BILL MURRAY

Avesso às regras de hollywood, o ator americano fala sobre sua fama de instável, critica o papel dos agentes e minimiza o poder da fama

 

Por Elaine Guerini

 

STATUS 45 - ENTREVISTA

Por desprezar agentes de Hollywood, Bill Murray dispensa os serviços desses profissionais desde 1995, quando decidiu administrar a carreira sozinho. “Agora ninguém me perturba quando estou jogando golfe.” O cineasta interessado em filmar com o ator de Os caça-fantasmas (1984), Feitiço do tempo (1993) e Encontros e Desencontros (2003) precisa ligar para um número 1-800 (de chamada gratuita) e deixar recado na sua secretária eletrônica, adiantando o assunto e a sinopse do filme. Se Murray gostar da ideia, ele mesmo entra em contato pedindo que o roteiro seja enviado até sua caixa postal no Estado de Nova York – ele mora em Rockland County. O comediante lançado no programa Saturday night live  ainda é conhecido por não cumprir a agenda de entrevistas organizada pelos distribuidores de seus filmes e por fugir (literalmente!) da imprensa. Depois de um dos encontros com a reportagem da Status, ele saiu de fininho, deixando alguns jornalistas estrangeiros que o esperavam sem entrevista e, o que é pior, sem explicação. “Não faço por mal. Só não me adapto bem às regras da indústria do cinema.’’ Mesmo quando Murray se compromete com uma filmagem, há sempre uma dúvida se ele realmente dará as caras. O ator não admite que ninguém organize sua agenda ou, quando preciso, cuide de seus preparativos de viagem. O primeiro dia de filmagem costuma ser tenso para a equipe, já que ninguém sabe exatamente o horário da sua chegada. “Quando piso no set, as pessoas parecem surpresas. Aí eu pergunto: Pensaram que eu não viria, não é?”, contou ele, rindo. A seguir, os principais trechos de duas entrevistas concedidas pelo ator de 64 anos – uma realizada em Berlim e a outra, em Toronto. “Fico entediado com muita facilidade”, avisou ele, com ar de quem nem sempre está para brincadeira.

 

– O fato de você não ter agente choca os profissionais da indústria, não?
– Muito. Não entendo a razão. Agentes são, pela natureza do negócio que fazemos, criaturas manipuladoras. Nem posso me lembrar dos insistentes telefonemas que recebia dos meus agentes anteriores… Isso já me dá calafrios. Essa maneira de pressionar os atores a aceitarem certos papéis não serve para mim. Não suporto quando forçam a barra.

– O que é preciso para convencê-lo a dizer “sim”?
– Prefiro um contato mais humano e suave. Se o diretor ou produtor tiver confiança na qualidade do filme que está me propondo, ele não se importará em mandar o roteiro pelo correio e em aguardar um pouco a resposta. Se o roteiro vier acompanhado de uma carta escrita à mão, melhor ainda. Dean Zanuck (produtor de Segredos de um funeral, que Murray rodou em 2009) me mandou uma carta, o que me comoveu. Como ele vem de uma família de tradição cinematográfica, podia ter dito: Meu avô (Darryl F. Zanuck, que produziu A malvada, entre outros clássicos nos anos 50) fez esse ou aquele filme importante. Mas não. Ele só deu um toque pessoal, mostrando apreço e consideração.

– Há rumores de que você perdeu papéis interessantes por não ter um agente. Como em A lula e a baleia (onde o protagonista foi parar nas mãos de Jeff Daniels) e em Pequena Miss Sunshine (o papel aqui foi oferecido a Steve Carell).
– Não sinto falta nenhuma de agentes. Eles não param de mandar roteiros ruins (risos). É tudo o que fazem. Sem falar que, muitas vezes, querem negociar você num pacote, com os outros atores que eles representam. Só um advogado é suficiente para auxiliá-lo na hora de assinar um contrato.

– Alguns diretores que já trabalharam com você, entre eles Sofia Coppola, confessaram que tiveram medo que você não fosse aparecer no dia combinado para iniciar a filmagem…
– Isso só acontece porque a indústria do cinema deixa todos muito inquietos. Como eu não tenho uma entourage para assegurá-los, a cada 15 minutos, que estou a caminho, eles costumam entrar em pânico. Mas sem motivo para isso. Hollywood me cansa justamente por essa ansiedade exagerada e por esperar que você esteja sempre disponível. Quando alguém da indústria manda um email, há uma expectativa de resposta imediata. E o que é pior: se você responde “Ok”, eles falam mais alguma coisa e esperam mais um “OK” da sua parte. Quando digo vou, eu vou. O que não suporto é ficar preso num joguinho de email para lá e para cá.

– Como faz quando precisa estar em Los Angeles?
– Raramente estou lá. Assim que você chega ao hotel, há vários recados. Todos dizendo praticamente a mesma coisa. No dia seguinte, assim que você acorda, já existem novas mensagens que eles encaminham por baixo da porta do seu quarto. É cansativo demais.

– É verdade que você foge das reuniões convencionais para discutir seus papéis? Theodore Melfi, que o dirigiu em Um santo vizinho (atualmente em cartaz no Brasil), contou que você pediu para encontrá-lo na esteira de bagagem no aeroporto de Los Angeles…
– Sim. Como evito viajar à Califórnia, avisei Theodore que estaria em Los Angeles e marquei de nos encontrarmos no aeroporto mesmo.Dali, aluguei um carro e levei o diretor comigo até Pechanga, uma reserva indígena que fui conhecer em Riverside County. Durante o trajeto, de mais de duas horas, eu disse o que achava do roteiro. Embora gostasse das ideias e do conteúdo, não concordava com a forma do protagonista se comunicar. Pudemos passar a limpo fala por fala, o que deixou o discurso do personagem mais direto.

– Você tem a reputação de um ator instável, deixando a equipe de filmagem aflita para saber qual será o seu humor no dia. Alguma semelhança com seu personagem em Um santo vizinho, o ranzinza veterano que serviu na Guerra do Vietnã?
– Será que eu sou tão irritável quanto meu personagem? Não sei. Só admito que é muito mais fácil interpretar o sujeito desagradável da história (risos). É só você fazer uma expressão de contrariado, dizer algum palavrão e sair chutando as coisas. Dificil é bancar o cara legal, algo que não aparece facilmente na cena. Como é que se faz a cara de alguém que está feliz por ter muitos amigos? É simplesmente chato.

– Essa é a razão de você ter feito poucos papéis de protagonista nos últimos anos?
– Não necessariamente. Dá para o ator deixar a sua marca, mesmo numa participação de coadjuvante. Claro que é mais difícil chegar a um set com o filme já em andamento. Você precisa não só entrar rapidamente no espírito, como trazer uma nova energia. Mas não me incomodo. Costumo dizer que não existem pequenos papéis. Apenas pequenos atores. Houve momentos em que tudo o que eu conseguia fazer era o coadjuvante.

– Por quê?
– Hoje consigo equilibrar melhor a vida pessoal e a profissional. Mas tive de desacelerar para me dedicar mais à família (Divorciado duas vezes, Murray teve seis filhos). Ser pai exige muita responsabilidade. É sempre complicado se comprometer por meses a fio com um trabalho. Os coadjuvantes foram boas opções por me permitirem trabalhar por cerca de duas semanas. Não mais que isso.

– Segue algum ritual para encontrar ou desenvolver o personagem que interpreta?
– Não. Às vezes, ouço histórias de colegas, dizendo: Finalmente achei o personagem quando vi aquele chapéu. Para mim, isso é bobagem. Procuro estar presente na cena. Só assim posso fazer a coisa acontecer.

– Quando descobriu que seu destino estava na atuação?
– Entre os 18 e 21 anos, não sabia o que fazer da vida, embora fosse um garoto esperto. Como consegui pagar os estudos trabalhando como caddie (acompanhante de jogador de golfe que transporta o saco), sabia que tinha força de vontade para conquistar algo. No trabalho do dia a dia, no entanto, não me dava bem. Não conseguia parar em emprego. Minha sorte foi ter começado a estudar teatro nessa época. De lá, eu me juntei ao grupo de improvisação Second City, de Chicago (Foi esse trabalho que o levou a ser chamado para o humorístico Saturday night live, onde sua carreira deslanchou).

– E quando percebeu que ganharia dinheiro fazendo o público rir?
– No início, queria impactar as pessoas. Mas não sabia como. Nunca pensei que pudesse vencer no cinema. Comecei a atuar só para ter o que fazer e também porque interpretar era algo que me interessava. Quando passaram a me pagar para atuar, eu mal acreditei. Numa noite, quando estava no palco, finalmente percebi que poderia ganhar a vida com isso. O meu humor de alguma forma tocava as pessoas. Daí, conforme fui ganhando experiência, tive a certeza de que, quanto mais eu me divertisse com os personagens, melhor eu seria.

– É por isso que você não gosta de quem se leva muito a sério como ator?
– Por que alguém deveria? Quando o ator é bom, ele geralmente sabe que, quanto mais ele se soltar e relaxar no set, melhor será a sua performance. O senso de humor é importante porque atuar, no fundo, nada mais é do que brincar e jogar. Eu nunca gostei de sets com atmosfera competitiva. Os melhores profissionais com quem trabalhei entendiam que o ator se torna melhor ao contracenar com o outro. Quando um deles precisa reafirmar o seu talento o tempo todo, a filmagem vira um maçante confronto de egos. Estou velho para isso.

– Por sua importância cultural, Feitiço do tempo é um dos filmes do acervo da Biblioteca do Congresso americano. Quanto você contribuiu para o sucesso do filme?
– Contribuí não só como ator, mas no roteiro. O cara que escreveu a trama, Danny Rubin, nunca foi a Punxsutawney, na Pennsylvania, onde é realizada a maior celebração do Dia da Marmota, nos EUA. Eu visitei a cidade, ainda que a produção não tivesse programado nenhuma viagem. Tive a sorte de só começar a filmar algumas semanas depois da data da festa, em 2 de fevereiro, o que me permitiu ter a experiência primeiro. É uma das coisas mais hilárias que já presenciei na vida. Como vi coisas que o roteirista nem podia imaginar, trouxe muitos aspectos realistas para o filme, o que acentuou o humor. Não quero ofuscar o crédito do roteirista. Afinal, a ideia poderosa foi dele. Só não diminuo o meu mérito, por ter acrescentado camadas à obra.

– Consegue se distanciar dos trabalhos, a ponto de apreciar os seus filmes pelo que eles são e avaliar a sua atuação friamente?
– É preciso e, neste caso, fácil de fazer. Feitiço do tempo é uma comédia incomum e realmente inteligente. Talvez seja esse o meu melhor trabalho. Sei ser engraçado quando preciso.

– O que a fama significa para você?
– Não significa nada. Ela só ajuda a conseguir a melhor mesa de um restaurante. Mas por que eu precisaria da melhor mesa da casa? Afinal, só estou lá para comer. Ou não?

– Qual a sua reação diante de fãs vestindo o seu uniforme em Os caça-fantasmas? Toma como elogio ou tem uma atitude mais blasé, de quem pensa: Esse cara não tem nada melhor para fazer?
– Como se sentiria, se alguém se vestisse exatamente como você?
– Não sei. No mínimo, seria estranho.
– É esquisito, sim. Mas acabo me sentindo lisonjeado. Até porque tenho respeito pelo que faço. Isso prova que devo ter algum valor na profissão que escolhi. Do contrário, por que eles se dariam ao trabalho de confeccionar uma roupa tão nonsense?

– Há milhões de páginas dedicadas a você na internet. Costuma vê-las?
– Não. Só ouço comentários. Raramente estou online. Na maioria das vezes é para checar a grafia de uma palavra. Seria o fim do mundo dar busca com o meu nome.

– Já viu a nota de cinco dólares que substitui a imagem de Abraham Lincoln pelo seu rosto?
– Já. É ridícula. Sempre me pergunto: por que não fizeram isso na nota de cem dólares?