WIM WENDERS

Aos 69 anos, o cineasta alemão é reconhecido na Berlinale e no Oscar

 

Por Elaine Guerini, de Berlim e Los Angeles

 

STATUS 45 - APPROACH, PROJEÇÃO

Cena de O sal da Terra, onde Wenders celebra a imagem que Salgado capturou no garimpo de Serra Pelada

Wim Wenders nunca teve medo de desenvolver temas existenciais nas telas, reforçando “a profundidade e as contradições da alma”. “Filmar é sempre um exercício intimista e pessoal”, diz o diretor, aclamado com Paris, Texas e Asas do desejo. Com quase 50 anos de carreira, Wenders recebeu um Urso de Ouro honorário na última edição do Festival de Berlim. Ele ainda foi lembrado pela Academia de Hollywood, concorrendo ao Oscar de documentário com O sal da Terra, no qual resgatou a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. São imagens que enchem a tela, abrangendo o trabalho do brasileiro em vários continentes, onde ele cobriu conflitos internacionais, acompanhou migrações de populações ou contemplou as paisagens mais estonteantes do planeta. Wenders falou à Status.

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Wenders, ao lado de Salgado e de Juliano Ribeiro Salgado (filho do fotógrafo), com quem o alemão dirigiu o filme

– Assim como Salgado, você viajou muito com seus road movies pelo mundo. O que mais o seduz no gênero?
– A liberdade que o diretor tem. Também é o único gênero que precisa ser rodado em ordem cronológica. Além disso, sempre fui fascinado por aviões, trens e carros.

– Sobretudo carros, não?
– Sim. Já devo ter feito todas as tomadas possíveis, dentro e fora de um automóvel. Confesso que até rodei comerciais de carros só pelo gostinho de fazer tomadas caras demais para o cinema.

– É raro um diretor do seu calibre se interessar tanto por documentários…
– No futuro, acho que o gênero será a força motriz. A tendência é ficarmos cada vez mais fartos das fantasias, buscando trajetórias de vida reais que nos inspiram, como a de Salgado.

– Por que escolheu Walter Salles para fazer o discurso em sua homenagem na Berlinale?
– Queria alguém capaz de ir além do discurso intelectual. Só lamento ter arruinado as férias de Walter. Quando telefonei, para convidá-lo, ele estava descansando na praia (risos).

 

Lição Depsicodelia

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Paul Thomas Anderson embarca na psicodelia ao revisitar os anos 70 em Vício inerente. É um delicioso ensaio sobre a paranoia, da perspectiva de detetive particular movido a drogas (Joaquin Phoenix). Tudo foi filmado como se fosse uma “bad trip” – a ponto de a plateia questionar se o protagonista está vivendo aquilo tudo ou apenas “viajando”.

 

O lado sério de John Stewart

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Foi o sentimento de urgência que levou o apresentador Jon Stewart, do Daily Show, a gritar “ação!” pela primeira vez num set. “Jamais confiei no meu taco como diretor e ainda não confio”, admitiu Stewart, que assina 118 Dias. A produção revive o drama do jornalista da Newsweek, Maziar Bahari, torturado no Irã, onde cobria os protestos nas eleições presidenciais, em 2009. O repórter foi preso após dar entrevista a Stewart, no noticiário em tom satírico. Foi por conta desse depoimento que o governo iraniano passou a suspeitar de que ele era espião. “Quando Bahari, já solto, me procurou para ajudá-lo a contar a sua história, pensei em diretores renomados. Como ninguém estava livre para filmar tão cedo, o jeito foi me candidatar, apesar de eu não ser nenhum Stanley Kubrick.’’

 

A humanidade de Julianne Moore

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Um simples olhar de Julianne Moore costuma dizer muito nas telas. É essa característica que provavelmente torna a atriz tão perfeita para encarnar heroínas trágicas – como as de Fim de caso, Longe do paraíso e As horas. Em Para sempre Alice, mais uma vez a ruiva de olhos verdes e pele coberta de sardas imprime muita humanidade na personagem que interpreta. No caso, uma professora de Linguística da Universidade de Columbia diagnosticada com Alzheimer precoce, aos 50 anos. Impossível não se emocionar quando Alice se desespera com a ideia de não se lembrar mais de quem é ou da família. Sua performance rendeu o seu primeiro e merecido Oscar. “Eu só reproduzi no filme o que ouvi nas dezenas de depoimentos de pacientes, de médicos e de familiares com quem falei. Acho que nada pode ser pior para uma mãe do que o medo de olhar para o rosto de um e não reconhecê-lo”, contou ela.

 

Crônica da vida real

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O olhar de Edu Felistoque sobre uma frenética metrópole como São Paulo moldou Insubordinados, o primeiro título de uma trilogia rodada em preto e branco. A protagonista aqui (Silvia Lourenço) inventa tramas policiais usando os funcionários do hospital – onde seu pai está em coma – como personagens da história que ela escreve. “O hábito de caminhar e de usar o transporte público sempre me levou a observar pessoas, lugares e o cotidiano da cidade. Isso me ajudou a trazer referências e histórias para a obra, também calcada em coisas que eu e Silvia (que acumula a função de roteirista) vivemos”, contou o cineasta.

 

Estreias do mês

Três grandes atores em cartaz

KINGSMAN – SERVIÇO SECRETO

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História de um espião (Colin Firth) que recruta um novo membro para uma organização supersecreta faz homenagem aos filmes de James Bond. Mais precisamente ao estilo mais clássico, de Sean Connery. Bom equilíbrio entre paródia e ação.

DÍVIDA DE HONRA

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Tommy Lee Jones dirige e contracena com Hilary Swank nesse faroeste que explora a sensação de isolamento na vida do Velho Oeste. Juntos, eles buscam refúgio para mulheres desequilibradas, encarando a dureza da paisagem.

O ÚLTIMO ATO

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Al Pacino personifica aqui as neuroses de um ator envelhecido. Ele esquece as falas de uma peça, é internado em clínica de reabilitação e ainda inicia um romance com uma mulher mais jovem. Não dá para saber se Pacino está atuando ou sendo ele mesmo. E não importa.