OS SOBREVIVENTES

Eles escaparam com vida de grandes acidentes aéreos e, até hoje, não conseguiram esquecer a tragédia. Conheça os dramas, os traumas e os conflitos de quem ficou para contar a história

 

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George estava cansado naquela noite de domingo, mas feliz. Ele e o pai haviam passado o fim de semana na cidade de Reno, no estado de Nevada, onde aproveitaram para esquiar, divertir-se nos cassinos e, principalmente, assistir ao Super Bowl, a grande final do campeonato de futebol americano, com vitória do San Francisco 49ers sobre o Miami Dolphins por 38 a 16. Felizmente, pensou George, o voo Galaxy 203, que os levaria de volta a Mineápolis, estava no horário e ele poderia descansar. Era quase uma da manhã, à 00h59 exatamente, quando a aeronave, um Lockheed L-188 Electra, decolou, com 71 pessoas a bordo. Sentado na primeira fileira, com seu pai à direita, George relaxou – mas por pouco tempo. Um minuto depois, começaram as turbulências e, em seguida, o aviso, pelos autofalantes: “estamos caindo”, confirmou o piloto. Instintivamente, George, de 17 anos, recolheu-se na poltrona. “Preciso cobrir meu corpo o máximo que puder”, pensou. Foram questões de segundos até que, às 1h04 de segunda-feira, 21 de janeiro de 1985, o avião espatifou-se no solo, partindo-se exatamente em frente à fileira onde estavam George e seu pai. Instantes depois veio a explosão, mas o que poderia ser fatal para o jovem acabou salvando-lhe a vida: antes que o fogo pudesse atingí-lo, George foi arremessado para fora da aeronave, ainda preso ao assento do avião, vindo a cair em meio a uma rodovia. Consciente, ele desatou o cinto de segurança e correu para longe, escapando de uma segunda explosão. Seu pai e outro passageiro chegaram a ser levados com vida para o hospital, mas não resistiram aos ferimentos e morreram, assim como as outras 68 pessoas que estavam a bordo.

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George, logo após o acidente (1985) e hoje

“Não acredito em episódios aleatórios. Sei que vou de encontro aos cientistas nesse ponto, mas acredito que minha vida tenha sido poupada por alguma razão” – George Lamson Jr , único sobrevivente do galaxy 203 (foto), que caiu em 1985, nos Estados unidos, matando 70 pessoas

“Não acredito em episódios aleatórios. Sei que vou de encontro aos cientistas nesse ponto, mas acredito que minha vida tenha sido poupada por alguma razão”, diz George. Aos 47 anos, pai de uma adolescente e funcionário de um cassino, ele ainda remói as lembranças daquela madrugada. Seu perfil no Facebook é público e exclusivamente voltado ao tema de sua sobrevivência. Gente do mundo inteiro – sobretudo curiosos e pessoas com mensagens de conforto – costumam aparecer por ali para trocar mensagens e discutir as possíveis razões do “milagre”. Mas a questão principal, para George, tem sido outra: lidar com o fardo. “Existe uma cobrança. As pessoas parecem esperar algo especial de você, pelo fato de ter escapado com vida. E isso é irreal”, diz George. Ele é um dos retratados no documentário Sole survivor, da diretora americana Ky Dickens, ela mesma uma sobrevivente, mas de um acidente de carro. “Perdi um amigo que, ao entrar no carro, trocou de lugar comigo. Durante muitos anos convivi com a ideia de que era para eu ter morrido, e não ele”, diz Ky à Status. O episódio pessoal e a curiosidade em torno do tema acabaram levando-a a querer entrevistar pessoas que escaparam de grandes quedas de avião. Dos oito contatados por ela, quatro aceitaram falar sobre o assunto, um deles George. Os outros quatro, segundo Ky, disseram não estar preparados para reviver o tema, inclusive porque mantinham sua história com muita discrição. “Muitos dos sobreviventes com quem conversei não queriam chamar atenção para aqueles episódios como algo a ser comemorado. Ao contrário: para eles, aquele foi o pior momento de suas vidas”, diz Ky.

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O voo 5191 da Comair iria de Lexington a Atlanta (EUA) e deixou 49 mortos

“Até hoje guardo um jornal da época, com os rostos e perfis de cada um que morreu naquele acidente”– James Polehinke , copiloto que escapou do acidente da Comair, em 2006

Se o passageiro que sai ileso de um acidente aéreo de grandes proporções tende a carregar um sentimento de culpa por toda a vida, imagine para alguém que estava no comando da aeronave? Em 2006, o copiloto americano James Polehinke foi escalado de última hora para o voo 5191 da Comair, que faria o trecho entre Lexington (Kentucky) e Atlanta. O avião, um Bombardier Canadair 100ER, mal conseguiu decolar, caindo a cerca de 1 Km do aeroporto com 50 pessoas a bordo. Todos morreram na hora, exceto James, que foi encontrado pelos bombeiros com diversos ferimentos, como ossos quebrados por todo o corpo e sangrando bastante – mas, ainda assim, com vida. James só foi salvo porque os policiais, que chegaram ao local antes dos bombeiros, decidiram não esperar a chegada da ambulância e levaram-no para o hospital na própria SUV. James estava ainda se recuperando dos ferimentos quando veio a notícia que o deixaria ainda mais abalado: segundo as investigações, o avião havia caído por falha humana. Tanto o piloto, Jeffrey Clay, quanto James não perceberam (e a torre também não viu), mas ambos haviam encaminhado a aeronave para uma pista de decolagem errada, mais curta. “Até hoje guardo um jornal da época, com os rostos e perfis de cada um que morreu naquele acidente. Todos eles estavam sob minha responsabilidade. Talvez um dia eu possa me perdoar”, diz James, que se aposentou logo após a tragédia. Entre os diversos depoimentos colhidos por Ky Dickens para o documentário, um dos mais tocantes é o da esposa de Clay, o piloto morto no acidente: “tenho certeza de que, se ele tivesse sobrevivido, teria se suicidado”.

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Para quem procura uma explicação na estatística, ou seja, naquilo que há de comum envolvendo as pessoas que sobreviveram a um acidente de grandes magnitudes, uma má notícia: não há nenhuma pesquisa conclusiva sobre o assunto. Claro, existem os critérios de segurança, como manter o cinto afivelado (uma forte turbulência pode ser tão fatal quanto uma queda) e saber usar a saída de emergência, mas não há algo em comum entre os casos de George e James, por exemplo. Alguns especialistas sugerem que o melhor é sentar-se na parte traseira da aeronave, pois o “bico” é a primeira parte a tocar o solo na queda, mas George estava sentado à frente (justamente na primeira fileira), assim como James, no cockpit. “Depois de todas as entrevistas e pesquisas exaustivas sobre o assunto, para mim, não há outra explicação para esses eventos senão o acaso”, diz Ky Dickens. “Mas é claro, para quem passou pela experiência, é praticamente impossível considerá-la um fato banal”. É o caso de Cecelia Chican. Em 1987, a menina de apenas 4 anos de idade viajava ao lado do pai, da mãe e do irmão mais velho quando o avião, que fazia o trecho entre as cidades de Detroit e Phoenix, nos Estados Unidos, caiu logo depois de decolar, com 149 pessoas a bordo. A pequena Cecelia foi a única sobrevivente. Especialista em terapia artística, ela até hoje mantém contato com John, o bombeiro que ouviu um gemido e encontrou a menina, entre destroços e debaixo de uma poltrona. “Não me lembro de nada do que aconteceu. John é o elo que tenho com aquele dia, ele sabe de coisas que eu não vi”, diz ela, que tem cicatrizes por todo o corpo, resultado das queimaduras.

No fundo do oceano

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“Não gosto de usar a expressão ‘milagre’. Acho que ela foi salva porque assim estava escrito. A hora dela não tinha chegado”, diz Kassim Bakhari. Ele é pai de Bahia Bakhari, que em junho de 2009 sobreviveu à queda de um Airbus A310 no Oceano Índico. A aeronave, que havia saído de Sanaa, capital do Yemen, com destino às Ilhas Comores, caiu no mar cerca de quatro horas depois de decolar, matando 152 pessoas – inclusive a mãe de Bahia, que viajava a seu lado. A menina, então com 12 anos, foi encontrada por pescadores, agarrada aos destroços, depois de 13 horas flutuando no mar. No documentário, ela conta que chegou a ouvir mulheres chorando e pensou: ninguém vai me encontrar aqui. E resume o sentimento de um sobrevivente solitário: “As pessoas acham que quem escapa da morte da forma como escapei precisa fazer grandes coisas na vida. Mas sou nova, não penso nisso. É muita pressão”.

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A pequena Cecelia, de 4 anos, foi encontrada debaixo de um assento. Ela perdeu os pais e o irmão

 

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