CAÇADORES DE MEL

Sem qualquer tipo de proteção, eles enfrentam a ira de milhares de abelhas em nome de um produto valioso e, sobretudo, da tradição. Conheça a arriscada aventura dos Gurung, no Nepal

 

Por Gaía Passarelli | Fotos Eric Tourneret

 

STATUS 46 - SANGUE FRIO

Membro de uma tribo Gurung, no Nepal, se equilibra na escada enquanto coleta favos de mel. Apesar do perigo, a prática se repete há 10 mil anos

A cena é aflitiva. Do alto de um penhasco, um senhor – pés descalços e sem qualquer equipamento – está pendurado em uma escada rústica, feita de corda e bambu, que não para de balançar. Tal qual um equilibrista de circo, ele enrosca os pés na corda, enquanto as mãos ficam livres para manejar uma haste de bambu, chamada de “tango”.

Como se não bastasse o perigo da altura, milhares de abelhas, gigantes e furiosas, estão a sua volta. Todo esse esforço tem um objetivo: coletar um mel raro, produzido apenas em grandes altitudes. É o caso da coleta realizada por uma tribo Gurung, no distrito de Kaski, Nepal. Batizados de caçadores de mel, os moradores desse vilarejo encravado no Himalaia arriscam suas vidas em nome de um produto que será trocado por outros alimentos, no mercado local. Mas a subsistência não é o único motivo que leva esses grupos a enfrentar a ira das abelhas. O que está em jogo ali é a preservação de uma atividade milenar, que vem sendo repassada de pai para filho desde 8.000 AC., como mostram desenhos rupestres encontrados em cavernas.

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A apis dorsata, espécie de abelha típica na região, constrói suas colmeias em penhascos. Para coletar seu mel, os moradores locais penduram-se em escadas rústicas e utilizam hastes de bambu para arrancar os favos e colocá-los no cesto

É em nome dessa tradição que membros da tribo se arriscam, cerca de duas vezes por ano, em um embate mortal com a Apis dorsata. Considerada a maior abelha de mel do mundo, ela só produz em altitudes entre 2 mil e 4 mil metros. Quando ameaçados, esses insetos realizam um movimento típico, envergando o corpo, como forma de alertar as demais companheiras do perigo. O resultado é uma coreografia que faz lembrar a ola em um estádio, mas o espetáculo dura poucos minutos. Ciente do perigo, as abelhas se descolam da colmeia para atacar o inimigo. Os caçadores de mel, por sua vez, têm suas armas. Uma delas é a fumaça, que ajuda a dispersar o enxame. Antes de cutucarem a colmeia, fogueiras são acesas tanto no topo do penhasco como na base, formando uma nuvem negra que incomoda as abelhas. A ameaça do fogo tira o foco do chefe da tribo (geralmente o mais velho e mais experiente do grupo), espécie de sinal para iniciar o trabalho.

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Apesar da instabilidade da escada, o chefe dos caçadores precisa se manter firme para manejar o “tango”, que chega a ter 8 metros de comprimento. Além da experiência, ele conta com outro fator a seu favor. Já calejado das picadas, ele praticamente não sente mais o ferrão, o que lhe dá maior tranquilidade para lidar tanto com a altura quanto com as abelhas. O nervosismo provocaria movimentos bruscos e isso é tudo que não se pode fazer diante de um enxame. Com a haste de bambu, ele arranca pedaços e mais pedaços de cera com mel, que caem em um cesto de palha, preso por uma corda. Uma vez cheia, a cesta desce para a base do penhasco, onde outros integrantes da tribo a aguardam. O mel é então filtrado para a retirada de abelhas mortas e pedaços de galhos ou folhas. Armazenado em um galão, é levado de volta para a aldeia, preso às costas, assim como todos os outros equipamentos. Lá, uma parte é separada para o consumo da tribo e a outra será levada ao mercado, onde é considerado um produto valioso, com propriedades medicinais e relaxantes.

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Enquanto os caçadores mais tradicionais respeitam as regras, como não destruir as colmeias por inteiro, guias pouco preparados têm abusado da prática para atender a uma demanda cada vez maior de turistas

Alucinações

O mel da Apis dorsata não é do tipo que se vende em supermercados mundo afora. Ele contém um tipo de toxina natural e, se consumido em excesso (uma colher de sopa por dia é a recomendação máxima), pode causar alucinações, convulsões, vômito e até a morte. Não à toa é também conhecido como “mad honey”.

As abelhas, porém, estão correndo um sério risco. Enquanto os caçadores tradicionais respeitam as regras, como caçar apenas duas vezes ao ano e nunca destruir as colmeias por inteiro, alguns moradores locais têm abusado da prática para atender a uma demanda cada vez maior de turistas. O excesso de visitantes em busca de uma experiência “autêntica” e guias pouco preparados com esse impacto têm feito com que as abelhas produzam cada vez menos. Uma caçada de outono, que costumava render 50 galões (190 litros) de mel há poucos anos, hoje rende apenas 20 galões (75 litros). E não é apenas a produção do mel que está sob ameaça, mas sim um ritual que tem raízes na crença local. Para os Gurung, a caça ao mel deve ser realizada em meio a uma série de cuidados para proteger a “alma” da floresta. Antes de se pendurarem na escada para coletar o mel, as equipes fazem suas preces, acendem incensos e sacrificam um animal (um galo, por exemplo) para aplacar os ânimos dos deuses das montanhas. Para eles, a ausência dessa cerimônia pode levar a uma caça pouco produtiva ou até mesmo à morte de algum caçador. Se alguém é picado, se machuca ou morre no penhasco (já foram diversos casos), é porque não rezou o suficiente, segundo eles.

“Ali, ninguém pode cometer erros, para seu próprio bem e pelo bem dos outros. É muito arriscado. Você tem que tomar conta de tudo a todo momento e ser positivo em qualquer circunstância”, diz o fotógrafo francês Eric Tourneret à Status. Especializado em clicar a natureza, especialmente abelhas, ele é o autor das fotos que acompanham essa reportagem. Por intermédio de um apicultor e de um guia nepalês, e com a ajuda do comitê responsável pelo manejo das florestas da região, ele visitou o Nepal duas vezes para registrar a prática. “Ao arriscar a vida com alguém no penhasco, você desenvolve uma ligação muito humana e muito forte com essas pessoas”, diz Tourneret.

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