RICK BONADIO

O produtor e empresário faz parte da produção musical pop do Brasil há mais de duas décadas. Foi ele quem lançou Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr e NXZero, entre muitas outras bandas de sucesso. Conheça mais sobre esse  workaholic, surfista, pai de dois filhos e proprietário de um dos mais importantes selos independentes e estúdios do Brasil, o Midas Music

 

Por Jr. Bellé

 

STATUS 47 - ENTREVISTA

Ao aproximar-se da metade de sua quarta década de vida, Rick Bonadio está no auge da carreira. No pequeno, porém diverso, universo da produção brasileira de música pop, Bonadio encarna com a mesma naturalidade o herói e o vilão. Por um lado, é amado e perseguido por artistas que desejam alcançar – ou voltar ao – sucesso, afinal, estamos falando do produtor que mais vendeu discos nesse País (são mais de 14 milhões) e ex-jurado do programa Ídolos, da Record. Por outro, é odiado por tratar a música como negócio e saltar entre gêneros sem o menor constrangimento. Da mesma forma bipolar, ele já dirigiu grandes gravadoras e gerenciou minúsculos estúdios. O primeiro deles ficava na Cantareira, zona norte de São Paulo. Ele botava anúncios no jornal tentando fisgar clientes, atendia ao telefone e à porta, gravava demos, empresariava artistas, fazia jingles e qualquer negócio por uns trocados. Em sentido oposto, entre 1997 e 2001, foi diretor geral da Virgin Records no Brasil, e tinha como responsabilidade estourar gringos como Backstreet Boys, Spice Girls e Britney Spears.

Deixou a Virgin para montar selo e gravadora próprios, a Arsenal Music, que posteriormente vendeu para a Universal Music. Com a chegada da internet e a esculhambação que ela causou no mercado fonográfico, Bonadio passou a testar novos modelos de negócio até encontrar a fórmula perfeita: ele não apenas grava os artistas, mas também desenvolve suas carreiras. Não à toa, Midas é o nome de seu estúdio, um dos maiores e mais conhecidos do País, também na zona norte de São Paulo. Mensalmente, recebe cerca de 10 mil pedidos de artistas que tentam, de toda maneira, convencê-lo a tocar em suas pobres demos e transformá-las em discos de ouro. Ele foi o ourives de Tihuana, CPM22, Los Hermanos, Ultraje a Rigor, Planta & Raiz, Luiza Possi, Rouge, Br’oz, IRA!, NX Zero, Fresno, Titãs, Art Popular e muitos outros. Em meio a todos estes artistas, no entanto, há duas bandas emblemáticas que representam profundas rupturas para Bonadio: Charlie Brown Jr., que simbolizou um recomeço em grande estilo depois do trágico acidente que vitimou o grupo mais importante de sua carreira, o Mamonas Assassinas.

O Mamonas foi um divisor de águas na sua carreira?
– Sem o Mamonas eu não estaria aqui hoje.

Esse ano completa-se 20 anos do lançamento do disco Mamonas Assassinas. O que te vem à mente quando se lembra dele?
– Estava produzindo o disco da outra banda deles, a Utopia, e a gente ficou muito amigo, principalmente o Dinho e o Julio. O Dinho era um garoto muito metido, ele queria vencer, então a gente começou a compor jingles juntos. Um dia ele trouxe uma dupla sertaneja lá de Guarulhos que chamava Celly e Campello – não a Celly Campello, era Celly e Campello. Os caras pagavam o estúdio e a produção, eu dava uma grana para o Dinho e a gente ia se virando. Numa tarde, a dupla não pode ir gravar e sobrou um horário de estúdio, então o Dinho pediu para usar o horário. Ele queria gravar uma música para um churrasco. Gravou Pelados em Santos e Robocop Gay, mas numa pegada meio Reginaldo Rossi. Aí eu disse que se misturasse com o rock do Utopia eu arranjaria uma gravadora para eles. A gente fez novos arranjos e gravamos quatro músicas numa demo. Depois disso é a história que todo mundo sabe: mandamos para a gravadora, eles adoraram, virei empresário da banda e tivemos tempos muito intensos.

Foi com eles que você testou pela primeira vez a dobradinha empresário-produtor?
– Isso está no meu sangue, mas foi ali que funcionou, porque aprendi fazendo um negócio muito grande. Conheci as pessoas que mandavam nas rádios, nas gravadoras, nas televisões. Tive reuniões com o Boni – que queria contratar o Mamonas exclusivo para a Globo –, fiquei amigo do Gugu, do Fausto. Conheci essas pessoas todas, mas foi tudo muito rápido. Quando eles faleceram, eu fui do empresário mais requisitado do mercado para o zero. Voltei a produzir as demos de quem me mandava, recomecei. Na época, estava produzindo a demo de uma banda desconhecida chamada Charlie Brown Jr. Mas como acho que mostrei alguma coisa boa, o vice-presidente da EMI me convidou para trabalhar na Virgin Records. Foi quando levei vários artistas para lá, como o próprio Charlie Brown, Vanessa Rangel, Debora Blando e o trabalho começou a dar certo.

Depois você assumiu a gerência da gravadora.
– Sim, aos 27 anos comecei a fazer o trabalho com os artistas internacionais. Eu precisava estourar Backstreet Boys, Britney Spears, Manu Chao, etc. São artistas que hoje podem parecer fáceis de vender, mas na época era uma encrenca, porque era o tempo da dance music, você ligava o rádio e só tinha isso. Eu trabalhei lá por quatro anos, saí no momento em que a gravadora estava sendo vendida para a Warner e me falaram que eu não poderia investir em artistas novos por um ano. Aí eu falei “tô muito novo pra isso”, pedi demissão, montei a Arsenal Music e voltei a fazer o que eu fazia com o Mamonas, ser empresário-produtor, até porque os discos já estavam entrando em crise. Depois a gravadora cresceu e vendi para a Universal.

A Universal é uma grande gravadora, você trabalhou nela também quando a internet se meteu no meio do caminho e sacudiu…
– Não sacudiu, a internet acabou com as gravadoras. Dizer sacudiu é ser muito bonzinho, a internet acabou com as gravadoras. Acabou.

Como você está se adaptando a ela, afinal você é parte importante do mercado de música…
– Me adaptei faz muito tempo, a internet é nosso mundo. Hoje a Midas é uma gravadora de desenvolvimento de carreiras. Então pouco importa a plataforma para mim, pode ser internet, pode ser a joanete, pode ser o que for. A internet, num momento, me fez mudar: foi quando comecei a vender os shows. Com isso, eu estava cagando para a internet e para os discos também, se não vendesse, foda-se, eu vendia show. E em um segundo momento comecei a desenvolver carreiras: eu faço parcerias com investidores e parceiros, com artistas, às vezes sou sócio dos artistas, não sou mais o cara que investe 100% em tudo, não dá mais. E tem os independentes também, porque o cara vive no mundo do independente e não consegue sair de lá, aí ele me procura, eu dou a estrutura e a gente vira sócio. É um bom negócio para todo mundo.

A música é, por definição, um negócio?
– Sim. A música é dividida em duas coisas: arte e negócio. Isso vem desde os compositores eruditos. Mozart quando começou era pago, tinha mulher, roupa, comida, enfim, ele tinha tudo para ficar na corte tocando para aquela galera. Como aconteceu com Chopin e todos os outros. É arte, mas também tem que pagar conta.

No negócio da música, você prefere trabalhar com grandes gravadoras ou aqui, no Midas?
– Aqui. Gosto de tomar as decisões. Mas o que gosto mesmo é de estar no estúdio, escolher repertório, fazer arranjos, tirar o melhor dos artistas. Ainda sou o mesmo cara de quando tinha 19, 20 anos e fazia isso para as gravadoras independentes.

Aproveitando que você mencionou sua juventude: com 17 anos, lá em 1987, você lançou um disco de rap, um dos primeiros do Brasil – senão o primeiro –, pois saiu antes do emblemático Hip Hop Cultura de Rua, do Thaíde & DJ Hum. Por que você parou com rap?
– Foi só um pouquinho antes do disco do Thaíde e do DJ Hum. Eu comecei a ouvir o rap que vinha dos Estados Unidos. Pirei no som e queria fazer igual. Encontrei um amigo que também queria fazer rap, que era o Nando, aí a gente colocou o nome de Rick e Nando. Mostramos uma demo para o Arnaldo Saccomani – que trabalhava na Jovem Pan e é meu padrinho, o cara que me deu a primeira oportunidade no mercado da música – e ele pirou na ideia, porque ele também gostava de rap. Gravamos um disco inteiro de rap, mas o mercado não tinha a menor ideia do que se tratava. Quando saíamos para trabalhar o disco, as pessoas achavam que a gente era uma dupla sertaneja.

Continuando no papo sobre a juventude: li uma entrevista sua em que você falava que tinha o espírito punk quando era mais novo. Onde foi parar esse espírito punk?
– Eu tenho ele aqui comigo ainda.

Tem? Onde está? Como ele se manifesta?
– Eu sou um cara muito contra o sistema, quase subversivo, não gosto de padrões, não gosto muito de leis, sou meio anarquista. Esse espírito ainda se manifesta muito, mas a maturidade me fez controlá-lo um pouco. De qualquer forma, foi por conta dele que eu me identifiquei com as coisas do rock.

Para fazer musica é preciso um pouco de inconformismo, não?
– De inconformismo e de rebeldia, precisa de insatisfação e um pouco de contundência. É isso que sinto falta nessa molecada de hoje em dia. Para eles tudo está bom, se o cara tem uma internet ali funcionando e um telefone com whatsapp, está tudo beleza.

Não tem a bomba, né…
– É, então. Mas na minha época também não tinha a bomba, ainda assim eu era revoltado contra a porra da bomba, e muito dessa revolta vinha das músicas que falavam nisso. As músicas cantavam contra a ogiva nuclear e eu era contra ela, mas nem sabia o que era uma ogiva nuclear. Juro por Deus que não sabia o que era uma ogiva nuclear. Eu era um punk da periferia, eu não era o punk lá da Augusta, eu era aqui da zona norte. A gente ia ali para o metrô Santana brigar com os caras do heavy metal: era só passar um cara de camisa preta que a gente começava uma briga. Quando a gente é moleque faz muita estupidez. Vejo pelos meus filhos, eles fazem cagada, mas não chegam aos meus pés. Eles não vão fazer nunchaku com cabo de vassoura para poder dar na cabeça dos metaleiros.

O que você escuta quando chega em casa?
–Rap, country e essas coisas que estão fazendo de misturar country com rap. Sou eclético, gosto de jazz para caramba. Kendrick Lamar, Schoolboy Q… Daryl Hall & John Oates nunca paro de ouvir, são meus ídolos no quesito arranjo e produção musical. Madeleine Peyroux, Billie Holiday, J. Cole. Gosto muito de algumas duplas sertanejas brasileiras como João Bosco e Vinícius, Fernando e Sorocaba. Gosto de muitas bandas que produzi, nunca deixo de ouvir o Charlie Brown, NXZero (gosto do som dos caras de verdade), gosto do Cone Crew, gosto da Ivete Sangalo (tudo que sai dela eu escuto porque ela é foda), gosto da Marisa Monte. Gosto muito de samba também, sou fã do Belo e do Leandro, do Art Popular.

Você citou muita gente famosa, mas você costuma trabalhar com artistas em começo de carreira. O que é mais difícil de administrar: a ansiedade dos iniciantes ou o ego dos famosos?
– O ego, com certeza. É difícil lidar com isso, porque existe uma armadilha para todo artista e ela se chama fã. Na hora que o cara começa a ouvir que ele é demais, que ele é o maior, que ele é gostosão, que ele canta para caralho, que é o melhor, que é sensacional, nesse momento ele quer decidir tudo e não quer ouvir quem está do lado. Ele passa a não aceitar críticas, passa a não aceitar a realidade. Quando ele fica famoso é difícil ouvir a realidade, mas no começo não, ele ouve tudo. Por isso prefiro trabalhar com artistas novos.

Quanto material você recebe por semana?
– Agora o mundo mudou, antes eu recebia por volta de trinta k7s e CDs, mas agora o Facebook e o Twitter levaram isso a uma proporção absurda, até mesmo no Instagram eu recebo links. Dá em torno de 10 mil links por mês.

Como escuta tudo isso?
– Escuto tudo o que posso, mas tenho uma equipe que me ajuda com isso. Uma vez eu estava surfando, já muito no outside, e um moleque ficava me olhando. Pensei que ia arrumar uma briga. Era um lugar onde não estava acostumado a surfar. Ele chegou perto e disse “meu, não acredito, vou falar para os moleques da minha banda que eu encontrei você aqui, preciso te dar uma demo”. Falei que a hora que a gente chegasse na areia ele podia me entregar, e ele realmente entregou e, pô, era uma banda legal.

Além do assédio dos artistas, rola muito assédio feminino?
– Sempre teve e ainda tem, é uma coisa natural. Tudo é uma questão de direcionar a cabeça para o que você quer. A música é muito legal para essa molecada que faz sucesso e quer comer todo mundo. E eles comem, do rap ao rock e ao hip hop, faz parte da vontade de fazer sucesso. O cara quer fazer sucesso também para pegar mulher. Para mim já houve essa época e eu aproveitei bem, aproveitei muito. Mas nesse momento estou casado e super feliz. Nunca pensei que isso fosse acontecer comigo, de verdade – eu já tinha sido casado, separei e estava na vida. Nas minhas músicas isso existia, só não imaginava que na vida real isso também fosse existir.

Você costuma dizer que as pessoas confundem sua função: você não é artista, você trabalha com o artista. Mas o trabalho do produtor não é, também, um trabalho artístico?
– É 100% artístico. A diferença é a seguinte: eu não tenho que ter uma coerência nas minhas produções. Eu posso produzir um cara do rock e posso produzir um cara do sertanejo. Trabalho com qualquer tipo de música e sempre vou medir minha qualidade e meu resultado profissional de acordo com máximo de sucesso que eu puder atingir em diferentes estilos.

Qual foi a sua maior contribuição para a música?
– É um conjunto, mas a maior contribuição é o número de artistas novos que não iriam chegar a lugar nenhum e que conseguiram ter suas carreiras. Eu sei que mudei a vida de muita gente. Do ponto de vista artístico é a parte eclética, tem muita coisa que as pessoas ouvem, que faz bem para elas e fui eu quem produziu. Mamonas é um exemplo, Rouge, Charlie Brown, NXZero e Luiza Possi são outros. As pessoas ouvem as coisas que eu fiz e são felizes ouvindo. Eu faço parte da produção musical pop do Brasil.