ÍNDIA QUER FOGO

Assanhadas, elas partem para cima deles em busca de sexo e, quem se negar, corre o risco de levar tapas, puxões de cabelo e até ouvir desaforos. Assim é a tahinga, costume que permite às índias kuikuro, no Xingu, zombar e transar com os homens da aldeia. Nem que seja à força

 

Por Jr. Bellé Fotos Vincent Carelli

 

STATUS 48 - TOP SECRET

 

É noite no Alto Xingu, norte do Mato Grosso. A escuridão veste o céu de negro enquanto seus ruídos misteriosos cercam a aldeia Ipatse, do povo Kuikuro, mas apenas os homens recolhem-se às ocas, grandes abóbodas de palha bege sobre um descampado de terra vermelha a perder de vista. Eles se deitam nas redes mas não conseguem dormir – estão em alerta para o alarido que vem de fora. Lá, as mulheres cantam e dançam, absolutamente despertas e entusiasmadas. Elas passaram o dia todo ensaiando para o Jamurikumalu, um ritual do qual são as grandes protagonistas e, por isso, mesmo após o pôr do sol, ainda estão todas pintadas e arrumadas. Não que elas não façam outros rituais e brincadeiras que exijam certos ornamentos, mas o desta noite será muito especial. O grande evento envolverá os povos amigos de toda a região, além das demais aldeias Kuikuro, algo que não acontece há 35 anos. A importância do ritual as deixa afogueadas, e a ansiedade é, sem dúvida, uma ótima desculpa para lançar mão de uma de suas mais sacanas brincadeiras em grupo, a tahinga.

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É durante a tahinga – brincadeira que, vale ressaltar, só é permitida somente em meio a algum ritual – que as mulheres entoam as cantorias mais assanhadas que conhecem, percorrendo a aldeia atrás do sexo oposto. Cantando, elas anunciam o ataque: “Eu vou quebrá-lo, eu vou quebrá-lo quando estiver saindo de mim. Eu vou quebrá-lo, eu vou quebrá-lo quando estiver vomitando dentro de mim”. Protegidas pela lua, segundo a crença, elas definem um alvo e chegam a invadir as ocas no encalço deles. “Eu não gosto do pequeno, é do grande que eu gosto”, gritam algumas das mulheres, enquanto outras se lançam sobre as redes dos homens, compelindo-os a transarem com elas. Aos fugitivos, sobram pratos voando, terra se espalhando no ar, bofetões, esguichos d’água e insultos sobre a natureza minúscula de seu pau. Sobram também sorrisos e piadas de ambas as partes. Afinal, ninguém ali está ofendido ou bravo: homens e mulheres se divertem, já que a tahinga é, acima de tudo, uma divertida tradição entre os Kuikuro. O termo significa “jacaré”, mas há, no entanto, um sentido diferente incrustado nas flexões do termo, como “jacarezar”, espécie de gíria que significa “namorar escondido com outras mulheres”.

Cabeça preta

Destemido, o índio Jahilá, um dos homens, zomba das mulheres. Imitando a voz feminina, ele canta: “A cabeça do pau é muito preta. A cabeça do pau é muito preta”. Ainda esperançosos, os homens organizam o contra-ataque e perfilam-se para cantar e dançar juntos, parodiando e caçoando das mulheres. Elas, por sua vez, recuam para uma das ocas e silenciam. Quando os homens estão prestes a entrar, elas investem contra eles gritando com fúria e promovendo tamanho estardalhaço que os faz debandar numa estabalhoada correria, afinal naquela noite elas têm o direito de agarrá-los e arrastá-los até suas redes, o que de fato acontece com muitos. Uma regra, porém, precisa se respeitada durante a farra: as índias podem correr e zombar de todos os índios, mas só podem transar com primos. Se o primo estiver casado, não tem importância – a esposa não apenas consente com o ato de traição como ainda fica observando o casal. Como a farra acontece à noite e não há luz elétrica na aldeia, o registro fotográfico do fuzuê torna-se inviável, o que faz da tahinga um momento ainda mais curioso aos olhos do “homem branco”.

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A tahinga acontece durante rituais como o jamurikumalu, que inclui ainda danças, jogos e até lutas

Para Carlos Fausto, antropólogo e professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a tahinga é uma “brincadeira séria”, que só pode ser feita em contextos específicos e que, fora deles, é de certa forma condenada. “É como o Carnaval. Se um homem sair na rua vestido de mulher, com saia e sutiã, por exemplo, está tudo bem, todo mundo entenderá. Mas imagina fazer o mesmo no dia a dia?”, diz. “A tahinga é uma brincadeira divertidíssima, os homens cantam tirando sarro da vagina das mulheres, que respondem com outros cantos zombando do pênis. É uma grande gozação”. Segundo ele, algumas mulheres chegam a agir de forma violenta durante a brincadeira, o que é normal e aceito por todos. “O contrário, porém, não se aplica, ou seja, os homens nunca podem ser violentos com elas”, explica o antropólogo.

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“A tahinga é sempre parte de uma festa maior, que pode durar dias e engloba também os preparativos, os jogos, cantos e o ritual propriamente dito, seu ápice”, explica Takumã Kuikuro, que além de membro da aldeia Ipatse é também cineasta, ofício que ele vem desenvolvendo desde 2002, quando participou de um workshop de vídeo na aldeia. Um de seus documentários, As hiper mulheres (2011) – cuja direção ele assina com Carlos Fausto e o cineasta Leonardo Sette – trata justamente de um ritual, o Jamurikumalu, que envolve a tahinga. O filme gira em torno de Kanu, a única mulher da aldeia que domina todos os cantos e danças, ou seja, a única que pode fazer o ritual acontecer. Durante as filmagens, Kanu adoeceu, e o fato, que quase impossibilitou o trabalho dos cineastas, acabou se tornando o grande tema do documentário. “Nós estávamos lá discutindo o risco de aqueles rituais serem perdidos e, diante de nós, a única cantora que sabe o conjunto completo dos cantos, em sua forma ritual, e que ainda tinha forças para dançar – pois sua mãe já está velhinha – encontrava-se seriamente doente”, conta Sette. Por fim, Kanu acabou se recuperando durante os trabalhos de filmagem e o ritual Jamurikumalu pode ser registrado.

Além de um ritual

Para muitos pesquisadores, o Jamurikumalu é mais que um ritual – é quase um mito na cultura kuikuru. Segundo a antropóloga Bruna Franchetto, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, o termo significa algo como “mulher-hiper-feminino”. “O Jamurikumalu seria a reencenação periódica da primeira execução dos cantos femininos, que transformaram as kuikuru em seres hiper, em hiper mulheres”, diz a pesquisadora. O ritual é uma grandiosa celebração, que acontece com a participação de várias aldeias convidadas. Ela é o desfecho de meses de ensaios das mulheres e de um árduo trabalho coletivo da aldeia anfitriã, afinal a festa exige um montante enorme de recursos, entre comida farta para todos e combustível para os barcos. Por isso, o Jamurikumalu ocorre com consideráveis lapsos de tempo. O anterior ao registrado em As hiper mulheres ocorrera 35 anos antes. Além do ritual – com seus cantos e danças – a festa envolve também jogos e brincadeiras (como a tahinga), em que as provocações entre homens e mulheres são frequentes. Os homens costumam entoar os cantos do sapo pygo-pygo e da vagina (egy igisy) , que descrevem secreções, cheiros, perigos e feiúras do sexo feminino. As mulheres respondem com o hyge igisy, o canto do pênis, zombando da fraqueza, do tamanho diminuto e de como o órgão masculino “desmaia” logo depois do gozo. Ao fim do ritual, após a execução cabal dos cantos e danças femininos, as mulheres se transformam em seres “hiper”.

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A índia kanu (à dir.) repassa seus conhecimentos ao grupo. ela é a única mulher da aldeia que domina todos os cantos e danças do ritual