PUNHOS DE OURO

Ele anda com sacos de dinheiro e gasta fortunas em carros, aviões e relógios. Não bastasse isso, recebeu US$ 240 milhões só para subir no ringue com o filipino Manny Pacquiao. Entrevistamos Floyd Mayweather Jr., o esportista mais bem pago –  e ostentador – do mundo

 

Por Wilson Baldini Jr.

 

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Era tarde da madrugada quando o dentista nova-iorquino Lee Gause recebeu uma ligação. Do outro lado da linha, quem falava era Money e, quando “Money talks”, é melhor prestar atenção. Gause teria de ir até Las Vegas para encontrá-lo, custasse o que custasse, tirar as medidas de sua arcada dentária e providenciar novos protetores bucais para o homem que virou sinônimo de dinheiro.

O cliente, o poderoso boxeador Floyd “Money” Mayweather, nem perguntou quanto a brincadeira sairia. Apenas assinou o cheque de US$ 25 mil para que seus protetores, um folheado a ouro e outro com uma nota de cem dólares estampada, ficassem prontos para a chamada “Luta do século”, como foi nomeado o combate entre ele e o filipino Manny Pacquiao, ocorrido no último dia 2 de maio. O resultado final da luta, uma vitória por pontos do americano sobre o oponente, foi muito contestado por fãs de boxe ao redor do mundo. Ninguém, entretanto, contestou a fama de fazedor de dinheiro de Mayweather. Estima-se que, só neste último confronto, ele tenha recebido US$ 240 milhões enquanto Pacquiao teria ficado com US$ 180 milhões. É muito dinheiro para uma pessoa só, mas o boxeador americano, de 38 anos, também é perito em gastar dinheiro. “Gasto com aquilo que me faz bem. Tive uma infância muito pobre e difícil. Agora, tenho tudo que quero. As pessoas não precisam se preocupar, pois sei muito bem o que estou fazendo. Não irei terminar minha vida na sarjeta. Minha vida pós-boxe já está acertada”, disse Mayweather em entrevista exclusiva à Status (leia mais na página 89).

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Mayweather recebe o cinturão da luta com Pacquiao.

Apesar de ser o esportista mais bem pago do mundo, dono de uma fortuna estimada em mais de US$ 1 bilhão, muita gente ainda se assusta com o estilo perdulário e ostentador de Mayweather. As comparações com lendas do boxe como Mike Tyson e Evander Holyfield, que ganharam fortunas e acabaram perdendo tudo, são inevitáveis. Com uma legião de 6,6 milhões de fãs no Instagram, Mayweather faz questão de mostrar como vive e gasta o dinheiro que ganha. Fotos dele com pilhas de dólares, carros, aviões, relógios, roupas e sapatos caríssimos fazem parte do dia-a-dia do lutador, que sempre registra tudo com alguma frase sugestiva como “Iates, jatos privativos, carros importados, mansões, maratonas de compras sem fim… E eu estou apenas começando! Conversei com Deus noite passada e perguntei: ‘Há algum problema esse seu REI pródigo viver dessa maneira?’ e Deus disse: ‘Não, você foi predestinado’”, escreveu Mayweather, enrolado em toalhas da grife francesa Louis Vuitton. E não se trata simplesmente de marketing barato. Ele, de fato, vive dessa maneira.

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Os protetores personalizados.

Pai de dois meninos e duas meninas, Mayweather costuma viajar com sacos de dinheiro, pois não usa cartão de crédito; tem duas frotas de carros esportivos (todos os automóveis de sua mansão de Miami são brancos e os estacionados na sua mansão de Las Vegas são pretos); só calça sapatos e só veste cuecas uma única vez, depois os descarta; gasta milhões em joias; e viaja no seu Gulfstream 550 avaliado em US$ 50 milhões enquanto seus seguranças voam em outro avião, um G4 comprado por Mayweather para acomodar sua entourage. O “carinho” especial com o grupo de quatro trogloditas é explicado pelo fato de Mayweather já ter gasto cerca de US$ 1 milhão com advogados por se meter em várias encrencas e até passar um mês preso por agressão a uma ex-namorada. “Floyd é o melhor chefe que existe”, diz o enorme Big Church, de 2,16 metros e 195 quilos, que não perde o bom humor nem mesmo em época de lutas, quando fica à disposição do chefe 24 horas nos 7 dias na semana.

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Quando Mike Tyson era campeão dos pesos pesados, muitos patrocinadores nos Estados Unidos não queriam colocar seu dinheiro em suas lutas, pois elas acabavam “muito cedo”. Tyson precisou lutar fora dos Estados Unidos e acabou perdendo o título no Japão. Com Mayweather é o contrário. Money é criticado pela falta de nocautes. Suas lutas são “chatas”. Mas ele tem uma vantagem primordial em relação a outros lutadores que passaram pelos ringues nas últimas décadas:bem ou mal, Money faz todo mundo falar de boxe. Por causa das lutas, falta de nocautes, pela técnica, pelas mulheres, pelos relógios, carros, aviões, seguranças. Ele é muito importante para o boxe. Sempre rodeado por celebridades como Jay Z, Justin Bieber, LeBron James, entre outros, faz com que o boxe esteja no centro das conversas. É do tipo falastrão como Muhammad Ali e mão aberta como Mike Tyson. Uma combinação que tem proporcionado números surpreendentes. Há dez anos, seus combates são os mais vendidos no sistema pay-per-view nos Estados Unidos. Em 13 duelos foram comercializadas 14,5 milhões de assinaturas, o que lhe garantiu o prêmio de atleta mais bem pago no mundo em 2014, segundo a revista Forbes, com US$ 105 milhões. Em 2013, ele assinou contrato de US$ 300 milhões com o canal Showtime para subir ao ringue seis vezes.

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De pé às 3h da manhã

Mas se engana quem pensa que Mayweather esteja dormindo em berço esplêndido. “Ele é o meu exemplo. Tive a oportunidade de dividir o ginásio com ele e vi o quanto se dedica aos treinamentos”, revelou o haitiano naturalizado canadense Bermane Stiverne, ex-campeão mundial dos pesos-pesados, pelo Conselho Mundial de Boxe. “O sucesso que ele acumula não é por acaso. Ele dá duro todos os dias.” Na preparação para a luta com Pacquiao, Mayweather divulgou um vídeo na internet no qual iniciava suas corridas diárias às 3 horas da madrugada. O trajeto era de 9 a 14 quilômetros. “Não é necessário cobrar nada dele. O esquema de trabalho é seguido à risca”, disse Nate Jones, um ex-peso-pesado olímpico do time dos Estados Unidos, que trabalha como auxiliar técnico de Mayweather há uma década. O ex-campeão mundial Zab Judah, que trabalha como sparring, também rasga elogios. “Eu me canso só de ver o seu ritmo de treinamento. Ele nunca está fora de forma.” Todos os dias são feitas sessões com três sparrings. Cada um deles é utilizado por cinco rounds. “Ele pensa em boxe 24 horas por dia. Não faço um plano de trabalho sozinho. Ele se conhece e sabe o que pode ser tirado de melhor em um dia de trabalho. É muito fácil trabalhar com Floyd Jr.”, diz Floyd Maywether Sr., pai e técnico do boxeador.

Perfeccionista, Mayweather diz que é necessário ser organizado para alcançar o sucesso. “E é preciso se cercar de pessoas certas, nas horas certas e nos locais certos.” Seus dois principais conselheiros são Al Haymon, um homem de negócios educado em Harvard, e Leonard Ellerbe, principal executivo da Mayweather Promotions. Os dois fizeram Mayweather se tornar uma máquina de dinheiro ao concentrar o poder nas mãos do lutador. Como um showman que sabe os lucros que gera para todos, Mayweather fica com 50% das vendas de pay-per-view e tem participação em cada ingresso, cerveja e hot dog vendido no MGM Grand Hotel. Mais: também recebe por cada transação que envolve a venda de direitos de transmissão para outros países. Só a rede de televisão das Filipinas, por exemplo, pagou US$ 10 milhões para transmitir a luta ao vivo para toda a sua população em canal aberto. “Ele será o primeiro atleta a se aposentar bilionário”, diz Ellerbe, que também multiplica a fortuna de Mayweather investindo em negócios no setor imobiliário de luxo nos Estados Unidos e na grife de moda The Money Team (TMZ).

Tudo é feito de modo que o boxeador se concentre apenas nos treinos. No dia-a- dia, é possível notar o grau de preparação de Mayweather. Ele mesmo é o responsável por separar seis pares de meias, cinco shorts, três camisetas e oito sapatilhas. “Ele precisa se sentir confortável para desempenhar bem seu trabalho”, disse Rafael Garcia, de 86 anos, seu cutman (auxiliar que cuida dos machucados durante as lutas). Todos os componentes do uniforme precisam estar combinando nas cores e impecavelmente limpos. Mania de limpeza, aliás, é uma das características do oito vezes campeão mundial em cinco categorias. Nos dias mais quentes em Las Vegas, quando é comum os termômetros ultrapassarem os 40oC, Mayweather toma até quatro banhos por dia. “Durante os treinos, ele para, a cada trabalho, para lavar as mãos.” Sua perseguição pela limpeza, segundo ele, explica seus carros serem pretos ou brancos. “São as cores que mais apontam a sujeira.”

Recentemente, Mayweather afirmou ser melhor que Muhammad Ali e Sugar Ray Robinson. O primeiro, para muitos, o esportista mais importante da história. Três vezes campeão mundial dos pesos-pesados (1964, 1974 e 1978) e que ultrapassou as cordas para se tornar um ativista contra o preconceito racial e também contra a Guerra do Vietnã, na qual se recusou a servir ao exército dos Estados Unidos. Sugar Ray Robinson é apontado por quase todos os especialistas em boxe como o melhor pugilista que já existiu. Foi campeão dos meio-médios e médios e somou 173 vitórias (108 nocautes) em 200 combates entre os anos de 1940 e 1965. Diante desses históricos, talvez Mayweather esteja falando demais. Seu nome vai estar no Hall da Fama do Boxe e ele sempre será lembrado como um dos maiores de todos os tempos, mas, se terá a mesma importância dessas lendas, só o tempo poderá dizer.

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Mãe viciada em crack

Essas declarações, entretanto, são direcionadas. Servem para cutucar os amantes da nobre arte e vender ingressos em suas lutas. E também refletem um pouco o que foi a sua infância. Filho de uma viciada em crack, Mayweather foi criado pela avó paterna. A pouca atenção dada pelo pai, um ex-boxeador que não teve sucesso, era dividida com as surras diárias de chicote. Sua relação com o pai tornou-se suportável, mas está longe de ser amigável. Floyd Sr. é o principal técnico, mas suas discussões durante os treinos são famosas e por várias vezes causaram o cancelamento dos trabalhos. “Eu já o perdoei por tudo de mal que ele me fez, mas não consegui esquecer”, afirma Mayweather, sempre com lágrimas nos olhos. Desde os três anos de idade, a academia de boxe era o único lugar em que ele se divertia. Com a ajuda dos tios, Roger e Jeff, logo calçou as luvas e percebeu que o caminho para fugir da criminalidade e das drogas estava dentro do ringue.

Medalha de bronze na Olimpíada de Atlanta, em 1996, Mayweather soma 19 anos de carreira profissional e jamais foi derrotado. Técnico, sabe aplicar com genialidade todos os golpes do boxe, com sequências longas e variadas. Além disso, ele se molda conforme o adversário. É comum vê-lo alterar sua tática dependendo das características de seus oponentes. Diante do mexicano Saul Canelo Alvarez e do argentino Marcos Maidana, dois de seus rivais, Mayweather deu um show de como confundir o adversário. Ora no ataque, ora na defesa. Esquivando ou atirando golpes, sempre com a mesma precisão. “Vou parar próximo dos 40 anos. Terei a chance de recomeçar a minha vida e não vou começar do zero. Tenho uma empresa (Mayweather Promotions) que cresce a cada dia com o boxe” diz Mayweather.

Depois que parar de trocar socos, Mayweather já sabe o que vai fazer. Sua empresa, a Mayweather Promotions, promete sacudir as negociações. Já faz isso e terá um acréscimo de força quando seu chefe assumir o papel de empresário. Atualmente, Money já administra a carreira de aproximadamente 80 lutadores e sua intenção vai ser “atacar” a Top Rank, presidida pelo lendário Bob Arum, e a Golden Boy Promotions, de Oscar De La Hoya. Não importa o que vai fazer. Sempre com muita polêmica.

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Ele é tão influente que é recebido até pelo presidente dos EUA Barack Obama

“Tenho tudo que quero”

Floyd Mayweather é vaidoso, presunçoso e narcisista, mas ninguém pode negar que é um vitorioso. Próximo de pendurar as luvas, o maior nome do boxe na atualidade tem projetos ambiciosos para o futuro e revelou tudo para a Status:

status O que você acha das pessoas que não gostam de sua ostentação com os gastos com aviões, óculos, relógios?
– Mayweather Gasto com aquilo que me faz bem. Tive uma infância muito pobre e difícil. Agora, tenho tudo que quero. As pessoas não precisam se preocupar, pois sei muito bem o que estou fazendo. Não irei terminar minha vida na sarjeta. Minha vida pós-boxe já está acertada.

Você não acha que seu estilo “gastador” pode influenciar mal seus filhos?
– Não. Dou presentes caros a eles, mas sempre alerto para que busquem seus objetivos com muito trabalho. O que conquistei foi em cima do ringue, de modo honesto. Acho que isso é um exemplo a ser seguido.

Mas comprar um avião para os seus seguranças não é muita coisa?
– Não. O trabalho deles é muito duro. São 24 horas, sete dias da semana e 365 dias no ano. Confio plenamente neles e preciso que eles estejam felizes ao meu lado.

O que pretende fazer após parar?
– Vou parar próximo dos 40 anos. Terei a chance de recomeçar a minha vida e não vou começar do zero. Tenho uma empresa que cresce a cada dia com o boxe.

Você acha que terá o mesmo sucesso como empresário?
– Busco fazer tudo na vida da melhor forma possível. Trabalho muito para alcançar meus objetivos e continuarei levantando bem cedo da cama.

O boxe vai sobreviver sem Floyd Mayweather?
– O boxe já teve outros grandes atletas e eles também pararam de lutar. Vão surgir outros. Sempre irão surgir.

Como você gostaria de ser reconhecido depois de pendurar as luvas?
– Quero ser lembrado como o melhor de todos os tempos. Respeito muito as lendas que fizeram história no passado, mas quero ser lembrado como o maior de todos.

E quando você vai parar?
– Vou lutar em setembro. Vai depender do resultado e da minha condição física. Vamos esperar. Por que a pressa?