FÚRIA NO MAR

A expressão “os donos do pedaço” nunca fez tanto sentido quanto no atual mundo do surf. em muitas praias, lutadores travestidos de surfistas reivindicam as ondas só para o seu grupo e ameaçam com violência quem se atreve a enfrentá-los. conheça o universo do localismo

 

Por Steven Allain

 

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Quando entrou no mar naquela manhã de agosto de 2014, Alessandro Castro queria apenas aproveitar o dia ensolarado e as boas ondas que quebravam na praia do Campeche, em Florianópolis. O surfista catarinense de 44 anos não imaginava que terminaria o dia no hospital.

Ele surfava uma determinada onda quando outro surfista desceu em sua frente – ou seja, ambos passaram a deslizar sobre a mesma ondulação. A colisão foi inevitável e os dois caíram e embolaram-se na espuma. Segundo a etiqueta do surf, quem primeiro fica em pé na prancha tem a prioridade. Ondas, normalmente, não são “divididas” entre surfistas. Além de perigoso, descer na onda do outro – dar uma “rabeada”, na gíria do esporte – é considerado antiético e desrespeitoso. “Você não me viu na onda?”, perguntou Alessandro ao voltar à superfície. “Aqui quem surfa primeiro sou eu”, retrucou o “rabeador”. Como se não bastasse, o infrator partiu para cima de Alessandro. Logo em seguida, mais dois surfistas juntaram-se ao agressor. Covardemente, os três desferiram socos, tapas e tentaram afogar Alessandro, ainda na beira da praia. O espancamento só terminou quando banhistas interviram. Alessandro sofreu cortes no rosto e hematomas no corpo.

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O quebra-mar, na praia da Barra, no Rrio de Janeiro, é conhecido por seus frequentadores violentos

O motivo da violência? Os três surfistas são “locais” do Campeche, enquanto Alessandro (que vive na mesma cidade, porém em outra área) é considerado um “haole”, como são chamados surfistas de fora. O local de uma determinada praia é quem reside na mesma, ou muito próxima a ela – e geralmente, como nesse caso, considera que tem mais direito de usufruir desse pedaço de areia do que alguém que viva, digamos, em outro município ou bairro. Pode parecer loucura, mas a absurda cena descrita acima não é uma raridade no surf. Essa é a face mais sombria do chamado localismo. A única diferença é que a ação covarde desses autointitulados locais foi filmada por banhistas e colocada no YouTube. As imagens foram veiculadas em todo o Brasil e a repercussão trouxe o assunto, mais uma vez, à tona. O Ministério Público e a Polícia Militar prometeram investigar o caso e punir os agressores. Um deles é o policial militar Elton Pires – notório por intimidar e agredir surfistas “de fora” regularmente no Campeche. Até agora, porém, ninguém foi indiciado.

O localismo já é instituído em uma série de praias no Brasil. Um dos lugares mais temidos por haoles devido à violência dos locais é o Quebra-Mar, no canto esquerdo da praia da Barra, próximo ao Morro da Joatinga, no Rio de Janeiro. Alguns anos atrás, Fred D’Orey, ex-surfista profissional e proprietário da Totem, uma das grifes mais tradicionais do mercado carioca, foi intimidado e expulso do mar naquele local. Ele foi à policia e escreveu sobre o caso em sua coluna na revista Fluir. Em represália, os locais do Quebra-Mar – muitos deles policiais e lutadores – apedrejaram seu escritório durante a noite. Fred teve até sorte. São notórios e constantes os casos de agressões mais graves na área, conhecida pelo localismo agressivo. “O Quebra-Mar é uma praia que desde o inicio dos anos 90 foi tomada por marginais e maus policiais. Inacreditável que isso perdure até hoje e as autoridades não tenham acabado com essa bandidagem que privatizou um espaço público,” diz D’Orey.

No Rio de Janeiro, o localismo já interferiu até na realização do circuito mundial de surf (WCT). Após os organizadores terem sido obrigados a negociar com surfistas do Arpoador para realizar uma prova, o local foi vetado na competição. Hoje, há uma etapa do WCT na Praia da Barra, mas o Quebra-Mar, segundo o presidente da Federação Estadual de Surf, Abílio Fernandes, é o único trecho de areia que não recebe campeonatos, por causa do localismo.

O surfista profissional Everaldo Teixeira, o Pato, também já foi vítima da truculência – no seu caso em outra praia notória pela agressividade de seus locais: Atalaia, em Itajaí, Santa Catarina. “Entrei na água e antes mesmo que pudesse pegar minha primeira onda os locais já berravam comigo para sair do mar,” diz ele. “Fingi que não era comigo e então começaram a jogar pedras e tijolos do costão em minha direção. O pessoal não estava nem surfando, eles estavam sentados nas pedras olhando o mar. Mas quando viram que eu era de fora fizeram questão de me expulsar. Saí remando para o outro lado, sob uma chuva de detritos.”

Truculência importada

O localismo não é um fenômeno recente, muito menos exclusivo do Brasil. Ele surgiu no Havaí nos anos 1970 para estabelecer a ordem nas praias onde o surf ficara caótico e perigoso devido ao excesso de praticantes. Inicialmente, era positivo, como ainda ocorre em vários locais pelo mundo, como Indonésia, Peru e Fernando de Noronha, por exemplo, onde os nativos certificam-se que todos na água usem o bom senso e respeitem as regras. Ou seja, observem a prioridade e deixem que todo mundo surfe, incluindo iniciantes e surfistas de pouca habilidade. Mas o movimento que surgiu para evitar abusos e desrespeito no mar hoje se tornou um problema. Uma vez que um surfista atinge o status de local, na esmagadora maioria dos casos esse indivíduo não vê sua posição privilegiada no mar como uma honrosa responsabilidade, mas sim como um passe livre para pegar o maior número de ondas possível, mesmo que isso estrague a diversão dos outros. E se algum haole reclamar, juntam-se os locais e a porrada come solta no forasteiro. “A lógica é simples: quando muita gente quer usufruir de um recurso limitado (no caso, as ondas), surge uma disputa onde o mais forte tende a usar sua posição privilegiada para seu beneficio,” diz o jornalista australiano Nick Carroll, que já escreveu inúmeros artigos sobre o tema.

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O primeiro grupo organizado de locais havaianos chamava-se “Da Hui Ohe’e Nalu”, que em português significa “Clube dos Deslizadores de Ondas”. Eles eram conhecidos pela brutalidade com a qual lidavam com surfistas não-havaianos e pelas bermudas pretas que vestiam – daí o apelido do grupo: “Black Trunks”. A gangue tornou-se lendária no mundo do surf e virou referência para aqueles que praticam o localismo. Não foram poucos os episódios de brigas, muitas vezes sangrentas, entre haoles brasileiros e os Black Trunks no Havaí, principalmente nos anos 1980. Hoje, o “xerife” dos Black Trunks originais, “Fast” Eddie Rothman, é dono da marca que leva o nome abreviado da gangue que fundou em 1976, a “Da Hui”. Mesmo aos quase 70 anos de idade, Rothman ainda é uma figura respeitada e temida na ilha e nenhuma confusão, briga ou desentendimento é resolvido sem seu aval.

Claramente, essa dinâmica de bairrismo violento está incrustada na cultura do surf há muito tempo. Esse abuso de poder, essa noção de que nascer próximo a uma praia dá a absoluta propriedade sobre suas ondas, é estranha e essencialmente aceita pela comunidade do surf como uma faceta imutável do esporte. No entanto, lentamente as vozes da razão têm ecoado mais alto contra o localismo abusivo e violento. Lenda do surf australiano e campeão mundial de 1966, Nat Young é um deles. Em 2000, ele agrediu um surfista mais jovem enquanto surfava na praia de Angourie, na costa leste da Austrália. Ao sair da água, o pai do surfista veio em sua direção, desferindo violentamente vários socos. Young ficou desfigurado e foi parar no hospital. A foto de seu rosto extremamente inchado circulou em inúmeros veículos de todo o mundo. O incidente fez com que ele escrevesse o livro Surf Rage, que trata da violência no surf. Nele, o australiano diz que devemos “transformar algo negativo em positivo”, sugerindo essencialmente que cada surfista deveria agir com consciência e respeito no mar.

Tetsuhiko Endo, editor do site especializado The Inertia é da mesma opinião. “O mar poderia ser um ambiente mais igualitário, baseado em direitos em vez de poder”, diz ele. “Todo surfista poderia ter direito a uma ou duas ondas. Todo surfista deveria ter o direito de se divertir.”

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Acima e nesta foto, o local mais briguento do Havaí, o bad boy Kala Alexander

Reação à violência

Nos Estados Unidos, pelo menos, as coisas parecem estar mudando e casos de localismo agressivo já não terminam sempre em pizza. Um local de Silver Strand, praia ao sul de Los Angeles, passou recentemente nove meses na prisão e foi banido de frequentar a mesma praia por três anos após agredir um haole que “ousou” surfar sua onda. Outro que seguiu o mesmo caminho é o local mais briguento e notório do Havaí, Kala Alexander, que aparece em vários vídeos no YouTube espancando haoles, responde atualmente a alguns processos e está em liberdade provisória. Se o bad boy havaiano bater em mais alguém, vai em cana.

No Brasil, autoridades esboçam uma reação. O delegado da Policia Federal Luis Carlos Koff afirma que a entidade já investiga casos de localismo em Santa Catarina desde 2006. “Isso aí que chamam de localismo na verdade é crime. São atos de formação de quadrilha para cometer crimes de ameaça, constrangimento ilegal, dano e lesões corporais”, diz ele. “Não existe qualquer possibilidade legal de alguém se sentir com mais direito de usar um determinado ponto da praia por morar nas proximidades”. Portanto, se for agredido, intimidado ou impedido de surfar em uma determinada praia, qualquer surfista pode denunciar o acontecido e reclamar seus direitos. Mas é muito provável que nada ou pouco aconteça. Afinal, impunidade não é exclusiva dos políticos.

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Para surfar sem problemas, até em praias fortemente dominadas por “forças locais”, a melhor saída ainda é o bom senso: trate o próximo como gostaria de ser tratado, com respeito; evite surfar em grandes grupos e espere sua vez, respeitando sempre a prioridade do próximo. Como bem diz o guru do jornalismo de surf, o americano Drew Kampion, “os surfistas deveriam se unir e não brigar entre si, pois o verdadeiro inimigo é outro: o progresso desordenado e a poluição dos oceanos. Enquanto nós nos digladiamos por ondas, eles as estão destruindo”.

 

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