for.

E os escritores homens, seriam mais criativos ou ousados ao narrar cenas de fuque-fuque explícito? O famoso Haruki Murakami, por exemplo, começa a sua cena de sexo lançando pra cima do herói duas minas “de pelos púbicos úmidos feito uma floresta tropical”. O romance em causa é O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, em tradução de Eunice Suenaga, pela Alfaguara. Eis que, a certa altura, o tal do Tsukuru tem seu pau, ou chinboko, como dizem os japas, guiado com autoridade por uma das garotas pra dentro da florestinha particular dela. “Seu pênis,” escreve Murakami, “encontrou o caminho sem resistência, como se sugado por um vácuo desprovido de ar”.Caraca! Isso me lembra aquelas bombas penianas a vácuo dos anúncios de “aumente seu pênis”. Se o Tsukuru – ou terá sido o próprio Murakami? – teve essa mesma sensação ao penetrar a garota é porque, na certa, já andou tentando aumentar o chinboko dele com aquela traquitana, reforçando dessa maneira o estereótipo urológico que tanto incomoda os machos japoneses.

Bom, é possível que os ingleses tenham lá sua razão quando apontam o dedo escarnecedor para o ridículo de certas descrições sexuais desses autores. Mas tenho pra mim que acontece com as cenas literárias de sexo o mesmo que o genial poeta lusitano Fernando Pessoa disse sobre as cartas de amor: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. Todas as cenas de sexo, pois, são ridículas aos nossos olhos, da mesma forma que a gente considera obsceno o sexo dos outros, nunca o que praticamos nós mesmos. Para mais ou menos comprovar isso, cito aqui outra cena de sexo que você, meu curioso leitor, vai por certo considerar ridiculamente obscena, ou obscenamente ridícula, como preferir. De qualquer modo, ela não consta da lista do Bad Sex Award, até porque o livro de onde foi extraída nunca foi traduzido para o inglês.

“A minha puta sabia tomar uma pica por via oral. Começou com um bem realizado tour de língua em torno da chapeleta, pra depois alojar o negócio sobre o leito da língua dentro da boca. Meu pau ficou descansando um pouco naquele berço esplêndido como um pequeno deus na manjedoura, antes que ela iniciasse o trabalho de sucção.”

Que te parece esse textículo, que na Idade Média teria valido ao seu autor a fogueira da Santa Inquisição, por comparar o pênis ao menino-deus adorado pelo catolicismo? Aposto como também mereceria arder na fogueira esnobe dos inglesinhos assexuados da Literary Review, que parecem buscar nada menos que o sublime nas cenas literárias de sexo, ao invés da velha e boa putaria. O autor, tenho certeza, agradeceria tal deferência, do fundo da sua conhecida falta de pudor e senso do ridículo. O nome desse autor, por sinal, nem preciso me dar ao trabalho de mencionar, pois você tá lendo o mala neste exato momento. O trecho citado foi pinçado do meu romance Pornopopéia, de 2009, que, por intencional coincidência, dá nome a esta coluna.

Feliz Ano-Novo erótico, meu chapa, dentro e fora das páginas dos livros e da deliciosa Status, a revista boa de cama!