VERSOS DE TUÍTE

Em Não Conheço Ninguém Que Não Seja Artista, a poeta Ana Guadalupe arranca sarcásticas epifanias de posts, memes e até do chorume da internet

 

Por Ronaldo Bressane

 

STATUS 46 - APPROACH, ENTRELINHAS

Sorry guys, mas daqui uns anos qualquer crítico literário astuto observará que a mais original poesia brasileira dos anos 2010 foi oxigenada por jovens mulheres: Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Bruna Beber, Alice Sant’Anna, Marília Garcia, Laura Liuzzi e várias outras. A este casting poderia se juntar a londrinense Ana Guadalupe, 30. Responsável por um perfil no Twitter cheio de chistes – seu lema é a frase-de-vovó “divirtam-se por mim” –, Ana, que é redatora de publicidade em redes sociais, lança Não conheço ninguém que não seja artista (R$ 40; 56 págs.; Confeitaria). Sua linguagem tem a espontaneidade de um tuíte, mas atenção – por trás dos versos melancólicos há uma ironia maliciosamente calculada, como em“Quem lê viaja”: “Viajar pra quê/ se tem na internet/ se já tiraram foto pra você/ se é impossível guardar na memória/ por mais de 3 anos/ se o lugar não volta nas malas/ se haverá gastos e cansaço/ se me causará despeito/ se 80% das pessoas/ descreverão todos os países/ em poucas palavras/ e você poderá usá-las/ sem esforço/ no conforto de casa”. O formato do livro também é original: dez poemas foram escritos a partir das imagens intrigantes da paulista Camila Svenson, e outros dez foram ilustrados pela fotógrafa, compondo uma obra em que o visual sublinha ou amplifica o texto, e vice-versa. Enquanto rebatuca o terceiro livro de poesia, a ser lançado este ano, Ana falou à Status:

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Como foi escrever partindo de imagens?
– Foi diferente do que costumo fazer. As fotos traziam informações que quis usar de forma indireta e bem livre, sem tentar costurar tanto as duas coisas. Mudou principalmente porque sentia que precisava valorizar as fotos sem escrever o óbvio. Tinha um compromisso que não costumo ter quando escrevo sozinha, do nada.
Seus poemas são despretensiosos, minicrônicas sobre conselhos, redes sociais, reality shows, fila de hospital, um caminhão baú ou memes do Dollynho. É fácil achar poesia em territórios antipoéticos?
– Talvez seja o caminho mais fácil pra mim, tento fugir dos grandes temas poéticos. Não aguento mais ler poema de amor, por exemplo. Como leitora, gosto da poesia que “surpreende” com imagens inusitadas e temas “menores”, daí o carinho por esses territórios antipoéticos.
Em poesia pede-se que o autor tenha “uma voz”. Seus textos têm uma voz irônica, melancólica, nonsense sobre fatos banais; sua pontuação rarefeita lembra um “pensar em voz baixa” sobre um assunto qualquer, sem tentar juízo final. Como foi chegar a essa dicção?
O Jeffrey McDaniel é um poeta americano que me influenciou, e sempre me identifiquei com a Alice Sant’Anna e a Bruna Beber. Enxergo umas manias que vêm crescendo; quando indicam essa “dicção”, sinto que meu eu lírico é um pouco excêntrico (risos).

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ME ENOJA QUE EU GOSTO

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Enorme, manco, vaidoso e mentiroso, o velho professor Alex Vander, intelectual festejado pela vasta erudição, viúvo de uma mulher a quem humilhava por esporte, tem seus crimes do passado descobertos por Cassandra, uma jovem doente. Então ele viaja do conforto de sua californiana Arcady para a misteriosa Turim, onde está guardado seu segredo bem como o famoso pano que envolveu Jesus Cristo – que nomeia o romance Sudário, do irlandês John Banville (R$ 40; 296 págs.; Biblioteca Azul). A obsessão de Vander por Cassandra transforma-se em um mórbido caso de amor –
a que assistimos ao mesmo tempo enojados e hipnotizados.

 

SEM TATIBITATE 

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Os continhos de Esqueci Como Se Chama, de Daniil Kharms (R$ 37; 48 págs.; Cosac Naify), ilustrados pelo premiado artista português Gonçalo Viana, são a sua solução se você quer fugir do habitual consumismo dos livros infantis e quer divertir crianças com alta literatura: na melhor tradição antilógica de Lewis Carroll, Kharms (que também assinava como Shusterling, personagem recorrente) distorcia os contos de fada em favor do nonsense e de uma incorretíssima visão da realidade.

 

PARAÍSO EM HQ

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A microeditora independente Lote 42 traz nova preciosidade: Portas do Éden (R$ 43; 120 págs.), do cartunista argentino Kioskerman. Suas tiras transitam em um espaço raro para o tradicional formato, se aproximando da poesia – em lugar do humor, ele prefere o onírico, o surreal, o metafísico e o filosófico, narrando minicenas insólitas que se passam no mágico Éden. O lançamento é acompanhado de uma exposição de seus trabalhos em grandes formatos
na anticonvencional galeria Epicentro Cultural, em São Paulo.

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