A CURA PELO ORGASMO

Para grande conforto de suas pacientes, o dr. Swift atendia a domicílio, já que não tinha ainda um consultório estabelecido na cidade

 

STATUS 47 - PORNOPOPEIA

– Papai, o médico que faz a mamãe gemer chegou! – anuncia o garoto sardento.
O dr. Swift pendura chapéu, o pesado sobretudo e o paletó no cabide e, depois de comentar com o dono da casa sobre o frio excepcional que está fazendo para um fim de setembro na Califórnia, ouve dele as novidades sobre o estado de saúde da esposa enferma.
– A melancolia parece que arrefeceu um pouco – relata o marido. – Mas os fogachos, as palpitações e a ansiedade voltaram com tudo. Ah… e…
O marido vai dizer algo, mas a presença do filho o coibe. Ele ordena:
– Já pro seu quarto! Vá fazer sua lição.
O garoto obedece com enorme relutância, roído de curiosidade. Quando ele sai, o marido comunica ao médico num tom baixo de voz:
– Ela reclama demais da sensação de pesadez lá embaixo…
– No púbis, o senhor quer dizer? – indaga o dr. Swift, apontando para o cavalo da própria calça.
– Sim, sim, ali mesmo. E não só isso. As inundações lá por baixo têm sido constantes. A pobrezinha tem que trocar de ceroulas várias vezes ao dia por causa da umidade excessiva.
O dr. Swift aperta os lábios, engruvinha o queixo e balança a cabeça, num gesto de compreensão da gravidade do quadro. Diz:
– Veja, meu amigo, é como já lhe disse. Os sintomas podem ser aliviados episodicamente com as massagens. Mas a medicina ainda não conhece a cura definitiva para a histeria. Nosso melhor recurso ainda é induzir a paciente ao paroxismo histérico. Só esse procedimento é capaz de lhe trazer alívio.
– Até a próxima semana, quando tudo recomeça… – suspira o marido, entre o desencanto e o conformismo.
– É verdade. O tratamento é apenas paliativo. E tem que ser repetido quantas vezes necessário.

Enquanto o marido calcula no puro instinto o quanto esse alívio vai lhe custar pela vida da mulher afora, o dr. Swift apanha sua maleta-valise preta de médico e sobe as escadas que levam ao andar dos quartos. Ele já conhece o caminho na casa desse funcionário burocrático de uma das companhias mineradoras de Cerro Gordo, cidade de montanha na Califórnia com alguns milhares de habitantes e uma porcentagem reduzida de mulheres, como não era raro acontecer no oeste americano em meados do século 19, quando se passa esta história.

Esse dr.Swift, aliás, parece ter existido, e a cena que eu descrevo tem altíssima probabilidade de ser verídica, ao menos em seus aspectos mais genéricos. Dizem os relatos mais confiáveis que o médico apareceu um belo dia em Cerro Gordo e se instalou no American Hotel, fazendo espalhar sua fama de especialista em histeria, uma condição psicossomática que afligia parte considerável da população feminina no mundo todo. Para o conforto de suas pacientes, o dr. Swift atendia a domicílio, já que não tinha ainda um consultório estabelecido na cidade.

No quarto, lá está a histérica de camisolão, deitada de costas na cama, com o dr.Swift sentado numa cadeira ao lado, arregaçando a manga direita da camisa.

– Dobre as duas pernas, joelhos para cima, por favor – ele comanda. – E pode abri-las também. Isso mesmo.
Daí, exercitando os dedos da mão direita como um pianista antes do concerto, o circunspecto esculápio tira da maleta uma latinha de vaselina perfumada, que ele abre para untar os dedos.

Em seguida, introduz a mão vaselinada por debaixo do camisolão da senhora, até alcançar o piloso e refolhudo entremeio das interbreubas, que passa a massagear com toda a sorte de giros, volteios, roçadinhas, esfregões e bilubilus possíveis, além de uma futucadas com o dedo médio pela vagina adentro. Claro que o experiente dr. Swift dedica especial atenção ao enigmático carocinho erétil conhecido como clitóris, que, bem dedilhado, provoca os gemidos a que o filho da paciente aludia quando viu o médico chegar em casa.

Eis que gemidos, respiração, batimentos cardíacos, temperatura corporal, contrações musculares, umidade genital, tudo chega ao limite máximo conhecido como “paroxismo histérico,” que normalmente não dura mais que dois ou três minutos. Logo todos os parâmetros físicos vão retornando à normalidade. A paciente verte lágrimas de alívio e felicidade, chegando a desfalecer por alguns segundos. Ela está livre dos sintomas histéricos até a próxima crise, quando o dr. Swift será novamente chamado a pôr literalmente a mão na massa.

Ninguém, naquela época, ousaria chamar o tal paroxismo histérico de orgasmo, e muito menos atribuiria às manobras terapêuticas do dr.Swift e seus colegas qualquer conotação sexual. De fato, para os médicos, todo o procedimento implicava grande dispêndio de energia física, além de lhes provocar câimbras nos músculos da mão e do braço, e uma inflamação crônica nos respectivos tendões que bem mereceria o nome de tendinite siriricóide, tantas eram as mulheres de todas as idades que os médicos eram convocados a massagear a domicílio ou no consultório.

E os maridos pagavam sem chiar por essa terapia masturbatória que lhes deixava as mulheres mansinhas por algum tempo, livres dos sintomas clássicos da histeria (de hysteron, útero em grego antigo): ansiedade, insônia, irritabilidade, instabilidade emocional com acessos alternados de choro e de ira, depressão (chamada de melancolia), fogachos, dor de cabeça, sensação de sufocamento, fantasias eróticas assombrosas, uma sensação de peso no baixo ventre e surtos de umidade entre as pernas.

Hoje, qualquer feminista pós-freudiana mataria no ato a verdadeira causa da histeria, bem como o mistério do desaparecimento dessa “doença” a partir dos anos 1950, quando deixa de ser descrita nos manuais de medicina. Trata-se do milenar domínio do homem sobre a mulher, condenada, num contexto social moralista, religioso e repressivo, a negar sua própria sexualidade. Na trepada, quem gozava era o marido. A mulher apenas acolhia o sêmem do homem para fazer filhos. A essa desigualdade instituída entre os sexos, se somava um generalizado desconhecimento da fisiologia feminina. E dá-lhe sessões de siririca clínica pra amansar tanto furor uterino descontrolado.

A prática era tão corriqueira que, quando o médico britânico Joseph Granville inventou o vibrador mecânico, em 1883, em plena era vitoriana, quem mais saudou a novidade não foram as pacientes, e sim os doutores, que as faziam atingir o “paroxismo histérico” com muito mais rapidez, facilidade e conforto. Sem contar que podiam atender mais mulheres histéricas e ganhar mais dinheiro.

Hoje em dia, se o maridão não a satisfaz, a própria mulher se encarrega de resolver suas ânsias sexuais recorrendo não mais ao dr. Swift, e sim ao velho e bom dr. Ricardão, de preferência sem o conhecimento do marido, que, ao menos, não tem mais que pagar pelas atenções que o outro cara dispensa à genitália da sua senhôra. A alternativa, sempre à mão, é entrar no sex-shop mais próximo, de onde ela sairá com um eficiente dildo vibratório-rotatório capaz de aliviar com grande eficiência e higiene o tesão latente. E que o dr. Swift e sua industriosa mão direita descansem em paz lá no
Hotel Americano, em Cerro Gordo.