TRILHA DE AUTODESTRUIÇÃO

Com Talco de Vidro, o quadrinista fluminense Marcello Quintanilha apresenta seu trabalho mais psicológico

 

Por Ronaldo Bressane

 

STATUS 47 - APPROACH, ENTRELINHAS

Uma dentista bem-sucedida, com um marido amoroso, dois filhos na escola, uma casa bem decorada e outra na praia, um carro novo. Nada disso é suficiente para competir com o sorriso da prima, sua fiel rival desde a infância – mais bonita, mais divertida e mais pobre, mas também mais livre. O sorriso da prima, entrevisto em uma sessão para tratar uma cárie, abre um buraco monstruoso no mundinho perfeito da dentista – desenhando uma destruição cujas linhas serão, a certa altura, feitas de cocaína. Ou Talco de vidro (Veneta; 160 págs.; R$ 51), título do novo álbum de Marcello Quintanilha, brasileiro radicado em Barcelona. Conhecido por seu trabalho ultrarrealista e pela veia de cronista premiado, Quintanilha sai do meio social onde produziu a maior parte de suas histórias (favelas e os conflitos entre pobres e miseráveis) para observar as angústias da classe média alta. O resultado é um mergulho psicológico impactante. Seu estilo, antes mais “fotográfico”, agora abraça o expressionismo preto-e-branco e o uso de uma técnica em desuso: as retículas. Status conversou com ele.

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Em Talco de Vidro, apenas os rostos dos personagens tem traços definidos: todo o resto é sugerido a partir de manchas de luz

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Seu estilo cinematográfico rende espantos do tipo “mas parece foto!”. Como é que você faz? Fotografa e depois usa como referência?
– A fotografia é indissociável do meu trabalho. Utilizo ostensiva documentação para criar ambientes fictícios ou para representar ambientes reais. Posso fotografar e representar diretamente uma fotografia se quero que uma determinada história adquira um caráter documental. Já o desenvolvimento da história e a estruturação dos personagens, contudo, desenvolvo-os diretamente no papel, mesmo que tenham partido de referências fotográficas. Desta forma sou livre para desenhá-los segundo
as exigências da própria história.

Talco de Vidro, como já foi apontatado, marca uma mudança na sua perspectiva: das favelas cariocas à zona sul; em vez do olhar na terceira pessoa e registro de cronista, a narração no indireto livre, quase dentro da cabeça da protagonista – que, ao contrário de quase todos os seus outros livros, é uma mulher. A que se deve essa mudança narrativa?
– Ao desdobramento da minha proposta narrativa em aspectos pouco explorados no meu trabalho, mas que me seduzem igualmente. Também deve-se à minha intenção de trabalhar um personagem que traduzisse uma maneira de pensar incomodamente familiar a todos nós, independentemente de nossas classes sociais. Rosangela encarna uma série de princípios através dos quais é possível estratificar toda uma rede de sentimentos que condicionam nossas vidas de forma quase totalitária, gostemos ou não.

Outro ponto de mudança é a preferência pelo PB em vez do registro em cores de outros álbuns. Seria uma aproximação ao expressionismo?
– O expressionismo sempre esteve presente, em maior ou menor medida. Em Talco de Vidro, apenas os rostos dos personagens têm traços definidos: todo o resto é sugerido a partir de manchas de luz e sombra, o que torna o sentido expressionista mais evidente. Essa forma de tratar o desenho corresponde também a um alinhamento com o sentido da história propriamente dita, uma vez que ela está construída de forma a sugerir muito mais do que evidenciar.

CONTOS DO EX DE MARILYN

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O último filme de Marilyn Monroe e Clark Gable, Os Desajustados, foi baseado em um conto de Arthur Miller (ex-marido de Marilyn) que integra a ótima coletânea Eu não preciso mais de você (Companhia das Letras; 456 págs.; R$ 50). O conto-título, sobre um menino judeu de cinco anos assombrado por um monstro que vê sair do mar, ou Presença, sobre um velho que pega um casal no flagra, são narrativas que calam fundo mais pelo que sugerem do que pelo que revelam.

ROMANCE NOIR

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Um assassinato motivado pela derrota da seleção brasileira em 1950 tem conotações racistas e detona uma série de questões nos círculos negros do Rio de Janeiro. Nei Lopes faz de Rio Negro, 50 (Record; 288 págs.; R$ 35) um romance policial delicioso e majoritariamente estrelado por afrodescendentes.

SEGUE DE VOLTA?

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Uma banda cover decadente, um produtor de salsicha que pretende ser escritor, o velho líder de uma banda punk, o artista incompreendido munido de curador e assessor de imprensa, um artista que resolve parar de produzir, um não-escritor que compra obras alheias para publicar sob seu nome, um publicitário em crise: todos são personagens dos divertidos contos de Mais laiquis (Tulipas Negras; 80 págs.; R$ 40), do curitibano Marcio Renato dos Santos em busca de amor, carinho, atenção, ou seja, “likes”.

MONSTRO SECULAR

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Em Os mil outonos de Jacob de Zoet (Companhia das Letras; 568 págs.; R$ 65), romance do inglês David Mitchell, Zoet sonha em se casar com a amada Anna em sua Holanda natal, mas precisa descobrir quem está roubando a Companhia Holandesa das Índias Orientais, locada na curiosa Dejima, ilha artificial situada em Nagasaki, único ponto de contato do fechado Japão com o mundo em 1799.

NÃO É UTOPIA: ESTÁ ACONTECENDO AGORA 

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Autor de Felicidade S.A., o jornalista Alexandre Teixeira narra em De dentro para fora (Arquipélago; 256 págs.; R$ 45) uma revolução no mundo do empreendedorismo. Ativistas inconformados com uma vida de acomodação atuam em empresas sociais e utilizam a livre- iniciativa para insuflar os negócios e conseguir criar um impacto socioambiental positivo: afinal, seu objetivo é lutar para conciliar lucro e justiça social, competição e espiritualidade, eficiência e bem-estar.

VISUAIS E VELOZES

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“O céu queria preparar uma tempestade, estava se enchendo do mesmo chumbo que ele vira na face dela, cheia de surpresa.” São assim, visuais e velozes, os microcontos deste Afagos (Cosac Naify; 208 págs.; R$ 30), do respeitado artista paraibano José Rufino. De uma frase até pouco menos que uma página, os textos são achados plásticos, pequenas epifanias, histórias invertebradas, instantes colhidos para roubar à mediocridade dos dias um momento de luz. “Farejava problemas com faro de lobo. Deu no que deu.”