O PUTURISMO AO ALCANCE DE POUCOS

Juventude, imaginação, saúde, disposição, beleza… Uma chinesinha de Xangai possui todos esses atributos para conhecer o mundo. Mas a bela, que oferecia sexo em troca de hospedagem de luxo, não passa de uma pegadinha criada por uma empresa de tecnologia

 

Por Reinaldo Moraes

 

STATUS 48 - PORNOPOPEIA

Faz uns meses, peguei o jornal que me chega todo dia na porta de casa, abri e dei de cara com a foto em close de um chinesinha linda. Dizia a notícia que a figurinha chamava-se Ju Peng, uma estudante de Xangai, de 19 anos, que adora viajar e curtir todas as maravilhas, confortos e delícias possíveis nos translados e nos lugares para onde viaja. Esse seu impulso de conhecer outras regiões de seu imenso país e também do globo virou notícia e deu muito pano pra manga, e também pra cuecas e calcinhas, por conta do artifício que a garota teria bolado pra realizar seus sonhos turísticos, que, aliás, não eram nada modestos.

E, pra se ter uma idéia do quão pouco modestos, basta dar uma olhada na na lista de dez destinos turísticos internacionais incríveis que ela pretende conhecer, do Taj Mahal, na Índia, o suntuoso palácio-mausoléu em mármore branco que um marajá viúvo mandou erigir em honra de sua falecida esposa, ao castelo de Neuschwanstein, na Alemanha, que parece saído diretamente de um conto de fadas. O roteiro da chinesa incluía até o lago Hiller, na Austrália, também conhecido como Pink Lake, por causa da coloração cor de rosa de suas águas, devido à decomposição de um tipo de alga. Imaginei que a Ju Peng quisesse ter ali uma noção do que seria la vie en rose.

Juventude, imaginação, saúde, disposição, beleza, a tal da chinesinha de Xangai parecia, pelas fotos que ela postou, possuir todos esses atributos pra se lançar a esse périplo maravilhoso que ela mesma idealizou. Só lhe faltava um atributo indispensável ao viajante de grandes distâncias: grana. Mas nem por isso ela desistiu de seus projetos turísticos. Em vários sites de notícias, inclusive na versão digital do prestigioso diário inglês The Guardian, inteirei-me de que a Ju Peng tem posto em prática um tipo de crowdfunding muito particular. Pra começar a Juju Balangandã do Império do Meio, como a China era conhecida antigamente, postou na sua página do Weibo, a versão chinesa do Twitter, um post singelo anunciando o seguinte: “Quero ir a esses dez lugares de tirar o fôlego. Quem quer ir comigo?”

Imediatamente comentei com o ser irriquieto e eternamente curioso que vive de favor no aposento da frente da minha cueca: “Vamo nessa?!” E o ser irriquieto e eternamente curioso tirou essa pérola da cabecinha dele: “Só se for já!”

É, mas com que dinheiro, meu chapa, sem contar as outras qualificações que decididamente me faltam? Sim, pois a gata de Xangai estipula que seus “namorados temporários precisam ser bonitos, com menos de 30 anos, mais altos que 1,75 metro e, claro, rico.”

Claro, rico. Eis algo que, claro, eu não sou. Quanto aos demais requisitos, o único no qual me sobressaio, e com folga, é a altura, vantagem que desgraçadamente não pode ser convertida em passagens intercontinetais em classe executiva nem em diárias de hotéis 10 estrelas, atendendo às expectativas da beldade viajeira.

Ju Peng, ou quem quer que tenha se atribuído esse nome no Weibo,  seguia especificando que, no caso das viagens pela China, seus namorados temporários deverão “financiar meu transporte até sua cidade e todas as minhas despesas enquanto eu estiver lá, e eles precisam ser generosos.” Deduzi que a mesma regra vale também para os namorados temporários que pretendam acompanhá-la nas viagens internacionais. Em contrapartida, assegura a viajante, “eles terão toda uma noite comigo, desfrutando de toda a minha atenção, mais a chance de se exibirem na companhia de uma linda garota.”

Pronto, pensei eu. Acaba de ser fundado o puturismo, no qual a pessoa viaja pra lugares bacanas sob o patrocínio de um benfeitor a quem se dedica de corpo e alma durante a viagem – sobretudo de corpo, no caso da caroneira gata de 19 anos. Ju Peng é, pois, a primeira puturista de que se tem notícia, condição que já lhe teria valido conhecer todo o leste da China desfrutando do bom e do melhor em cada lugar e se deslocando sempre com todo conforto.

Choveram protestos vindos de toda parte na China, acusando a mocinha de ser uma réles prostituta. Num post no Weibo a gracinha se defendeu: “É como pedir carona. Não há nada de vergonhoso nisso.” Também acho. O mesmo achou o filho de um amigo ricaço, jovem, sarado e também ele cheio da grana, do jeitinho que a Ju Peng gosta. O Murilinho, vamos chamá-lo assim, se encantou tanto com as fotos da trêfega Ju Peng, publicadas na imprensa, que disparou uma série de tuítes convidando a puturistinha pra vir ao Brasil, de classe executiva, com todas as despesas pagas, para um tour pelas melhores praias brasileiras e pela a Amazônia. Jactancioso como só ele, o guapo Murilinho me disse num bar que frequentamos: “Vou dar um gás nessa chinesinha tão bem dado que ela vai arregalar aqueles olhinhos puxados dela.”

Menos mal, pensei. Pelo menos alguém que eu conheço vai dar uma puturistada com aquela tetéia total, e não vai me negar os detalhes mais luxuriantes da sua aventura puturística. Eis, no entanto, que eu acabo de cruzar com o Murilinho tomando sua breja sozinho naquele mesmo bar aqui de São Paulo. “Ué?”, eu disse pra ele. “Cadê a Ju Peng? Não veio? Ou já veio e já voltou?”

Murilinho, de cara amarrada, apenas puxou seu smatphone, entrou na internet, localizou um site e nele uma notícia, que me fez ler: “Ju Peng, a bela chinesa que oferecia sexo em troca de hospedagem e translado de alto luxo, não passa de uma pegadinha criada pela Shanghai Zhangyi Network Technology Co. para promover um aplicativo de encontros semelhante ao Tinder.”

Tudo que me ocorreu dizer ao filho do meu amigo foi um singelo “Fodeu.” Mas logo me corrigi: “Ou melhor, não fodeu.” E dei risada. Murilinho, porém, se manteve sério. Notei nele até umas olheiras de rolha queimada e um ar geral de abatimento. Depois de matar a cerveja do seu copo, o garotão me confessou: “A merda, cara, é que eu estou perdidamente apaixonado pela Ju Peng, mesmo sabendo agora que ela não existe. Não durmo direito, não como direito, não trabalho nem faço mais ginástica. Nem trepo mais com ninguém. Só bebo e penso na Ju Peng o dia inteiro, a noite inteira.”

Fiz cara de tartaruga desentendida e ele explicou: “Acontece que eu me apaixonei pela garota da foto. Parto amanhã pra Xangai. E não sossego enquanto não encontrar aquela figurinha e cair na primeira cama com ela. Depois vamos conhecer os melhores hotéis do mundo inteiro. E só vou chamar a gata de Ju Peng, mesmo que tenha que gastar toda a minha futura herança.”

Desejei-lhe boa sorte, larguei o rapaz entregue à sua fossa romântica virtual, e fui sentar noutra mesa com meus amigos pensando que, se Marco Polo se deu tão bem na China, no século 13, descobrindo a famosa Rota da Seda, não é de todo impossível que o Murilinho descubra por lá, em pleno século 21, a Rota do Sexo. Afinal, se quem tem boca vai a Roma, quem tem grana e um pau animadão, como o filho do meu amigo milionário, arranja fácil uma bela puturistinha pra ir com ele a qualquer lugar. Ju Peng, minha filha, você pode nem existir ainda, mas vai se dar bem quando encontrar o Murilinho. Ô, se vai.