VIDA NO MEIO DA GUERRA

Um aeroporto novo em folha destroçado por bombas, escassez de alimentos e de energia, cidades inteiras arrasadas por combates que já mataram 6 mil pessoas em menos de um ano. Estivemos no front de batalha para conhecer os personagens e entender o que está por trás da guerra da Ucrânia, um conflito que mexe com a geopolítica mundial e é visto por um de seus líderes como um grande negócio

 

Texto e Fotos Yan Boechat, da Ucrânia

 

STATUS 47 - VAI ENCARAR?

Sob os olhos atentos de Che Guevara um soldadinho russo de no máximo 1,60 metro de altura enfia a cabeça entre os fartos seios de uma prostituta ucraniana ao menos 20 centímetros mais alta do que ele, sem salto. Rodopia com ela pelo acanhado salão ao som de uma música melosa de algum grupo russo cantando as agruras de um amor não correspondido.Ao seu lado, um colega de batalha não parece tão absorto quanto ele enquanto dança com uma prostituta claramente acima do peso. Nas mesas em volta, soldados responsáveis pela segurança já relaxaram e agora sustentam entre as pernas os rifles AK-74, o irmão mais moderno do infame Avtomat Kalashinikova 47, enquanto esvaziam os copos de cerveja quente. Perto do balcão, alheio às investidas amorosas do diminuto combatente na pista de dança, um judeu discute o valor da conta enquanto alisa seu peiot direito, aqueles longos cachos solitários típicos dos ortodoxos. Soldados bêbados com pistolas penduradas como se fossem carteiras prontas a cair dos bolsos dormem nos sofás que circundam a pista. A noite segue seu rumo em direção a mais um fim melancólico no Banana’s, o único bar aberto de Donetsk, a maior e mais importante cidade dominada pelos rebeldes apoiados pela Rússia que lutam para se separar da Ucrânia.

Sem se deixar abater, o DJ inicia um falatório animado saudando soldados de diferentes batalhões que estão ali naquela noite. “Batalhão Somali, batalhão Sparta!!!”, esgoela-se, enquanto alguns militares bêbados erguem os copos, já sem forças para entoar seus gritos de guerra. Mal ele acaba de falar e começam os primeiros acordes de “Chorando se Foi”, sucesso do fim dos anos 80 do grupo franco-brasileiro Kaoma. “Lambada!!!!”, grita ainda mais animado o DJ. Das caixas de som a cantora Loalwa Braz canta em bom português: “Chorando se foi quem um dia só me fez chorar, chorando estará ao lembrar de um amor que um dia não soube cuidar…” O Banana’s entra em frenesi.

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Soldados em busca de amor e prostitutas à caça de dinheiro abandonam, ainda que por alguns instantes, o bailar das negociações. Os bêbados em estado de pré-coma alcoólico parecem receber injeções de glicose musical. Os seguranças agora erguem os fuzis ao ritmo da percussão. E até o judeu que discutia sua conta deixa de acariciar o bem cuidado peiot para comemorar. Em segundos a pista está cheia, com homens e mulheres a rebolar como se amanhã não houvesse. Um grupo de soldados cossacos e seus indefectíveis chapéus faz um trenzinho que corta a pequena pista em círculos. Os garçons encostam a barriga no balcão enfeitado com granadas e pentes enferrujados de AK-47 para chegar ainda mais perto da pista. Levantam garrafas de vodca como se fossem troféus de guerra. O olhar de Che já não parece traduzir raiva e dor, como definiu Alberto Korda, o fotógrafo que imortalizou o guerrilheiro argentino naquela que se transformou na mais famosa fotografia do século 20. Às 3 horas da manhã, ao som de lambada, Che Guevara parece, na verdade, divertir-se diante da cena.

Che Guevara é o ídolo dos rebeldes e o presidente russo Vladimir Putin ocupa o cargo de líder supremo. Apesar de a União Soviética ter implodido há quase 25 anos, a Guerra da Ucrânia tem um forte caráter revisionista. Para quem olha de longe, as batalhas que estão sendo travadas nas estepes desta região conhecida como Donbas, histórica e etnicamente ligada à Rússia, podem parecer regionais, como um simples movimento separatista. Mas sob as camadas de propaganda de ambos os lados o que há é um conflito de implicações mundiais. Simbolicamente trata-se de uma espécie de última batalha da Guerra Fria, que ficou congelada por duas décadas e meia, e que agora, finalmente, vai definir quem de fato é o mais forte. Não à toa, a Guerra da Ucrânia tem atraído uma miríade de combatentes de todo mundo, que se juntam aos exércitos de ambos os lados. Em março, por exemplo, existiam sete brasileiros lutando ao lado dos rebeldes.

GUERRA FRIA

De um lado, é claro, está a Rússia, ou o povo russo, como gostam de dizer os rebeldes. Do outro está o governo ucraniano que assumiu o poder após os protestos de 2014 em Kiev e hoje é apoiado tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Europeia. Em jogo no tabuleiro geopolítico está a Ucrânia, um país simbolicamente estratégico sob os pontos de vista econômico e geográfico. Se a Ucrânia entrar de fato para a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar da Europa Ocidental e os Estados Unidos, como quer o novo governo, a Rússia verá seu aliado mais antigo se tornar um potencial inimigo. Caso os rebeldes mantenham o status quo e impeçam a aproximação do país com o Ocidente, o governo ucraniano – e a população do Oeste do país, sem ligações étnicas ou históricas com a Rússia – se verá ainda dentro da esfera de influência do grande – e agora bastante zangado – vizinho.

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Apesar disso tudo, oficialmente, trata- se de uma guerra entre terroristas com inspiração comunista apoiados pela Rússia – de acordo com a versão oficial de Kiev – contra neo-nazistas e imperialistas apoiados pelo grande capital internacional – segundo a visão dos rebeldes e de Moscou. Oficialmente, também, Putin diz não enviar armas, suprimentos ou dar qualquer apoio logístico aos rebeldes, apesar de todas as provas em contrário. Kiev, por sua vez, garante não ter interesse algum em praticar uma “ocidentalização” do país e promete manter as tradições e as liberdades de qualquer grupo étnico que viva na Ucrânia. Diante de cenário parecido, há mais de 70 anos, o primeiro-ministro britânico Wiston Churchill teria dito uma frase que, apesar de não ser sua, ficou eternamente ligada a ele: “Na guerra, a primeira vítima é a verdade”.

COMEDOR DE ORELHAS

Sacha desceu da SUV repleta de marcas de bala e estilhaços esbaforido. “Eu não disse que vinha?” No dia anterior, ele havia encontrado a reportagem de Status sobre a ponte que liga o último bairro habitado de Donetsk antes do aeroporto da cidade, o front de batalha mais intenso dos últimos meses na Ucrânia. Separados apenas por alguns poucos quilômetros, soldados das forças armadas ucranianas e rebeldes se enfrentam diariamente com ataques de artilharia, morteiros e metralhadoras pesadas. O aeroporto, completamente reformado para a Euro 2012, já não existe mais. A moderna obra transformou-se em um monte de entulhos e apenas os esqueletos das estruturas permanecem de pé para lembrar que ali fora, um dia, um local onde pousavam e decolavam aviões. Apesar de não ter mais a importância estratégica de alguns meses atrás, quando ainda podia ser operado, o local se transformou em uma espécie de troféu. Conquistá-lo tornou-se uma questão de honra para ambos os lados. Em março havia um mês que os rebeldes o haviam retomado.

No dia em que Sacha nos abordou na ponte para pedir nossos documentos, o aeroporto estava sob fogo pesado das forças ucranianas. Do centro de Donetsk, distante 12 km do terminal aéreo, era possível ouvir com clareza os disparos durante toda a noite. Após ver meu passaporte brasileiro, Sacha abriu um sorriso. Fez elogios ao País e disse que seu sonho era um dia ir a Copacabana e ao Maracanã. Diante de tanta hospitalidade, minha tradutora aproveitou a oportunidade: “Estou vendo que você é de um dos batalhões que estão combatendo no aeroporto, será que não pode nos levar lá dentro do terminal para vermos como andam as coisas?” Naquela manhã, Sacha estava claramente com seu estado de consciência alterado. Não dormira a noite anterior, dizia, e o cheiro de álcool e a excitação matutina eram capazes fazer crer que ele havia feito uso de uma das receitas preferidas dos soldados para se manter alerta em batalhas longas: vodca com anfetamina. Animado, respondeu sem titubear que, claro, poderia nos levar, mas não naquela hora. “Que tal amanhã de manhã?”. Dito e feito. Na manhã seguinte, Sacha mal saiu do carro e colocou sobre a cabeça o que parecia ser um cocar indígena ou uma peça de Carnaval. “Achei nas bagagens e vi que era brasileiro, aí guardei para mim”, dizia, tentando mostrar que seu amor pelo Brasil não era, assim, um arroubo oportunista causado pela vodca e alguns comprimidos. Naquela manhã estava menos excitado. Dormira na noite anterior.

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Entrar no Aeroporto de Donetsk é uma experiência surreal. Entre os destroços, os rebeldes abriram uma pequena trilha, já limpa de bombas e armadilhas. No saguão principal, apenas um quiosque de informação turística com fotos de jogadores brasileiros que atuam pelo Shakhtar Donetsk permanece relativamente intacto. “Jamais saia dessa trilha, há minas, granadas e armadilhas por todos os lados, ainda não conseguimos fazer com que os prisioneiros limpassem tudo”, dizia. No salão de embarque, grandes crateras uniam os pisos. Ao fundo, o esqueleto de um finger mostrava onde os aviões paravam. Naquele dia, ao menos 15 prisioneiros ucranianos foram levados até ali para encontrar os corpos de alguns de seus companheiros que pereceram na última grande batalha, em fevereiro. Perto deles, um gato cinza, com jeitão manhoso e claramente bem alimentado, rondava os soldados rebeldes. O gato vive ali e, de acordo com os soldados, se transformou em um especialista em encontrar corpos em meio aos escombros. “Ele gosta das orelhas, nunca congelam como outras partes”, explica um soldado que dá ordens aos prisioneiros, acariciando o bichano. Por conta de suas habilidades, o animal ganhou o nome de Trupoyed, uma corruptela das palavras russas trup e lyudoyed. Na tradução livre, algo como comedor de corpos humanos.

BOMBARDEIOS DIÁRIOS

A Guerra da Ucrânia já matou mais de seis mil pessoas ao longo dos últimos 12 meses. Ao contrário da maior parte dos conflitos modernos, marcados notadamente pelo embate de forças assimétricas, o caso ucraniano faz lembrar muito mais uma guerra tradicional, com duas forças equânimes em territórios muito bem marcados. Há uma fronteira clara e as duas forças se enfrentam quase que exclusivamente por meio de artilharia. “Se eles não estão avançando, o dia inteiro é assim. Alguns disparos de sniper, tiros de metralhadora e, quase sempre, muitos morteiros. Só conseguimos ver o inimigo por meio desse binóculo aqui”, diz Aleksander Kanava, um soldado ucraniano baseado na cidade de Peski, a poucos quilômetros do Aeroporto de Donetsk. Aqui nesta cidadezinha que foi completamente destruída, os inimigos estão distantes apenas 800 metros, entrincheirados. É como se 100 anos depois a Europa estivesse revivendo a 1ª Guerra Mundial.

Donetsk é, sem dúvida, o maior dos prêmios. Principal cidade de todo o Leste do país, polo de mineração de carvão e com uma forte indústria siderúrgica, essa pequena metrópole de mais de um milhão de habitantes era, até o começo da guerra, uma espécie de oásis da Europa moderna em um deserto de pequenas cidades de estilo soviético. Com belas alamedas, teatros, óperas a cidade foi um dos palcos da Euro 2012 e, também, um dos berços dos separatistas que agora tentam tomar toda a província. “A cidade era especial, era um lugar cheio de vida”, diz Slavik, um historiador que se tornou limpador de janelas de edifícios por conta da crise econômica que atinge o país há alguns anos.

A cidade tem sido bombardeada constantemente, principalmente nas áreas periféricas. Na região central são poucos os edifícios destruídos e a vida tenta seguir seu rumo de forma mais ou menos normal. Por conta dos bloqueios, há escassez de uma série de produtos nos supermercados. Refrigerantes, carnes nobres ou mesmo sal, vez por outra, desaparecem das prateleiras. Nas cidades em volta, mais atingidas pelos bombardeios, não há abastecimento de gás ou mesmo energia elétrica. Muitas vezes cozinhas comunitárias são instaladas em praças e parques.

Apesar de a região central de Donetsk praticamente não ter sido atingida pelas bombas, a paisagem mudou. Nas portas de lojas, em torno de bombas de combustíveis ou mesmo na fachada de bancos, os sacos de areia se tornaram comuns. Mesmo a entrada principal da Arena Donbas, o moderno estádio do Shaktar Donetsk, está protegida pelos sacos na tentativa de evitar que estilhaços de bombas façam estrago maior. Por conta da guerra, o time que conta com mais de 10 jogadores brasileiros em seu elenco deixou a cidade. Mudou-se para Lviv, no Oeste do País, onde agora manda seus jogos.

Muita gente foi embora de Donetsk desde que a guerra começou e agora a até então agitada cidade tem um ar de eterno domingo. Pelas ruas, bandeiras da República Popular de Donetsk e, vez por outra, da antiga União Soviética. Nos bairros da periferia, onde volta e meia mísseis e morteiros caem sem cerimônia alguma, já não há quase ninguém. Todos se foram, deixando tudo para trás. Apartamentos, casas, escolas, foram abandonados e ficaram como no dia em que as bombas chegaram. Caminhar entre eles é como estar em um cenário onde o tempo parece simplesmente ter parado, estático.

SÃO APENAS NEGÓCIOS

Yuriy Viktorovich chegou em alta velocidade em um comboio de três Porsches Cayenne. Os carros frearam de forma abrupta em frente a um sobrado coberto com uma espécie de rede verde musgo, usada como camuflagem para evitar sua localização por drones ou satélites inimigos. Antes dele, cinco soldados armados com kalashinikovs, granadas e pistolas desceram dos carros, tensos. Viktorovich desceu em seguida, armado apenas com uma Glock 17, uma pistola 9 mm que retirou do corpo de um oficial ucraniano após a batalha de Illovaisk, no verão passado. Entrou na casa, seguido por seus seguranças, sem falar nada.

Viktorovich é o que os cossacos chamam de Ataman, uma espécie de líder militar supremo. Sob seu comando estão cerca de três mil homens, a maioria deles cossaco, um grupo étnico responsável pela conquista desta vasta região nos séculos passados e famosos por suas habilidades na guerra. “Estamos lutando por nossa terra”, diz ele, dentro de um círculo formado por cinco soldados de arma em punho, atentos aos movimentos dos interlocutores de seu comandante, na área externa da casa. Os cossacos fazem parte do exército rebelde por entender que também são russos. Yuri fala pouco, ri pouco, mas faz questão de transparecer uma confiança que provavelmente nem ele acredita. “Chegaremos a Kiev e se nos deixarem vamos além”, diz, um pouco antes de afirmar que “já vencemos essa guerra”. Por quase uma hora ele evitou dar respostas de forma objetiva e desfilou um rosário de frases de efeito. Só ao final da entrevista, mais relaxado, parece ter dito o que realmente acredita estar acontecendo no Leste da Ucrânia. “Essa guerra ainda vai durar ao menos três anos, você sabe, houve muito investimento e é preciso esperar para que o lucro retorne aos investidores”, diz. Rindo, ele explica como chegou a essa conclusão. “Não sejamos bobos, guerra é apenas um negócio”, disse e, antes de o tradutor falar, se arrisca no inglês: “Business, my friend, business”.

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