O AMIGO ÍNTIMO DO PODER

Ele conhece os meandros de Brasília como poucos e é o defensor predileto de figurões encrencados na Justiça. Mas sabe como aproveitar os gordos honorários que cobra, com festas de arromba, vinhos caríssimos e escapadas para a Europa no meio da semana. Este é Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, o advogado mais bon vivant da capital

 

Por João Domingos

 

STATUS 48 - PERFILCom bom trânsito entre ministros de esferas superiores, Kakay é considerado um expert na argumentação ao pé do ouvido de juízes

No número 172 do Boulevard Saint-Germain, em Paris, fica um dos mais celebrados cafés do mundo, o Café de Flore. Desde 1890 poetas, intelectuais, artistas e curiosos se espremem por lá. O casal de filósofos existencialistas Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir e o escritor norte-americano Ernest Hemingway tinham o costume de ali trabalhar. O lendário Jim Morrison, vocalista da banda The Doors, passou pelo café semanas antes de ser encontrado morto, em 1971. O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, 57 anos, o Kakay, muitas vezes fecha a estratégia de defesa de seus clientes – em sua maioria ricos e poderosos bem encrencados – no Café de Flore. Foi de lá que, em setembro, Kakay ditou para seu escritório, em Brasília, a renúncia à advocacia do doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava Jato da Polícia Federal, quando este decidiu fazer delação premiada, por pressão da família. “Tinha dito a ele que, se fizesse a delação, eu sairia. Quando me comunicaram a decisão do Yousseff, eu desci do meu apartamento, pedi um copo de bordeaux no Flore e ditei a petição para o escritório”, conta Kakay.

Quando Kakay diz que desceu do apartamento e foi para o Café de Flore, ele de fato fez isso. É que há dois anos o advogado comprou um imóvel de 160 m2, com três suítes, na Place Saint-Germain, 6, de frente para a Igreja Saint-Germain-des-Prés. O topo do prédio é virado para o Boulevard Saint-Michel e debruçado sobre o Cafe de Flore. É o point do point do Quartier Latin. Kakay viaja a Paris de seis a sete vezes por ano. Quando não está lá, deixa o imóvel fechado. “Alugar? Nunca. É para a família”, diz ele, casado com a chef de cozinha Valéria Vieira e pai de três filhos, dois já adultos. E quanto custou? “Me esqueci”, responde. (Um apartamento do mesmo tamanho na região custa hoje cerca de 1,66 milhão de euros, algo como R$ 5,5 milhões). Na entrada do prédio, a placa que indica o apartamento dele tem a inscrição “Almeida Castro Kakay, avocat au Flore, 1er étage gauche”. Trata-se de uma brincadeira, já que ele não tem licença para advogar na França. Mas ajuda a massagear o ego. “Ao renunciar à advocacia do Youssef de uma mesa do café, não fiz jus à placa de advogado no Flore?” No café, Kakay também deixa a imaginação fluir. Escreve contos, bebe vinho. Bebe vinho, escreve contos. “Alguns já estão prontos”, diz.

Apesar de se sentir um parisiense nato, Kakay mora mesmo em Brasília, em uma mansão de três andares no Lago Paranoá. É ali que ele mantém um de seus xodós: uma adega de dois andares com mais de 4 mil garrafas de vinho, cujas saída e entrada são controladas por computador. “Bebo uma garrafa todos os dias”, conta ele. “Mas não sou um especialista, sou um bebedor”.

Muitos ele mesmo compra, mas há ali diversos presentes. Como em 2013, quando o deputado Paulo Maluf, agradecido após uma conversa “político-jurídica” com Kakay, deu ao advogado um Chateau Lafite 1945, um Chateau Pétrus 1978 e um Baron de Pinchon 1961, três garrafas que, juntas, valem cerca de R$ 40 mil. “Morro de inveja do Maluf. Ele tem uma adega muito melhor do que a minha”. No escritório, há uma extensão da adega, em uma pequena sala climatizada. De lá, o advogado costuma tirar bons vinhos para brindar com os clientes as vitórias na Justiça que vai contabilizando. E, entre um comentário e outro, sente-se muito à vontade para falar da coleção de esculturas de bronze que está montando. Na sala principal, ele exibe a maior de todas: posicionada sobre a mesa, a Le Silence, do artista francês Sébastien Riou, com 50 cm de altura, e que os amigos apelidaram de “Le Mort”, por ter a aparência da imagem medieval da morte.

É ali, entre estátuas, vinhos e mármores, que Kakay costuma receber alguns dos clientes mais poderosos e endinheirados de Brasília. “Quando a casa cai, chame o Kakay”, costumam dizer na capital. Foi o que fez, por exemplo, o senador cassado Demóstenes Torres (GO), um feroz moralista que viu a casa cair depois de ter grampeadas, pela Polícia Federal, conversas com o empresário de jogos Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, em situação, digamos assim, nada parecida com a severa moral que sempre pregou. Kakay também é advogado do ex-presidente José Sarney e da filha, a ex-governadora Roseana Sarney, mencionada entre os supostos beneficiados no esquema de corrupção da Lava Jato. Outros clientes de Kakay estão no mesmo barco, como o ex-ministro de Minas e Energia Edison Lobão (PMDB-MA) e o ex-líder do governo Romero Jucá (PMDB-RR). O senador tucano Aécio Neves também contratou os serviços de Kakay, assim que seu nome passou a circular como possível investigado na operação Lava Jato (o que acabou não acontecendo). Sua lista de clientes inclui ainda 60 governadores e ex-governadores, cinco presidentes de partido, treze ministros do governo FHC, três do governo Lula e dois no primeiro mandato da presidente Dilma Roussef. Os políticos ajudam a alimentar a fama, mas a riqueza de Kakay vem em boa parte da iniciativa privada. Entre seus clientes constam empreiteiras como a Andrade Gutierrez, a Norberto Odebrecht e a OAS, os bancos BMG e Sofisa, e banqueiros fortes, como Joseph Safra, e não tão fortes, mas muito enrolados, como Daniel Dantas e Salvatore Cacciola. Ele foi também advogado do grupo francês Casino na briga com o empresário Abílio Diniz pelo controle do Pão de Açúcar.

Um advogado que costuma atuar ao lado de Kakay diz que a fama do colega no mundo dos poderosos – e, por consequência, a busca pela contratação dele – ocorre porque todos têm a certeza de que o colega tem trânsito muito tranquilo entre ministros dos tribunais superiores. Isso permitiria a prática do que, no jargão dos defensores, passou a ser chamado de “embargo auricular”, ou seja, a argumentação ao pé da orelha do juiz. Um recurso muito mais eficaz do que a defesa oral na tribuna, ou os longos memoriais que muitas vezes nem todos leem. De tão próximo a Kakay, o ministros do STF Luís Carlos Barroso teve de se declarar impedidos de julgar processos que tenham o advogado como defensor. “Por causa da ida dele para o Supremo, ele se afastou. Não precisava. Hoje, perdi um amigo”, lamenta.

Kakay, claro, refuta a tese de que seu sucesso seja apenas resultado de um bom networking e a atribui à inveja de outros advogados, sobretudo os paulistas. “Isso é maldade desse povo de São Paulo. Eu conheço Brasília e sei como as coisas funcionam. Eles não”. De fato, lembra o parceiro de causas, Kakay não só sabe tudo sobre os regimentos do Senado e da Câmara, como tem um senso de mídia que poucos têm. Muitas vezes ele proíbe o cliente de dar entrevistas e se torna, ele mesmo, porta-voz do acusado. “Sou acostumado com as fofocas de Brasília. Não me preocupo com notinhas maldosas. Olho a foto. Se for boa, considero que a notícia foi boa. Esqueço o conteúdo”, diz o advogado, que, além de advogar para muita gente endinheirada, é dono de dois restaurantes: o tradicional Piantella, frequentado por políticos e empresários ligados ao poder, e o Piantas.

E como é que Kakay chegou onde chegou? De acordo com um colega, com muito esforço e competência. De acordo com o próprio Kakay, com muito esforço, empenho, memória e alguma malandragem. Mineiro de Patos de Minas, ele se mudou para Brasília nos anos 70 e passou no vestibular de Direito da UnB. Envolveu-se na política estudantil, chegou a trabalhar no Banco Real, mas o dinheiro não dava nem para pagar a passagem para Patos, a 440 km da capital da República. Numa viagem de carona para Brasília com José Augusto Alckmin (primo em primeiro grau do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin), que namorava uma amiga sua, Kakay falou que precisava de um estágio e o amigo indicou-lhe o irmão, José Eduardo, advogado com fama em São Paulo e que estava prestes a abrir um escritório em Brasília. Kakay conquistou ali uma vaga de estagiário. “Passei a tomar conta do escritório, sabia tudo de cabeça, onde estava cada processo, de que se tratava, quem era o cliente, quais eram as questões”. Quando Kakay se formou, foi chamado para ser o novo sócio. Minoritário, mas sócio. Foi quando pegou duas causas da ex-ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello (governo Collor) e descobriu que o parceiro advogava para a pessoa que acusava a sua nova cliente. Ele e Alckimin decidiram, então, romper a sociedade. Zélia venceu as ações. Kakay ganhou fama.

STATUS 48 - PERFIL

Foi nessa época que ele se tornou amigo do ex-presidente do PT e ex-ministro José Dirceu, condenado no processo do mensalão por corrupção ativa e formação de quadrilha. O início dessa relação começou no governo Collor, mas em posições opostas: enquanto Kakay defendia muitos dos suspeitos de envolvimento no esquema de Paulo Cesar Farias (o “esquema PC”), Dirceu era um investigador rigoroso das confusões armadas pelo ex-presidente.
Tinha até uma equipe de assessores encarregada de fazer investigações particulares e montar dossiês contra Collor e PC Farias. “Como advogado de suspeitos, por várias vezes eu o procurava e dizia: ‘Zé, isso não é bem assim.’ Ele ouvia. Era atencioso. Ficamos amigos”, conta Kakay. Uns dez anos depois, quem se encharcou na lama foi Dirceu. Ele procurou Kakay para defendê-lo no processo do mensalão. Ouviu um não. “Zé, essa história vai ser transformada num caso político. Vão fazer todo tipo de intriga. Você precisa arrumar um advogado ligado aos tucanos”, disse Kakay.

Quanto mais pessoas corriam o risco de serem processadas no mensalão, mais clientes apareciam para Kakay. Ele recusava todos. Até que irrompeu em seu escritório o publicitário Duda Mendonça e a mulher, Zilmar Fernandes, sócios que reconheceram, durante a CPI dos Correios, ter aberto uma conta no exterior para receber parte do dinheiro da campanha vitoriosa de Lula, em 2001, no valor de R$ 10,4 milhões. “Eu não vim aqui pedir para que você me defenda. Eu vim aqui para avisar que você é meu defensor”, disse o publicitário. Kakay ainda tentou dizer que não pegaria casos do mensalão. Duda o convenceu: “Eu não posso ser acusado de um crime que, se aconteceu, foi depois de eu ter aberto a conta”. Kakay diz que avaliou o argumento e se convenceu de que, nesse caso, mais do que problemas políticos, havia uma defesa técnica fácil de ser feita. Venceu no STF por sete votos a três. O caso Duda fez aumentar ainda mais a fama de Kakay de vitória no Supremo, para satisfação dele na disputa com os colegas paulistas.

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Kakay diz que hoje só aceita defender uma em cada vinte pessoas que o procuram. E só aceita indicação de advogados, clientes e ex-clientes. Não conta quanto cobra. Mas admite que o valor é alto, muito alto. “Se for para cobrar pouco, faço de graça”, diz. Durante uma batida da Polícia Federal no escritório de Daniel Dantas, foi encontrado um recibo de R$ 8 milhões para serviços advocatícios de Kakay. Dos muito ricos, como Dantas, ele deve cobrar esse valor, palpita um colega. “Falam que ganho muito. Mas 30% de minhas ações são gratuitas”, revela Kakay. “Se vejo que a pessoa vai ser injustiçada, defendo-a sem cobrar nada, apenas por interesses humanitários”. Nessa condição, defendeu a atriz Carolina Dieckman, em 2012. A atriz teve fotos pessoais, nuas, vazadas na internet. Kakay conseguiu negociar com o Google e com o Yahoo para que retirassem as cenas do ar. Com a ação, ele ganhou muito espaço na mídia, o que veio a calhar no momento em que fazia a impopular defesa de Demóstenes Torres. Outra vez, defendeu de graça os alunos de Arquitetura da UnB que estavam sendo processados por um professor. Ganhou a causa e, de lambuja, R$ 3 mil de honorários. “Chamei os meninos e fomos todos para o Beirute (bar popular em Brasília) tomar cerveja”, conta. “Foi uma festa maravilhosa. Saímos todos bêbados”, conta o advogado, que foge ao padrão sisudo e formal da categoria. “Eu não me levo muito a sério”.