SERÁ SÓ IMAGINAÇÃO?

Não, não é. O apartamento que pertenceu a Renato Russo, o líder da Legião Urbana, continua intacto quase 20 anos depois da sua morte. Mas não por muito tempo. A reportagem de Status foi a última a entrar lá antes de ele ser desmontado para uma exposição sobre o astro

 

Por Carlos Sambrana 

 

STATUS 46 - TOP SECRET

Um amontoado de caixas de papelão, recheadas de cadernos e folhas amareladas pela inexorável ação do tempo, toma conta da sala de estar, ocupando quase todo o piso de taco de madeira. Os móveis e a decoração clássica, em estilo vitoriano, permanecem intactos e disputam atenção com fotografias, recortes de jornal e cartazes de banda emoldurados na parede revestida por um papel de cor salmão que teima em descolar. A poltrona rosa, com o tecido já cansado, bem opaco, parece esperar a chegada do dono da casa para que ele se acomode e aprecie o som de seus LPs no gramofone, um exemplar Victor Talking Machine de 1906, fabricado em New Jersey. Na mesa da sala de jantar, uma bagunça organizada se revela com pastas e mais pastas de manuscritos, desenhos e rabiscos em papéis e cadernos Tilibra. São dezenas deles, empilhados, com post-its denunciando que foram recentemente lidos para ganharem a eternidade sob a forma de músicas, livros, peças de teatro e até filmes. O lugar parou no tempo, mais precisamente em 11 de outubro de 1996, exatamente como o dono do apartamento, localizado na rua Nascimento Silva, no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, o deixou. Está incrivelmente conservado e, a não ser pelo fato de que está cheio de câmeras de segurança em todos os cômodos, a sensação é a de que, a qualquer momento, Renato Manfredini Junior entrará pela porta, passará pelo corredor, acenderá um cigarro e sentará à mesa de seu escritório para escrever compulsivamente.

Sim, ali dentro ele era apenas Renato Manfredini Junior, filho de seu Renato e dona Carminha, irmão de Carmen Teresa e pai de Giuliano. Longe das câmeras da televisão e do assédio das ruas, na intimidade de casa, Renato Russo, o líder da Legião Urbana, o rei do rock nacional que embalou gerações com suas músicas por vezes críticas e por vezes românticas, definitivamente, ficava do lado de fora do apartamento de número 21, em um charmoso prédio de três andares, com fachada de tijolo aparente, a duas quadras da Lagoa Rodrigo de Freitas e a quatro quadras da praia. Status esteve ali em março para desvendar o homem por trás do mito, para ver como vivia o astro do rock e também para registrar o apartamento em que ele viveu. A reportagem teve o privilégio de ser a última a entrar no lugar antes de os curadores do Museu da Imagem e do Som (MIS), de São Paulo, começarem a catalogar toda a obra e objetos pessoais de Renato. Tudo, absolutamente tudo, será escrutinado e embalado para a mostra sobre o astro, com data prevista para 2017. A ideia é repetir o sucesso da exposição de David Bowie, que levou mais de 80 mil pessoas ao MIS em 2014. Depois, a mostra se tornará itinerante e seguirá para os outros estados brasileiros.

Quem nos guia pelo apartamento que pertenceu a Renato Russo é outro ex-morador. Giuliano Manfredini, hoje com 25 anos, tinha 6 anos de idade quando o pai morreu vítima de complicações causadas pela Aids. “Passei os anos mais felizes da minha vida neste apartamento”, recorda. E caminha contando cada detalhe de como Renato se comportava na intimidade. “Ele era um homem que estava descobrindo a paternidade. Brincávamos de guerra de travesseiro, de teatro e de cavalinho”, diz. Sempre às 17h em ponto, Renato parava tudo o que estava fazendo, acendia um incenso e botava música clássica para tocar. Escutava Beethoven, Villa-Lobos, Bach e outros grandes mestres eruditos. Pode parecer estranho em se tratando de um astro do rock, que era punk na adolescência e foi influenciado por bandas como Sex Pistols, idolatrava Bob Dylan e colocava os Beatles no altar. O gosto pela música clássica, entretanto, foi cultivado ao lado de seu pai, Renato Manfredini, que o levava com frequência para concertos, no Teatro Nacional de Brasília, quando ainda era criança.

Riqueza escondida

As lembranças vão e vêm na cabeça de Giuliano e, ao passar no corredor, onde recortes de jornal com as notícias da Legião Urbana e colagens artísticas feitas por Renato saltam, ele entra no escritório. “Era aqui que o meu pai passava a maior parte do tempo”, diz. E, a julgar pela cena, parece – infelizmente só parece – que ainda passa. A famosa bata que Renato usava em seus shows ainda está pendurada em um cabideiro e briga por espaço com outra camisa e uma jaqueta de couro. O baixo Rickenbaker, que ele tocava, está logo atrás, perto do armário, assim como o violão Epiphone de seis cordas. Da estante, brotam livros de James Joyce, Balzac, Cervantes, Edgard Alan Poe, letras de Bob Dylan, e títulos como Gay Ideas e a Bíblia… Na outra estante, centenas de CDs com um repertório igualmente eclético. Vai de The Smiths a Villa-Lobos, de Menudos a Oasis, de Paul McCartney a Mozart. Posicionada do lado da janela, uma esteira ergométrica. Apesar de morar a duas quadras de um dos cartões postais mais lindos do País, Renato quase não saía de casa. Não gostava do assédio e acabava se exercitando ali em um dos quartos do apartamento de 150 m2.

O centro do escritório, o lugar onde a presença de Renato é ainda mais forte, é a mesa de trabalho. Era lá que ele passava horas a fio, debruçado com canetas Bic sobre cadernos. “Ele escrevia sem parar”, diz Giuliano.

“Eu, no meu mundo de criança, brincando de dragões e heróis, um dia perguntei para ele: ‘pai, por que você escreve tanto?’. E ele me respondeu: ‘Porque você ainda vai usar isso tudo daqui a 50 anos’”, diz o herdeiro do cantor. De fato, a obra de Renato Russo é atemporal, sobrevive – e sobreviverá – por gerações com hinos que revelam muito sobre o País e as relações pessoais, principalmente entre jovens. Alguém duvida de que letras como “Que país é esse?”, “Faroeste caboclo”, “Geração Coca-Cola”, “Pais e filhos”, “Ainda é cedo”, “Eduardo e Mônica” e muitas outras não se encaixam nos dias de hoje? “O Renato é como Machado de Assis, a obra dele vai ficando”, diz o filho, agora se referindo ao pai como uma entidade maior, na terceira pessoa do singular.
O apartamento foi mantido da mesma forma como era por decisão de Carmem Teresa, a irmã de Renato, e é limpo semanalmente por uma faxineira de confiança. Há dois anos, Giuliano assumiu a herança e passou a cuidar de tudo que foi deixado pelo pai – sobretudo o apartamento. Ali, ele se deparou com uma riqueza que não imaginava existir. Obras e mais obras inéditas do homem que passava as tardes gastando a tinta da caneta preenchendo folhas em branco. Há desenhos; uma peça de teatro sobre a relação do artista com a plateia; livros; diários contendo suas impressões sobre o cotidiano, a banda, as angústias e felicidades; e músicas. Nas anotações, Renato faz referências a filósofos e a consagrados escritores como Shakespeare e Thomas Malory. O gosto pela leitura, aliás, era algo que vinha desde pequeno. No livro Renato Russo – O filho da revolução, de autoria de Carlos Marcelo, há uma passagem que retrata bem a afeição de Renato Manfredini Junior pela literatura. Em 1968, quando contava apenas oito anos de idade e foi morar em Nova York junto com os pais, Renato foi matriculado em uma escola pública do Queens. A professora perguntou aos alunos os livros que cada um tinha lido e Renato listou mais de 30 títulos. A direção da escola chamou a mãe do menino, dona Carminha, e avisou que havia ocorrido uma confusão. “Seu filho está com dificuldade de entender a tarefa”, disse a diretora. “Não são os livros que ele gostaria de ler, mas os que ele já leu.” No que dona Carminha respondeu. “Ele entendeu direito. Ele já leu todos esses livros”.

Outro assunto de interesse de Renato era a astrologia. Ele costumava adivinhar os signos das pessoas, fazia mapa astral e ainda adorava tirar as cartas de tarô. Ao entrar no quarto ao lado do escritório, que funcionava como uma sala de televisão, isso fica mais claro. Um quadro com todas as cartas do tarô e seus significados se destaca na parede, o mapa astral de Renato repousa ali perto com rabiscos e anotações de próprio punho. Há também os vinis e letras de músicas espalhadas pela estante. Ali, guardadas como um papel que qualquer pessoa põe em cima do móvel de casa, estão as letras originais de “Dezesseis”, “Geração Coca-Cola” e “Faroeste Caboclo”. Esta última, com anotações que remetem a um roteiro de cinema. “Ele queria filmar essa história”, diz Giuliano. “O sonho dele era ser cineasta.” Renato pode não ter realizado este desejo em vida, mas provavelmente ficaria feliz de ter visto a história de João de Santo Cristo e Maria Lúcia retratada na telona pelo diretor René Sampaio. Ficaria ainda mais animado ao saber que “Eduardo e Mônica” também ganhará vida pelas mãos de René, em 2016, data próxima do aniversário de 20 anos da morte do poeta-cantor. “O meu interesse é fazer uma resposta poética e emocional ao que a música inspira, transpor para a tela não apenas os fatos narrados na canção, mas também os sentimentos que ela sempre despertou em mim. Para os brasileiros, é um filme que nasce de uma música. Para as outras plateias, é um filme que leva a conhecer um grande sucesso da nossa música: ‘Eduardo e Mônica’”, diz René Sampaio.

Ao contemplar a sala de televisão, o filho de Renato Russo recorda de quando assistiam filmes juntos. Produções como A Bela e a fera em preto-e-branco, Excalibur e Riquinho, com Makaulay Culkin, faziam parte das sessões de cinema entre os dois. Este gosto peculiar de Renato também fica evidente no banheiro da casa, onde um cartaz de filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, pregado na parede onde está o vaso sanitário, olha para os bonecos da princesa Ariel (A pequena sereia) e do príncipe Eric, da Disney, postados em cima de um pequeno armário. Dali, vamos para o quarto de Renato. A sensação de surpresa é inevitável. A expectativa era encontrar um espaço cheio de excentricidades. Afinal, estamos falando de uma estrela do rock. Mas não: a acomodação é franciscana. Uma pequena cama de madeira, um criado-mudo com um crucifixo, e duas cristaleiras: uma com mais livros e outra com bichos de pelúcia. Na parede, mais quadros lembrando as vendagens de discos que ultrapassaram 1 milhão de cópias e um pôster da banda brasiliense Plebe Rude.

Vitaminas

Giuliano anda mais um pouco, chega à cozinha e recorda do pai fazendo vitaminas. “Ele batia leite, banana, mel, avelã e aveia. Tomava tudo em um só gole”, diz. O fogão e as tarefas da casa ficavam sob o comando de dona Ena. “Não me esqueço do arroz, feijão, bife e batata frita que ela fazia, o tempero era único. Ela cuidava de tudo aqui em casa.” Hoje, quem cuida de tudo é Giuliano. Formado em direito e administração pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (CEUB), com inglês fluente conquistado com o ensino médio feito em Oxford, ele assumiu a Legião Urbana Produções Artísticas há dois anos. “Fui preparado pelo meu avô desde pequeno”, diz, referindo-se a Renato Manfredini, que acabou virando seu pai de criação. “Ele me levava para reuniões com gravadoras para eu entender como funcionava.” Giuliano acabou se tornando o herdeiro de um espólio valiosíssimo e passou a movimentar o nome da marca que estava praticamente em estado de letargia.

Desde que assumiu a empresa artística, em 2013, esteve ligado à produção do filme Faroeste caboclo; lançou novos sites da banda e do próprio Renato Russo; e organizou um show sinfônico em que 45 mil pessoas lotaram o estádio Mané Garrincha, em Brasília, para ver o holograma de Renato Russo cantando no palco. Quem diria que, depois de 1988, quando a Legião Urbana se apresentou no mesmo estádio, no célebre show que acabaria em pancadaria e faria Renato Russo jurar que nunca mais se apresentaria na capital federal, o líder da banda voltaria a ser visto no mesmo cenário. Isso foi possível graças à tecnologia e à obsessão de Giuliano em perpetuar a obra do pai. Tanto é que criou o que chama de “banda-tributo”. Batizada de Urbana Legion, ela é formada pelo vocalista Egypcio e o baterista PG, da banda Tihuana; o guitarrista Marcão, do Charlie Brown Jr; e a baixista Lena, de A Banca. Ainda há a casa Eduardo e Mônica, da empresa de eletrodomésticos Consul, onde os clientes podem ver os eletrodomésticos usados pelo casal mais famoso da música brasileira, e, em breve, cinco livros inéditos serão lançados. O primeiro deles chegará às livrarias, em julho, pelas mãos da editora Companhia das Letras. Com o título Só por hoje e para sempre, ele traz os relatos de Renato sobre o período em que ficou internado em uma clínica carioca para dependentes químicos.

Status teve acesso a um dos manuscritos e, nele, é possível perceber a luta do astro contra o álcool e as drogas. Em um dos trechos é possível notar a sua preocupação com a saúde e escreve que deve estar atento a “alimentação, exercícios, evitar a primeira dose, visitar a família e os amigos verdadeiros, tentar não me isolar e pedir ajuda”.

Os projetos envolvendo a Legião Urbana Produções Artísticas encontram resistência nos antigos membros da banda, o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá. Os dois reclamam na Justiça o uso da marca Legião Urbana. Indagado sobre isso, Giuliano afirma que não proíbe os dois de usar o nome da banda artisticamente e também envia uma nota com a decisão do juiz Luiz Fernando Cesar Ferreira Viana, da 7ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. “De acordo com a sentença, os ex-integrantes da banda poderão utilizar o nome apenas para suas atividades profissionais como músicos, sendo que a gestão da marca para outros fins continua pertencendo à empresa criada por Renato Russo e hoje dirigida por seu filho, Giuliano Manfredini.” O herdeiro de Renato Russo ainda afirma que o pai comprou o direito sobre a marca dos ex-integrantes logo no início da banda. Por email, Marcelo Bonfá rebate: “Não existe nenhum documento com este teor e o caso ainda está na Justiça, inclusive ganhamos a causa recentemente.” Perguntado sobre o ganho da causa, se seria apenas em relação ao uso artístico, ele diz: “Nada nem ninguém pode nos tolher o uso artístico, se este fosse nosso intuito. O uso comercial da marca em desacordo com conteúdo artístico é insustentável”. O fato é que Renato Russo era um artista com uma ampla visão de negócios e, ainda em vida, registrou os nomes das músicas e suas criações para que um dia isso se perpetuasse. “Ele era um administrador feroz. Sabia que precisava disso para que a sua obra sobrevivesse”, diz Giuliano.

Um ano de cama

Em 1975, quando tinha apenas 15 anos, Renato foi diagnosticado com epifisiólise, uma doença que desgasta cartilagem fazendo o fêmur se soltar. A saída para isso era apenas cirúrgica e ele foi para a mesa de operação. Ao sair do hospital, apresentava dores insuportáveis, o que o fez ficar um ano na cama, dentro do quarto do apartamento de seus pais, em Brasília. Ali, escreveu cadernos e mais cadernos de uma banda imaginária chamada 42nd Street com o selo Early Recordings. O líder da banda chamava-se Eric Russel e ele conta detalhadamente todos os shows, faz entrevistas fictícias, projetos, letras de música e álbuns gravados pela suposta gravadora Sunflowers Experimental. Ele desenhou um mundo à parte, com uma banda estruturada em sua imaginação. De cama, no quarto, – depois descobriu-se que o médico que o havia operado tinha feito uma barbeiragem e colocado um pino em seu nervo ciático e deixado outro solto no seu corpo – ele previra o seu futuro. Ainda um desconhecido, Renato também teria, mesmo sem querer, imaginado o seu fim ao comentar a morte do músico Sid Vicius, líder da banda Sex Pistols, que havia sucumbido a uma overdose de heroína. “Alguns vão esquecer, outros não; alguns já esqueceram. Mas, quando é um herói de verdade, ele sobrevive.”