ENTRELINHAS

Tudo sobre o mundo da literatura

 

Por Ronaldo Bressane

 

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JIMI HENDRIX VIVE
O que estaria fazendo o guitarrista hoje, não tivesse saído de cena em 1970?Impossível saber, mas em Jimi Hendrix por ele mesmo (Zahar; 216 págs.; R$ 43) temos algumas chances de adivinhar. Os jornalistas Alan Douglas e Peter Noel por 20 anos recolheram todas as entrevistas, guardanapos, bilhetes, cartas e notas assinadas por Hendrix e fizeram desse quebra-cabeça uma bela autobiografia. Nela estão expostas as raízes de sua genialidade, mas também de sua humildade – não se considerava um músico brilhante –, sua ambivalente relação com o movimento negro (louco por louras, estava mais para integracionista do que para um Pantera Negra), sua ligação com as drogas, o misticismo e sua profissão de fé no amor.

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ESCRITA SANGUE NOZÓIO
Romance narra os obstáculos enfrentados por uma mulher vítima de uma estranha doença. Ainda jovem, ela foi saudada por ninguém menos do que Roberto Bolaño como uma das maiores promessas da literatura chilena. Madura, Lina Meruene chega ao Brasil com um romance inquietante: Sangue no olho (Cosac Naify; 192 págs.; R$ 35). A narradora e protagonista é escritora, vive em Nova York, está prestes a se mudar para o apartamento do namorado e a vida parece lhe sorrir quando uma doença lhe atinge a visão, fazendo com que seus olhos fiquem injetados de sangue – aos poucos ela perde a capacidade de enxergar. Então entram em cena uma família amalucada, um médico enigmático e um professor que, transformado em guia, transforma sua amizade em relação sadomasoquista.

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VIAGEM ESCRITA E DESENHADA
Doze cidades por doze mulheres e uma ilustradora.Uma das mais interessantes editoras independentes, famosa por suas criações originais e livros de design inovador, a Lote 42 lança outra mimosidade cremosa e crocante, com cara de presente para dar para a namorada: Queria ter ficado mais (107 págs.; R$ 50). São doze envelopes, todos desenhados pela artista Eva Uviedo, que contêm breves relatos de doze escritoras sobre doze cidades em que estiveram. Há contos de Clara Averbuck, Barbara Heckler, Cecilia Arbolare e outras novíssimas autoras-viajantes, e cidades como Londres, Barcelona, Buenos Aires, Roma, Nova York, Jerusalém, Tóquio. Todos os textos têm poucas páginas, devolvendo aquela impressão natural de toda viagem inesquecível: foi bom porque durou pouco.

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ROUPA NOVA, IDEIAS VELHAS
O lado mais sombrio do marketing e da moda.Inventor do gênero cyberpunk e autor de Neuromancer, clássico da ficção-científica que foi largamente chupada na trilogia Matrix, o americano William Gibson começou a escrever no futuro, mas nos últimos livros tem se focado no nosso acelerado presente. Em História zero (Aleph; 504 págs.; R$ 50), Hollis Henry é contratada pelo plutocrata belga Huburtus Bigend para desvendar a identidade de um estilista responsável por uma misteriosa e bem-sucedida marca de roupas. Mas ela acaba topando com traficantes de armas, hackers em reabilitação contra drogas, agentes secretos e malévolos especialistas em branding, estes, os mais perigosos.

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VIVA LOCOMBIA!
Autor cult colombiano ganha, enfim, tradução para o português. Editora especializada em recuperar pepitas editoriais, como o romance Stoned, de John Williams, a Rádio Londres verte ao português um dos livros mais cultuados da literatura hispânica: Viva a música! (222 págs.; R$ 30), de Andrés Caicedo. Que não se perca pelo sobrenome: Caicedo matou-se aos 25 anos, tomando 60 soníferos tão logo recebeu as provas de seu único romance – tornando-se assim uma espécie de Kurt Cobain colombiano, e, com sua escrita punk, divertida e delirante, uma versão em negativo de Gabriel García Márquez, que influenciou toda a literatura latino-americana. A história de María del Carmen, louríssima garota que seduzia toda a cidade de Cali, é ao mesmo tempo mágica e trágica: sua compulsão ilimitada pelo prazer – que incluía largas doses de salsa, rock e outros aditivos – é uma das melhores metáforas de Locombia, este país tão louco, tão perto e tão distante de nós.

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O CREME DO CRIME
Os arquivos da maior especialista em serial killers do Brasil. Colaboradora da série Global Dupla Identidade, a incansável pesquisadora Ilana Casoy já escreveu sobre o casal Nardoni, o caso Richtofen e participou até da criação do famoso psicopata Dexter. Em Serial killers: louco ou cruel?  e Serial killers: made in Brazil (Dark Side; 360 págs.; R$100), Ilana detém-se sobre criminosos brasileiros como Chico Picadinho, Pedrinho Matador, Febronio Índio do Brasil, o Monstro de Guaianases e o Monstro do Morumbi, mas também estuda as histórias de grandes assassinos – como o Zodíaco, Jeffrey Dahmer e Andrei Chikatillo. Para ler com todas as luzes de casa acesas.

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RABUGENTA OU GENIAL?
A história da musa de Noel Rosa e jurada de Silvio Santos.Trintões e quarentões certamente se lembram dos terríveis veredictos daquela senhora de oclão enorme ornando com um cabelão afro e a voz rouca escapando de uma cara de sapo cururu. Os mais velhos saberão que a jurada do programa Silvio Santos já havia sido uma das musas da música brasileira, quando jovem, tempo em que Aracy de Almeida foi a intérprete favorita do gênio Noel Rosa. O jornalista Eduardo Logullo recolheu, em Aracy de Almeida – não tem tradução (Veneta; 216 págs.; R$ 35), dezenas de historietas deliciosas da transgressora mulher e malandra que colocaria essas cantorazinhas anêmicas de hoje no chinelo.

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Quem era a senhora que muitos críticos apontam como uma das maiores cantoras do Brasil, e outros apenas como uma jurada rancorosa?