O TAMANHO DO DOCUMENTO

O estudo analisou os pênis de 15.500 homens caucasianos e do Oriente Médio, o que lhe confere alta credibilidade científica,dado o tamanho da amostra – sem duplo sentido

 

Por Reinaldo Moraes

 

STATUS 46 - PORNOPOPEIA

E não é que eu volto a falar de pau aqui pelo segundo mês consecutivo, arriscando-me a toda sorte de interpretações malévolas? Ou bem vão me considerar um gay mais ou menos enrustido ou um teórico empedernido do priapismo universal. Como pãos ou pães é questão de opiniães, segundo o jagunço Riobaldo do Guimarães Rosa, esclareço apenas que, ao contrário da edição passada de Status, na qual comentei o caso do americano que nasceu e vive com dois paus, dessa vez vou falar de homens com um pau só, como eu e, suponho, você e a provável totalidade de todo o universo masculino que a gente conhece, inclusive as torcidas do Corinthians e do Flamengo. Dessa vez, portanto, meu assunto tem um pau a menos, embora não seja menos peniano por causa disso.

O fato é que eu já me preparava para explorar outros vãos e saliências da sexualidade humana, quando dei de cara no jornal com uma notícia que você provavelmente terá lido também. É que, de acordo com uma pesquisa levada a cabo por cientistas do prestigioso King’s College de Londres e divulgada em março deste ano, o comprimento médio de um pênis flácido na Inglaterra é de 9,16 cm. Duro, bate nos 13,12 centímetros. O estudo analisou os pênis de 15.500 homens caucasianos e do Oriente Médio, o que lhe confere alta credibilidade científica, dado o tamanho da amostra – sem duplo sentido.

E antes que você corra praquela gaveta onde guarda uma fita métrica, deixe-me adiantar que a pesquisa do King’s College e seus resultados chamaram minha atenção de cronista por remeter de bate-pronto ao George Wolinski, o velho e genial desenhista de humor franco-tunisiano massacrado a tiros de fuzil Kalashnikov em janeiro último, junto com mais 11 pessoas, inclusive outros humoristas, por imbecis fantasiados de jihadistas, na sede do Charlie-Hebdô, em Paris.

Acontece que o Wolinski publicou em 1979 uma coletânea de desenhos de humor intitulada Je suis un salle phalocrate (“Eu sou um sórdido falocrata”), onde o foco eram as relações entre homens e mulheres na França naquela época, uma década depois da mítica “revolução desejante” de maio de 68, que virou literalmente Paris do avesso sob o comando de estudantes anarquistas. Numa das tiras expandidas do livro, que ocupa uma página inteira, vemos uma mocinha de óculos sobre a cabeça e um papel na mão, com pinta de pesquisadora, sendo recebida na porta da casa de um sujeito qualquer. A garota anuncia que está fazendo uma pesquisa sobre o comportamento sexual dos franceses. O carinha tenta tirar o corpo fora, mas a garota, despachadona, já vai entrando e fazendo suas perguntas: Quando foi sua última relação sexual? Como foi essa relação? Você chupa a mulher? Você fica falando enquanto trepa? O que é que você fala?

O pesquisado, meio constrangido, vai respondendo a todas as perguntas, até que, por fim, a pesquisadora pede para ver o pau do cara. Depois de alguma relutância, e diante da postura da pesquisadora, muito séria e “científica,” o fulano abre a braguilha e tira o bilau mole pra fora. A mocinha, munida de uma régua, faz o seu trabalho: “Vejamos… em repouso, 5cm… Não, 6 cm.” Em seguida ela manda, formalíssima: “O senhor teria a amabilidade de se masturbar para que eu possa medi-lo em estado ereto?”

O cara mal acredita no que acaba de ouvir, mas, no fim das contas, dominado pelo estilo impositivo da fulaninha, acaba socando uma punheta na frente dela até conseguir uma ereção. A pesquisadora, então, mede seu pau duro: “14 cm. Perfeito. Só me resta agradecê-lo,” conclui a pesquisadora, fazendo anotações no papel e já tomando o rumo da porta.

A historinha do Wolinski tem um epílogo, que eu ainda vou contar, mas já é possível apontar uma discrepância e uma coincidência entre os números citados na tira do cartunista e os apurados pela pesquisa inglesa. Talvez a moça do desenho do Wolinski não tenha feito sua medição do pau flácido com a mesma atenção que dedicou ao membro ereto, donde a diferença de mais de 3 cm no primeiro caso (9, 16 cm do pau mole inglês contra 6 cm da baguette flácida do francês) e o razoável grau de semelhança em comprimento do bilau teso entre os dois: 14 cm no desenho do francês contra os 13,12 cm da média estabelecida pelo estudo inglês.

Em todo caso, ignoro como essa pesquisa dos ingleses foi feita, e se há alguma coincidência entre o método wolinskiano de enviar uma pesquisadora de casa em casa e o dos cientistas do King’s College. O certo é que na última cena do desenho fescenino do francês, vemos o pesquisado, ainda de pau duro pra fora da calça, perguntando pra diligente mocinha que bate em retirada: “Podemos saber pra quem você está fazendo essa pesquisa, senhorita?” Ao que a intrépida senhorita responde, com absoluta seriedade: “Sim, claro, é pra E.A.V.O.P.D.H..” Ao que o outro retruca: “E o que quer dizer E.A.V.O.P.D.H.?” A resposta vem de bate-pronto: “Eu Adoro Ver O Pau Dos Homens.”

Pergunto-me o que os institutos e centros de pesquisa biomédica brasileiros estão esperando para realizar uma enquete desse tipo na nossa população fortemente miscigenada, com predominância de afrodescendentes e caboclos de ascendência indígena. Meu palpite, e modestamente falo por mim, é que nossas marcas penianas resultariam um tanto superiores às médias européias, reais ou fictícias, inglesas ou francesas.

Aqui, como lá, porém, as medições teriam de se efetuar in loco – in pubis, eu diria –, pois sair perguntando aos cidadãos quanto mede o pau de cada um ia gerar distorções consideráveis, tendendo sempre ao exagero, o que, de cara, me faz lembrar da clássica piadinha do caipira que vai jogar na roleta com o amigo mais duas minas que acabaram de pegar no bar do cassino.

Tímido, a princípio, no ambiente chique do lugar, o caipira diz pras minas e pro amigo que não quer se arriscar na roleta porque “tô sem parpite”. Ao que o amigo sugere: “Joga no número que você calça.” O capira tira umas fichas do bolso e anuncia pro croupier: 41. E ganha na cabeça. O amigo o cumprimenta, as minas cobrem de beijos o sortudo. Nova rodada e, de novo, o caipira se declara “sem parpite” pra jogar. O amigo estimula: “Joga no número que vem depois da vírgula da sua altura.” O caipira investe no 73 – e de novo ganha. Novos beijos das garotas e um abraço efusivo do amigo. Satisfeito, com o bolso cheio de fichas, o caipira quer se mandar do cassino, mas o amigo insiste: “Cê tá louco? Com essa tua maré de sorte?! Joga de novo e bota mais grana, meu!” Outra vez sem “parpite”, o caipira acata a sugestão do amigo de jogar no número do seu peso: 82. E ganha mais uma vez, para grande alvoroço das minas e do amigo.

Agora é o próprio capirira quem se anima, disposto a apostar todas as fichas em outro número no próximo giro da roleta. Outra vez sem parpite, é agora a mais saliente das gurias quem sussura em seu ouvido: “Joga no tamanho do seu pau!” O caipira, meio relutante, investe sua pequena fortuna no 21, fazendo arregalar os olhos da menina.Mas, dessa vez, dá o 12. Fodeu. Desolado, o caipira se vira pro amigo e resmunga, à boca pequena: “Perdi de exibido…”