FÁBRICA DE SONHOS

Entramos na Pixar, a empresa que reinventou a animação. Saiba como é o dia-a-dia na companhia e como seus personagens vão parar na telona

 

Por Elaine Guerini, de Emeryville (Califórnia)

 

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Uma imagem salta aos olhos enquanto Pete Docter exibe slides para ilustrar como chegou à inusitada ideia de Divertida mente, o 15° longa da Pixar Animation Studios. É uma fotografia do próprio Docter, um tipo magro, alto e com orelhas grandes (silhueta típica de personagem de desenho), segurando uma taça de margarita flamejante. “Essa foto não tem a ver com o projeto. Mas foi uma noite e tanto”, disse, rindo, o vice-presidente de criação do estúdio, localizado em Emeryville, a cerca de 13 quilômetros de San Francisco, na Califórnia. A brincadeira não deixa dúvidas sobre o clima de irreverência que impera na Pixar, o estúdio que revolucionou o mercado de animação dos anos 90, com o uso da computação gráfica. Onde mais os funcionários viriam trabalhar de patinete, parariam no meio do expediente para jogar videogame ou decorariam seus escritórios como uma cabana do Tarzan?

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

John Lasseter (à dir.) é sempre o primeiro a fazer piadas nas reuniões com a equipe da Pixar.

“Não existe ideia idiota na Pixar. Nós criamos um ambiente criativo e descontraído buscando deixar toda a equipe à vontade para dizer as coisas mais insanas, sem que ninguém se sinta envergonhado. É assim que nascem as histórias mais originais”, disse Docter, durante visita da Status à Pixar, numa terça-feira movimentada. Uma das mentes responsáveis por vários hits do estúdio, como Monstros S.A., Wall-E e Up – altas aventuras, ele ainda se lembra da expressão de John Lasseter, o todo poderoso da Pixar (sempre visto de camisa havaiana), assim que apresentou a premissa de Divertida mente. “John arregalou os olhos quando eu disse que seria a trama de uma garotinha. Mas que ela seria apenas o cenário, já que muito da ação se passaria dentro da sua cabeça”, contou Docter, que trabalha no estúdio desde 1990.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Escultura de abajur de mesa de mais de seis metros, símbolo da empresa, é atração em frente ao prédio vislumbrado por Steve Jobs (com o átrio central, na foto abaixo)

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Da ideia até a conclusão, um filme consome cerca de cinco anos de trabalho na Pixar. Só o processo de escrever e reescrever a trama dura quase três anos. Depois são mais dois anos de produção em si – até porque a equipe leva cerca de uma semana para realizar apenas três segundos de animação. De tempos em tempos, a produção ainda é visitada pelo “Braintrust”, como ficou conhecido um grupo de diretores, escritores e líderes criativos da Pixar que acompanha o desenvolvimento de todos os filmes, oferecendo críticas “brutalmente honestas, porém, cândidas e construtivas”. Seu objetivo é o de dar uma nova perspectiva aos projetos, trazendo ideias novas e apontando problemas que as pessoas envolvidas já não conseguem enxergar, por estarem no mesmo trabalho há meses ou anos.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Divertida mente, teve a ajuda dos brasileiros Claudio de oliveira (foto) e Priscila Vertamatti (abaixo)

“Não temos pressa. É preciso tempo para fazer um filme de qualidade. As ideias mais inovadoras, o que é fundamental no âmbito das artes, surgem quando o profissional se sente seguro o bastante para correr riscos”, afirmou o produtor de Divertida mente Jonas Rivera, há 20 anos na empresa – onde trabalhou em Vida de inseto, Monstros S.A. e Up, entre outros títulos. “Nossa filosofia está mais para campus de universidade do que para fábrica. Incentivamos a integração dos funcionários, instaurando um espírito de confiança e de comunidade’’,completou Rivera.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Até o design do prédio foi concebido para promover encontros não planejados e a colaboração entre profissionais no decorrer do dia. Criar um espaço mais humano e aconchegante, distante da sombriedade dos escritórios convencionais, foi ideia de Steve Jobs (1955-2011). Assim que adquiriu a divisão de computação gráfica da Lucasfilm, dando início à Pixar, em 1986, o empresário contratou a firma de arquitetura Bohlin Cywinski Jackson para desenhar um prédio de 18.500 m2, de dois andares. Inspirado nos armazéns dos anos 1920 e 1930, o The Steve Jobs Building é uma construção de alvenaria, com vigas de aço visíveis. Como ele é todo revestido de vidro, do chão ao teto, a luz natural invade todo o espaço, desenhado com um gigantesco átrio no centro, para servir de praça.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Diretor de Divertida mente, Peter Docter

Essa área comunitária é cercada por restaurante e cafeteria, por sala com bufê de cereais (à disposição dos empregados o dia inteiro, gratuitamente), sala de jogos (com mesa de bilhar e de pingue-pongue), loja de produtos Pixar (com brinquedos, camisetas e lembrancinhas) e um auditório de 250 lugares – onde são projetados os dailies, o material bruto com as cenas feitas diariamente pela equipe. “Até os banheiros foram colocados estrategicamente nos cantos do prédio, obrigando os funcionários a transitarem mais pelo local e, consequentemente, interagirem com os demais e trocarem ideias”, disse o supervisor de animação Shawn Krause.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Produtor de Divertida mente, Jonas Rivera.

O espaço foi inspirado no cérebro humano, com uma divisão no primeiro andar do prédio. Do lado esquerdo, comandado pela lógica e pela racionalidade, ficam os departamentos ligados à computação gráfica, como iluminação, direção de fotografia e efeitos especiais. Na ala direita, que rege a imaginação, a emoção e os impulsos artísticos, estão localizados os escritórios dos profissionais da área criativa, como roteiristas e animadores. E cada funcionário é incentivado a decorar o seu escritório de forma personalizada. No lugar de cubículos insípidos, os espaços têm inspiração no Velho Oeste, no Havaí, nas viagens espaciais, no Halloween ou outros temas. Muitos são casinhas mesmo, o que reforça a ideia acolhedora do local. E o exemplo vem de cima, já que o escritório de Lasseter é quase uma loja de brinquedos, com prateleiras repletas de carros e bonecos. Uma parede é totalmente dedicada a Hayao Miyazaki, o ícone da animação japonesa que mais influenciou Lasseter.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Supervisor de animação Shawn Krause.

Bilhões de dólares

Jobs e Lasseter representaram, de certa forma, o encontro do negócio com a arte. Ao comprar a Pixar, que era apenas uma divisão da Lucas Films, a empresa de efeitos especiais de George Lucas, Jobs teve a visão empresarial para transformá-la em uma companhia de sucesso. Foi ele quem apostou na computação gráfica, que acabaria revolucionando o mercado. Lasseter entrou com a sensibilidade artística, lançando animações mais sofisticadas e inteligentes que os desenhos tradicionais (até então para crianças). Essa parceria trouxe prestígio e fortuna à Pixar, que acabou sendo comprada pela Disney, em 2006, por US$ 7,4 bilhões, para que o estúdio do Mickey não fosse ofuscado pela concorrência.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

O clima de descontração impera nos corredores da Pixar.

“A Pixar entende que, para instigar a criatividade e a inovação, é preciso envolver a equipe num clima de espontaneidade”, disse o brasileiro Claudio de Oliveira, um dos animadores de Divertida mente. O gaúcho notou logo a diferença de filosofia ao chegar à Pixar, há quase dois anos, depois de passar pelos estúdios de animação da Disney e da Sony. “Aqui ninguém controla o que eu faço durante o expediente. Desde que eu faça um bom trabalho e o entregue no prazo, posso passar o dia jogando futebol ou na piscina’’, contou o animador, lembrando que a Pixar encoraja todo o seu quadro de pessoal (com mais de 1.000 funcionários) a desfrutar de suas áreas de lazer.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

É raro ver alguém usando terno e gravata.

Cercada de muito verde, a área total do estúdio (de 89.000 m2) conta com campo de futebol, piscina olímpica, sala de ginástica, sauna, pista de corrida, quadra de basquete e de vôlei – abertos também aos sábados e aos domingos. Há ainda professores de ioga e massagistas à disposição dos funcionários. “Aqui eu me sinto muito mais livre como artista”, afirmou a animadora paulista Priscila Vertamatti, há três anos no estúdio, onde atuou em Universidade Monstros e agora em Divertida mente. “Instalei um projetor enorme no meu escritório para poder jogar videogame na hora do almoço. Adoro distrair a mente jogando Super Smash Bros, o que muitas vezes me ajuda a ser mais criativa quando volto para minha mesa”, disse ela.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Reunião da equipe de Divertida Mente com o ator Bill Hader (em pé), que dubla o personagem Medo na animação.

O sucesso da Pixar, dona de uma coleção de 12 estatuetas do Oscar, se deve certamente à filosofia do estúdio. Ciente de que a criatividade não é uma ciência, a empresa pensa nos mínimos detalhes para cuidar do bem estar e instigar a imaginação dos funcionários. Todo o ambiente lembra mesmo o de uma universidade, com pessoas de espírito jovem e inovador se expressando como bem entendem – independentemente da idade. Não há ninguém circulando pelo prédio de terno e gravata. “Até hoje, na hora de sair de casa, muitas vezes eu digo equivocadamente ‘tenho de ir à escola’. Não falo trabalho porque talvez eu não sinta que esteja fazendo qualquer esforço aqui, embora seja muito bem pago para isso”, contou Docter, rindo. “O segredo é simples. É entender que as melhores ideias sempre nascem dos funcionários que trabalham mais felizes.’’

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Cada funcionário pode personalizar a sua área de trabalho. Algumas são casinhas.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Desenhos feitos por artistas para estabelecer o conceito visual de cada filme durante a pré-produção

A construção de uma cena
esboço Com o roteiro pronto, os animadores passam a desenhar os personagens, definindo os seus traços, e posicionando-os na cena.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Desenho virtual
Com a ajuda do software de computação gráfica da Pixar Animation, são criados os modelos tridimensionais dos personagens, dos adereços e dos cenários.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Melhor ângulo
Graças a uma câmera virtual, que imita os movimentos de um aparelho de verdade, os animadores podem passear pelo cenário buscando a melhor tomada para a cena.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Animação
A animação propriamente dita só começa depois da cena estruturada, quando são coreografados todos os movimentos e as expressões faciais, dando vida aos personagens.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

Cena final
A última etapa inclui o acabamento de textura e cores e a iluminação de cada cena. Os recursos ajudam a acentuar a emoção e a dar profundidade nas cenas.

STATUS 47 - ESPECIAL PIXAR

116