GABRIEL O PENSADOR

Rapper, escritor, empresário de futebol. O carioca amplia os horizontes, mas continua fazendo seus desabafos em forma de canção. Seu último single, “Chega”, tornou-se hino durante os últimos manifestos: “ Essa música é para a presidente, senadores, deputados…”

 

Por Pedro Henrique França, do Rio de Janeiro

 

STATUS 47 - ENTREVISTA

Morador de São Conrado há muitos anos, Gabriel O Pensador marca o encontro com a reportagem em um shopping na Barra da Tijuca. É lá que Gabriel tem feito fisioterapia desde que deslocou o ombro, quando pulava no mar. “A lesão foi bem feia. A princípio não preciso operar, mas tenho que fortalecer o ombro. Senão posso ficar que nem aqueles caras que espirram e o ombro sai, sabe?”, diz. E dá risada. Não é em tom de comédia que Gabriel lançou, na internet, seu último produto musical.

O single “Chega” discursa sobre vários temas, sobretudo corrupção e violência. Divulgada no dia das manifestações contra a presidente Dilma Rousseff, em março, acabou sendo tomada pelos participantes como hino. Mas Gabriel esclarece: “Essa música não é apenas para a Dilma, mas para a presidente, senadores, deputados, prefeitos, vereadores”, diz o rapper, autor de sucessos como “Lôraburra” e “Retrato de um playboy”. Gabriel viveu o auge, mas também a crise da indústria fonográfica nos anos 2000, com a pirataria. Foi aí que ampliou suas atividades. Lançou-se escritor (seu livro infantil, Um garoto chamado Roberto, levou o prêmio Jabuti) e tornou-se, inesperadamente, empresário de futebol. Hoje é parceiro do Novo Horizonte (time que disputa o sub-20 da série B do campeonato gaúcho) e, recentemente, chamou atenção ao intermediar a contratação de Gabriel Xavier pelo Cruzeiro. Tomou gosto pela coisa. E já pensa em participar mais das negociações. A veia musical continua ali, firme, mas sem pressa. “Fazer um disco não é mais tão urgente. A música tá pronta? Lança, joga na internet”.

Em 1992 você lançou a fita demo de “Hoje eu tô feliz (matei o presidente)”, pouco antes do impeachment do Collor. Vinte e três anos depois, você traz o single “Chega”, lançado justamente no dia das manifestações contra o governo Dilma. Há algo em comum entre esses dois momentos?
– Como as músicas são atuais, né? “Hoje eu tô feliz (matei um presidente)” era mais específica, mas já falava de escândalo, de corrupção, e o Brasil não conseguiu corrigir nem melhorar isso. Essa música de agora é um desabafo. Ela fala das tantas consequências que a gente vive por conta da corrupção. A miséria, o desemprego, a violência, escolas sucateadas, gente morrendo em fila de hospital. Isso tudo é fruto de corrupção. E pior: pagamos por tudo isso através de impostos. Essa música não é um desabafo apenas contra a Dilma ou um governador. É para presidente, senadores, deputados, governadores, prefeitos, vereadores. E ela veio de uma demanda dos fãs, que me cobravam por não fazer nada diante desse momento. As pessoas estão precisando dizer “chega!”.

Então você não é a favor do impeachment?
– “Chega” não é uma questão partidária. Trata de um problema que a gente está empurrando com a barriga. O povo vai pra rua uma vez, depois para, não entende ainda como mexer. Não é o impeachment que vai resolver, não é um político que está bichado na colheita das laranjas. Infelizmente é muito pior.

Mas nas manifestações contra o governo Dilma a maioria pedia o impeachment e até intervenção militar. Você se identifica com esses manifestantes?
– Eu me identifico com o sentimento das pessoas querendo mais respeito, uma palavra que eu uso inclusive no final da minha letra. A gente se sente muito derespeitado e isso vale pro pobre, pro rico. Discordo completamente da ideia de que os militares resolveriam o problema. O que me dá pena de ver é o povo se desunindo por questões partidárias. Aí o cara começa a criticar o nordestino porque votou mais no PT, aí os outros chamam de coxinha, outros de comunista, acho isto ridículo. Os políticos sempre se unem quando precisam. Acho que a gente teria de conviver bem também, já que pagamos impostos e temos o mesmo desejo de amor ao País. Ficar duelando entre si tem menos eficácia. Indo às ruas, as pessoas mostram aos políticos que a opinião pública ainda tem força.

Em “Chega” você também fala sobre a diferença de comoção da sociedade entre a morte de um negro da favela e o jovem executado na Indonésia por tráfico de drogas.
– É bom falar nisto. Porque o cara estava na Indonésia, começou a aparecer na TV, um garoto voador de asa delta, e ele estava lá cumprindo pelo crime que realmente cometeu dentro da lei daquele país. As pessoas se comoveram e o governo brasileiro queimou o filme com outro país, fez uma cagada diplomática pra pedir clemência e insistir numa história que já estava nitididamente perdida. E aqui não. Aqui as pessoas perdem seus filhos, vítimas do tráfico, e policiais morrem nesse combate inútil às drogas, que nem a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) está conseguindo resolver. E as pessoas não querem saber, não se preocupam. Além de não ter clemência, o governo não paga as indenizações, seja do policial ou de uma vítima. O João Ninguém da favela tem o mesmo valor que o Ricardo dos Santos (surfista assassinado por um policial de folga, em janeiro, em Santa Catarina). Mas se morre a filha da empregada, paciência, bala perdida, falta de sorte. Nós temos uma cultura muito egoísta.

Como assim?
– Eu viajo para outros países e vejo uma diferença. Já fui pra China, pra Indonésia, e você nota que há uma cultura de respeito entre as pessoas maior do que aqui. E isso nos pequenos gestos do dia-a-dia, no trânsito, na fila. A gente está se tornando selvagem. Talvez no instinto de auto-defesa ou de se proteger muito, talvez elas passam a valorizar cada vez menos a vida e as necessidades do outro. Antes o cara abria o vidro para dar uma ajuda ou mesmo pedir informação, hoje não. A pessoa não abre e é capaz de atropelar aquele cara se precisar sair dali.

Você se lançou num momento em que a indústria ia muito bem,chegando a vender mais de um milhão de cópias. Depois, viveu toda a crise do mercado. Como vê a cena atual?
– Peguei um momento super frustrante. A gente estava acostumado a lançar discos com verbas boas, videoclipe eram coisas bem feitas. As gravadoras lucravam muito. O artista lucrava pouco em relação aos discos, mas era uma coisa que funcionava. Tinha um suporte bom para divulgação e, de repente, mudou tudo. A gravadora não tinha mais grana para os clipes e isso diminuiu o espaço da música na TV. Aí é que as bandas novas perderam o espaço. Os caras que tinham aquela verba para apostar não arriscavam mais em ninguém. Ficou aquela coisa focada no que se sabe que é lucrativo e o mercado reproduz cópias disso. O mercado podia ser mais aberto para experimentar.

Estes seus intervalos maiores entre um disco e outro tem a ver com essa, digamos, frustração? Ou com sua entrada no mercado do futebol?
– Não dei esta brochada com a música, não. Eu estava fazendo shows quando surgiu o lance do futebol. E isso me desacelerou, mas não o meu coração com a música. Foi mesmo por falta de tempo para fazer tudo, e teve uma coisa muito forte neste período, que foi o fim do meu casamento (ele foi casado por dez anos com a atriz e cantora Ana Lima, com quem teve dois filhos, Tom e Davi). Foi uma coisa que criei na vida para me ocupar a cabeça. E aí, sem perceber, uma coisa que era para ser um hobby virou uma bola de neve, uma coisa que realmente me ocupou muito e que eu queria fazer bem feito. Depois disso, ainda fiz mais um disco. Mas fazer um disco já não é mais tão urgente. Já lancei duas músicas (“Muito orgulho, meu pai” e “Chega”), sem ficar pensando muito em disco. Agora eu estou mais assim, com uma visão um pouco diferente. Pô, tem música nova, lança, joga na internet.

Você citou a separação como um motivo para ter entrado no futebol. Foi uma válvula de escape?
– O futebol me fez bem naquele momento porque ocupou minha cabeça. Quando me referi à tristeza da separação foi muito pela ausência dos filhos. De repente, eu estava morando sozinho, sem as crianças. Era isso que eu precisava combater: esse tédio sem as crianças.

Como você entrou nesse mercado da bola?
– Deve fazer uns sete anos. Querendo ajudar um menino, levei-o para um teste e acabei reunindo mais dois garotos. E bum! O Jorge Machado, empresário conhecido de Porto Alegre, me deu uma pilhada para armar uma peneira. Mandou os olheiros dele e as pessoas do Rio me viram metido naquilo e aí começou. Um desses olheiros me sugeriu montar um time. E foi assim que eu conheci um clube, o Novo Horizonte, da cidade de Esteio (RS). Me apeguei a esta coisa da garotada.

Mas sua participação na contratação do Gabriel Xavier pelo Cruzeiro demonstra um interesse seu em uma área mais profissional, de agenciamento e venda.
– Esse lance de intermediação de indicação do jogador, que foi o que eu fiz no caso do Gabriel, é uma coisa que eu tenho facilidade hoje. Muitos jogadores ou um empresário pequeno pedem isso, mas muitas vezes eles têm uma carência de contatos. Eu já construí uma rede de relacionamentos nestes anos e continuo recebendo uma enxurrada de indicações de novos garotos.

Qual a diferença do nosso mercado de futebol para o europeu? Há um investimento maior dos clubes nos times de base?
– Aqui também tem um trabalho de base bem feito em alguns grandes clubes. Conheci muitos profissionais, comecei a admirar a inteligência desses caras, o planejamento, o cuidado que eles têm com a formação dos atletas. É muito fascinante este lado da base e estamos tentando aprender também como se faz lá fora. Vejo os caras indo para os torneios voltando com novidades, comentando sobre treinamentos. A Alemanha não foi campeã à toa.

O futebol também tem seus problemas de corrupção, dos cartolas de clubes e inclusive da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
– A gente sabe que tem, (a corrupção) está dentro do Brasil. Mas a gente consegue colar com os caras mais legais, mais direitos. Tem muitos diretores e executivos de futebol que são super sérios e procuro me aproximar deles. Se tem uma coisa que me deixou decepcionado nesse meio foi a ingratidão de alguns pais e do próprio jogador que você apoia.

Tivemos um grande evento esportivo, a Copa, em que se questionou diversos gastos do governo, dando origem ao “Não vai ter Copa”. Em breve teremos as Olimpíadas e de novo se discute legados e promessas não cumpridas. Qual sua expectativa?
– Vou torcer pra que dê tudo certo. A gente quer ver as coisas acontecendo. Não gostamos de injustiça, pessoas desalojadas indevidamente, mau uso de dinheiro público e outras coisas que vimos com a Copa. Mas sou a favor do esporte, quero que seja bem feito. Me emociono assistindo às Olimpíadas. O esporte é sinônimo de superação e os Jogos Olímpicos têm todo esse simbolismo da paz entre os povos, uma coisa que gostaria de ver neste planeta.

Neste momento o Gabriel, O Pensador, escritor, músico, compositor e empresário, está dedicado mais a qual do seus lados?
– Me sinto em todas as áreas, mas no momento a música está mais forte, em termos de novidades, coisas acontecendo. Mas isto pode oscilar. Daqui a um mês posso estar mais no futebol. É muito flutuante.