UMA PORN STAR NA LINHA DE TIRO

De uma hora para outra, a libanesa mia Khalifa se tornou a estrela pornô mais popular do planeta. Mas isso teve um alto preço: ela inflamou a ira dos conservadores do oriente médio

 

Por Jr. Bellé

 

STATUS 45 - TOP SECRET

Até cinco meses atrás, Mia Khalifa (nome artístico), uma jovem de 21 anos, tinha uma vida normal: casada há três anos, trabalhava no caixa de uma hamburgueria na badalada região de South Beach, em Miami, cultivava uma relação distante, porém cordial, com os pais e pensava em levar adiante os estudos de pós-graduação, afinal seu diploma de bacharel em história pela Universidade do Texas já estava tomando pó no fundo do armário. Mas tudo mudou por conta de sua origem libanesa e de seus maravilhosos peitos. Foi o tamanho avantajado deles, bem como a indiferença da dupla à gravidade o que, a princípio, abriu uma avenida de possibilidades para Mia trilhar na indústria pornográfica. Ela seria apenas mais uma linda e sapeca teenager, não fosse o fato de ter nascido no Oriente Médio, particularmente num país de maioria muçulmana. Isso deu asas a um desejo carnal latente em milhões de homens ao redor do mundo, especialmente os ocidentais: ver uma mulher de jihab (véu islâmico), e autenticamente vinda do Oriente Médio, transando diante de seus olhos. O que ninguém poderia imaginar era que em menos de quatro meses de carreira, ela decolasse para o topo do ranking do site Pornhub, desbancando a rainha Lisa Ann e sagrando-se a pornstar mais popular do planeta.

Algum desavisado poderia argumentar que se trata apenas de um site de putaria. De acordo com a companhia Alexa de mapeamento da rede, o Pornhub é o 72º site mais acessado do mundo. Em termos de comparação, a BBC é o 75º, o New York Times o 100º e a Folha de São Paulo o 776º. Em 2014, os vídeos do Pornhub somaram 78,9 bilhões de visualizações e mais de 18 bilhões de acessos. Não à toa, Mia foi notícia nos principais veículos de comunicação mundo afora. Uma canção foi escrita em sua homenagem pelos rappers do Timeflies. Milhões de pessoas assistiram Mia em ação e foi justamente essa exposição excessiva que a colocou na mira dos fundamentalistas. Muitos dos olhos que a admiraram estão fincados no Líbano, sua terra natal, onde a pornografia não é majoritariamente aceita como um modo honesto de se fazer dinheiro. Com os holofotes do ocidente voltados para uma conterrânea, um acalorado debate nacional teve início. Dele surgiram tanto honrosas menções de apoio quanto terríveis ameaças de morte.

Um hambúrguer e duas batatas fritas

Nascida em Beirute em fevereiro de 1993, Mia emigrou para os Estados Unidos com a família quando tinha apenas 10 anos. O destino foi Montgomery County, no estado de Maryland. Cursou a universidade em El Paso, no Texas, e por fim estabeleceu-se em Miami, onde conseguiu um emprego como caixa de um fast-food. O lugar dista poucas quadras do escritório da Scoreland, uma conhecida produtora de conteúdo erótico e pornô. Os editores e diretores de arte costumam almoçar por lá toda sexta. Notórios caçadores de talentos, eles logo repararam que a caixa do restaurante possuía impressionantes qualificações físicas para ser uma Score Girl, a garota que mensalmente posa nua para a revista da companhia. De qualquer forma, acharam por bem manter as relações afáveis e não fazer qualquer tipo de proposta indecente que pudesse colocar um cuspe no meio do picles.

STATUS 45 - TOP SECRET

Inocentemente, Dave, editor da Scoreland, resolveu comer um hambúrguer sozinho numa quarta-feira. Ele pediu um lanche para viagem e já estava acelerando seu carro quando uma avassaladora mulher passou diante do para-choque. “Ela estava usando uma minúscula minissaia. Usava um sapato que dizia ‘me foda’. Usava um top que deixava as costas bem descobertas. Tinha uma cintura pequena. E os peitos? Enormes! Quero dizer: realmente enormes! Aquela era uma das mulheres mais lindas que eu já tinha visto”, escreveu Dave no blog da Scoreland. A mulher se deteve um instante para olhar o motorista que quase avançou com o carro sobre ela. Então bateu delicadamente no vidro e ofereceu a Dave um provocante “Olá, como vai?”. Transtornado e confuso, afinal ele ainda não tinha ligado os peitos à pessoa, abaixou o vidro e perguntou se eles já se conheciam. Não pode conter o sorriso ao descobrir que se tratava de Mia, a garota do caixa. Uau, ela estava ainda mais atraente e deliciosa sem aquele uniforme em tons pastéis.

Menos de um mês e duas investidas da Scoreland depois, Mia não apenas aceitou posar nua como também estrelar um filme pornô. “Quando os garotos falaram a respeito disso pela primeira vez”, contou Mia ao blog da produtora, “eu não tive dúvidas. Então percebi que eles faziam pornô hardcore e fiquei ainda mais excitada. Eu poderia ser paga para fazer meu hobby”. Logo na primeira gravação, ficou claro para Dave e sua equipe que o tamanho do busto de Mia era apenas uma pequena amostra de sua inaudita inclinação para o cinema adulto. “Nunca imaginei que ela iria tão longe diante da câmera. Nunca imaginei que ela soubesse fazer um deep-throat no mesmo nível das melhores deep-throters da história. E eu também nunca imaginei que três quartos da Scoreland já estava apaixonada por ela”, conta Dave.

STATUS 45 - TOP SECRET

O sucesso e a polêmica

Em menos de quatro meses, Mia gravou cerca de uma dezena de filmes pela Scoreland e viu sua fama crescer mais do que os membros de seus fãs admirando-a em ação. No entanto, foi uma única cena, já pela BangBross – uma das maiores produtoras pornô do mundo – a responsável por catapultá-la ao estrelato: Mia Khalifa is Cumming for Dinner. Nesta produção, ela atua ao lado de Sean Lawless e Julianna Vega, que faz o papel de sua madrasta. As duas vestem o jihab, o elemento da discórdia, a faísca que iniciou o incêndio. Mia é cristã, mas seu personagem naquela cena era o de uma muçulmana muito, muito devassa, o que foi imediatamente interpretado como uma atitude desrespeitosa. Além do jihab, existem outros dois pontos sensíveis para os libaneses: as tatuagens de Mia. No braço esquerdo, ela gravou a primeira linha do hino nacional libanês: (Todos nós! Por nosso país, por nossa bandeira e glória!). Pouco abaixo, no pulso esquerdo está a cruz das Forças Libanesas, símbolo do conservador partido cristão, que se opõem ao regime sírio de Bashar Assad. Mia justificou-se afirmando que a cruz foi tatuada em apoio ao pai, partidário dos conservadores, após os episódios de outubro de 2012, quando Beirute foi bombardeada. “Queria mostrar a ele que eu estava do seu lado”, contou ao repórter Adam Taylor, do Washington Post.

STATUS 45 - TOP SECRET

Poucas horas após o upload do vídeo, o número de visualizações venceu os milhares. Em dias, bateu a casa dos milhões. Em semanas, Mia foi arremessada para a fama mundial, o que se consolidou com o relatório anual do Pornhub. “A quentíssima novata Mia Khalifa recentemente reivindicou a liderança da Rainha Lisa Ann – vamos ver se ela consegue manter o trono durante 2015”, diz o relatório. Via Twitter, o site parabenizou publicamente a nova pornstar: “@Pornhub: Congrats @MiaKhalifa currently the #1 ranked pornstar on Pornhub taking the crown from Lisa Ann”. Os números afiançam o arrebatador sucesso da nova detentora do título de popularidade. O vídeo mais acessado do Pornhub em 2014 foi Nublie’s Film “Fucking Hot”, estrelado por Holly Michaels, com 16,3 milhões de visualizações em 11 meses. A cena de Mia com Julianna e Sean foi assistida mais de 12 milhões de vezes em menos de dois meses (isso sem contar as reproduções deste mesmo vídeo com títulos diferentes, uma delas aproxima-se da marca de cinco milhões de visualizações). Outro vídeo de Mia, lançado no Pornhub há pouco mais de um mês, já beira os 13 milhões. Rapidamente, Mia alcançou a marca de 423 mil seguidores no Twitter e 711 mil no Instagram.

STATUS 45 - TOP SECRET

AS RAÍZES LIBANESAS

Para ser conhecido como o país mais liberal do Oriente Médio, tendo a seu favor uma relativa tolerância religiosa entre os 54% de muçulmanos e 40% de cristãos, o Líbano passou por maus bocados. Entre 1975 e 1990, o país esteve afundado numa sangrenta guerra civil que o polarizou ideologicamente. A intransigência voltou a pauta nos dez meses – entre 2013 e 2014 – em que o Líbano ficou sem governo devido ao desentendimento entre liberais e conservadores. Foi o coro destes últimos que furiosamente se voltou contra Mia. De acordo com o Lebanese Examiner – maior portal de notícias libanesas em inglês –, editoriais e articulistas dos principais jornais do país bradaram contra a jovem, incluindo termos como “a desgraça da nação” e “vergonha do Líbano”. Mia teme que o burburinho em torno dela seja apenas um teatro para aumentar a influência conservadora na política do país. O temor da atriz tem algum sentido. Apesar do governo libanês não restringir o acesso da população à internet – fato atestado pela organização Freedom House, que monitora a liberdade na rede –, em setembro último, o ministro das telecomunicações pediu o bloqueio de seis sites pornográficos por razões de “decência social”, abrindo um precedente perigoso. De qualquer forma, foi nas redes sociais que o ódio reacionário escondido no coração de alguns libaneses ganhou eco, verbalizando-se em incontáveis agressões de 140 caracteres e algumas ameaças de morte. Mia confessou que foi muito difícil ler algumas dessas manifestações, “principalmente as que diziam que eu sou a desgraça do meu país e que eu deveria me matar”. As mensagens, no entanto, não foram capazes de diminuir a impetuosidade da atriz. Em seu mais recente filme, ela transa com dois homens negros bastante avantajados. Na foto de divulgação do Mia Khalifa’s First Monster Cock, ela aparece novamente de jihab, agachada e timidamente sorridente no meio dos atores a meio mastro.

STATUS 45 - TOP SECRET

Para Mia, a pior parte desta história foi a reação de seus familiares. Eles publicaram uma nota oficial em agências de notícias árabes engrossando o coro de condenações. “Enfatizamos que nos desassociamos das ações de Mia, que não refletem as crenças de sua família, a educação que recebeu ou suas verdadeiras raízes libanesas. Esperamos que ela retome o sentido, sua imagem não honra sua família nem sua terra natal – Líbano”. A nota ainda afirma que após sair de casa, aos 18 anos, “como é comum no ocidente”, Mia perdeu o contato com os pais, que estão cientes da influência direta que tiveram no caminho escolhido pela filha: “Nós provavelmente estamos pagando o preço de viver longe de nossa pátria; nossas crianças tiveram que se adaptar a uma sociedade que não se assemelha a nossa cultura, tradições e valores”. Em entrevista ao jornalista Taylor Wofford, da Newsweek, Mia reconhece que sua relação com a família jamais será a mesma. “Isso tudo explodiu numa escala enorme. Todos, desde meus primos de segundo grau até os amigos da família e dos meus pais ficaram sabendo. Isso não será perdoado. Ninguém na minha família está falando comigo”. Com seus esplêndidos peitos abertos e um sorriso resiliente na cara, Mia vai de encontro às animosidades conservadoras da família e dos compatriotas. Que fique claro, a pornstar mais popular do planeta não pensa em aposentadoria precoce: “Não é uma carreira que eu pretenda trilhar o resto da vida, mas continuarei fazendo isso enquanto eu puder”.

STATUS 45 - TOP SECRET