VLADIMIR BRICHTA

Lançando três filmes este ano e prestes a se despedir do machista Armane, do seriado Tapas & Beijos, o ator diz que vivemos uma onda conservadora e contesta a fama internacional do Brasil como um país acolhedor: “Somos bastante egoístas”

 

Por Pedro Henrique França, do Rio de Janeiro

 

STATUS 48 - ENTREVISTA

Vladimir Brichta está prestes a dizer tchau para Armane. Foram cinco anos na pele desse malandro e também amante de Fernanda Torres em Tapas & beijos, seriado de humor da Globo, previsto para sair do ar até setembro. Armane é um machista salvo pelo humor, diz ele, “porque na verdade ele é um canalha”. Mineiro de nascença e baiano de coração, Vladimir reconhece que temos muitos Armanes ainda espalhados pela sociedade.

O machismo não é o único preconceito arraigado, aliás. “Ainda somos classistas, racistas e homofóbicos”, dispara. Para Vladimir, o ponto final de Tapas & beijos chega no momento certo. “Pra fechar bem esse ciclo precisamos terminar por aqui”. Enquanto fazia alguns milhões de espectadores rirem com os valores questionáveis de Armane, ele mergulhou de cabeça no cinema, buscando personagens que o levassem para outros gêneros. O resultado são três filmes que estreiam esse ano: Real beleza, de Jorge Furtado, em que volta a contracenar, após dez anos, com sua mulher, a atriz Adriana Esteves; Um homem só, de Claudia Jouvin, e Muitos homens num só, ambos de Mini Kerti. Vladimir tem gostado disso. “Tem um tesão no primeiro longa do qual achei muito gostoso de ter participado. A paixão está ali por inteiro”, comenta. Premiado com dez estatuetas no festival de cinema de Pernambuco, incluindo de melhor ator, Muitos homens num só estreia dia 25 de junho nos cinemas. Surfista desde os 11 anos de idade, ele quer ainda entrar em várias ondas, de mar e de gêneros. “Gosto mesmo de me provocar”.

O filme Muitos homens num só fala de um trapaceiro real, que forjava ser vários homens. Você já se viu sendo muitos em um só?
– O ator tem um pouco dessa esquizofrenia. Você querer uma simbiose com aquele personagem que vai interpretar tem uma coisa quase patológica. Esse cara fazia se passar por outras pessoas. E isso provoca até um conflito de identidade nele. Tem hora que ele se questiona, “sou muitos mas não sou nenhum”. Por ser ator, sempre busquei essa chave de separar a pessoa do personagem. Mas me lembro de um depoimento do Murilo Benício em que ele dizia que vivia tanto um personagem que ele não sabia como ele, Murilo, andava. Fiquei meio surpreso, mas depois entendi.

– Além desse filme, você tem mais dois longas para lançar, ambos já rodados há algum tempo. Muitos homens num só, que estreia este mês, foi lançado em festival há pouco mais de um ano. Essa engrenagem do cinema ainda é muito difícil?
– Antigamente era muito difícil filmar, porque era caro. Hoje, com a tecnologia, se tornou mais fácil. Você pode fazer um filme com uma máquina fotográfica, um telefone. Ao mesmo tempo ficou mais difícil exibir, porque não há espaço para todos os filmes. O problema hoje não é filmar e lançar, mas exibir. Está difícil isso.

– Os blockbusters ainda ocupam muitas salas de cinema. A medida da Ancine, de limitar a ocupação das salas por uma única produção, é efetiva?
– Sou a favor. Não porque esses filmes sejam criminosos, mas é uma forma de fazer com que a indústria exista e tenha seu lucro, mas que ela não seja tão voraz. Essa medida, como em toda sociedade capitalista, vai ser um calcanhar de Aquiles. Mas o Estado, que viabiliza esse produto, tem de proteger o patrimônio nacional. E a relação do público com o cinema nacional evoluiu muito. É um cinema que ainda engatinha, não gera tanto lucro, mas já tem uma relação de público mais interessante.

– Estamos em que momento do cinema?
– Teve a coisa maravilhosa das comédias, que deu uma limitada no blockbuster americano. São comédias com atores conhecidos da TV, com uma linguagem mais simples, mas isso não empobrece o cinema nacional. O que precisa ter é espaço para os filmes de médio e pequeno porte. Talvez o dono de uma sala não tenha responsabilidade sobre o filme que não seja comercial. No entanto, existe a necessidade de fomentar esse cinema independente brasileiro. Adoro a comédia, mas precisamos ter um cinema plural. É preciso discutir, e, nesse caso, interceder para a gente não voltar à época em que se tinha ojeriza ao cinema nacional.

– Depois de cinco anos, Tapas & beijos sairá do ar. Como é terminar um trabalho depois de tanto tempo?
– O programa é muito bom e o convívio é muito agradável. Mas o programa realmente fecha um ciclo. No Tapas, temos uma temática muito mais restrita do que tinha, por exemplo, A grande família.O nosso programa gira em torno dos encontros e desencontros daqueles casais. Então se esgota mais rápido. Depois de cinco anos, a gente percebe que está se esgotando. E para fechar bem a gente precisa terminar por aqui. Se fosse um filho a gente deixava ir andando, mas, como não é, a gente deixa na memória.

– Que tipo de homem o Armane representa?
– O Armane é salvo pelo humor. Porque, na verdade, ele é um canalha. Ele é extremamente egoísta, machista, sexista, mas que tem humor para rir disso tudo. E, de fato, é afetuoso. Isso faz com que ele seja querido. Mas ele, na vida real, não prestaria, não.

– O Armane é de fato um arquétipo do machista. Você acredita que ainda vivemos em uma sociedade com muitos Armanes?
– Ah, vivemos! Nosso País é muito grande e ainda existe muita coisa arraigada. Não só em relação ao machismo, mas a vários tipos de preconceito. Ainda somos classistas, racistas, homofóbicos. A sociedade ainda tem bastante desses traços. Tem evoluído, mas a gente percebe o preconceito o tempo inteiro. Minha filha mesmo vira e mexe vem falar que alguém ainda faz piada na classe com nordestino. E numa escola excelente, onde se discute integração e diferenças. Existe uma saída, mas ainda existe muita intolerância. Mais alguns séculos e a gente se livra de uma meia dúzia de preconceitos.

– A principal novela da Globo, Babilônia, mudou abruptamente seu enredo por conta de uma queda vertiginosa de audiência. E os núcleos mais afetados foram os mais polêmicos: a ninfomaníaca, o casal de senhoras lésbicas, a prostituição. É, para você, resultado de uma onda conservadora?
– Não acho que a rejeição à novela tenha vindo por questões propriamente ligadas a essa onda. Acho que teve uma coincidência infeliz com aquela ideia de boicote à novela. Mas, sim, vivemos uma onda conservadora. O que não quer dizer que estejamos retrocedendo. O que vemos é uma reação ao direito e às liberdades que estão sendo adquiridas. E aí as partes mais conservadoras da sociedade reagem para se afirmar, de um jeito muito primitivo do indivíduo: negando o próximo. Se a gente quer que a sociedade amadureça, temos de ouvir os vários lados.

– E você acha que essa sociedade mais conservadora se reflete também na política?
– Eu acho tudo muito supervalorizado. A sociedade brasileira é adolescente quando se discute política, porque vivemos um longo período em que não se podia discutir. Agora, que as pessoas podem falar abertamente, elas se agridem da forma mais juvenil e falam barbaridades que são extremamente violentas ao bom senso.

– Você já contou uma história em que você colocou um nariz de palhaço no trânsito quando um cara buzinou insistentemente para você. Uma questão hoje é a raiva que se vê nas ruas e na internet. Você e a Adriana, como pais, conversam sobre esse mundo onde seus filhos estão crescendo? Isso preocupa vocês?
– Ainda tenho o nariz, mas não tenho mais coragem de usar, não. Nos preocupamos, sim, em relação a tudo. Mas, em relação à educação, blindar é sempre a pior saída. Discutir e esclarecer o mundo em que eles estão crescendo é a coisa mais acertada. Eles vão ter a opção de se conformar, de fazer escolhas para mudar, se decepcionar, de pensar numa vida alternativa no meio do mato ou em outro país, de enveredar para a política… A gente vive esse momento e é muito interessante esse debate dentro de casa mesmo.

– O escritor João Paulo Cuenca escreveu um artigo na Folha de S.Paulo defendendo que artistas se posicionem sobre as drogas. Você concorda?
– Acho essa questão de formador de opinião delicadíssima. Eu, que sou bacharel em interpretação teatral, vou me arvorar a falar sobre medicina, direito? Tenho muito pudor em opinar sobre assuntos que não domino. Quem quiser se manifestar, tem esse direito. Mas quando foi diferente? A gente sabia de artistas que usavam [drogas] quando eles eram pegos. Talvez as pessoas se manifestassem mais na década de 80, quando vivemos um desbunde meio retardado. A droga era uma atitude quase política. Hoje em dia, não.

– Esses assuntos, como sexo e drogas, são liberados entre seus filhos?
– Sim, sem dúvida, tudo isso é discutido. É óbvio que o contato com essas coisas faz parte da descoberta e da formação da individualidade deles, seja daquilo que faz parte da intimidade deles ou com o que é proibido. O espaço que a gente ocupa nesse diálogo é limitado. Não adianta chegar e dar uma de melhor amigo e apresentar esses universos. Nosso papel é esclarecer os perigos, as vantagens e desvantagens, com a droga e com o sexo.

– Você surfa há bastante tempo. Como você vê esse momento do surf nacional, com Gabriel Medina, Mineirinho, Filipinho?
– Muito legal. É encantador esse momento. Eu surfo desde os 11 anos, sou apaixonado pelo esporte, acompanhei sempre todos os campeonatos. Hoje te confesso que tenho mais paixão e prazer de acompanhar o surf do que o futebol – talvez porque, por limitações físicas, hoje eu só possa surfar e não mais jogar bola.

– Ano que vem o Rio de Janeiro será sede das Olimpíadas. Qual sua expectativa com relação aos Jogos?
– Acho que já temos know-how, recebemos a Copa do Mundo e o Pan-Americano. O que pega a gente não é a capacidade de fazer, mas a desonestidade. Estamos sempre à espreita de um novo escândalo, uma nova obra que não vai ficar pronta a tempo a não ser pagando mais uma grana absurda. Estamos mais organizados. Mas por outro lado nunca fomos honestos suficiente para ter orgulho. E acho também que a gente já foi muito mais caloroso. A ideia do brasileiro como um povo acolhedor virou um folclore. É só você ver como as pessoas dirigem hoje nas ruas, como são agressivas. Hoje em dia somos um País bastante egoísta. Nos tornamos mais capazes, mas estamos mais desinteressantes.

– O Rio voltou a ter a violência como manchete dos jornais, especialmente pela participação crescente de menores. Com isso, voltou-se a discutir a redução da maioridade penal. Qual sua opinião sobre essa proposta?
– Um equívoco. Não consigo imaginar que um jovem deixará de cometer um crime porque a pena dele vai ser diferente. Tanto é assim que muito adulto comete o crime, vai para a prisão e quando sai continua cometendo o mesmo crime. O investimento deveria ser em educar a sociedade, policiar e dar suporte. É óbvio que você ver um menor cometer um crime e não pagar por aquilo dá uma sensação de impunidade, mas existem formas legais de você fazer as pessoas pagarem por isso não necessariamente mexendo na maioridade penal.

– Em Real beleza, um dos filmes que está para lançar, do Jorge Furtado, você volta a contracenar com a Adriana Esteves, dez anos depois de terem contracenado juntos e terem começado um relacionamento. Como foi voltar a atuar juntos?
– A gente tinha uma expectativa de como seria, se a gente se ajudaria ou se atrapalharia, se teria química. Passaram-se mais de dez anos desde que fizemos a novela Kubanacan, começamos a namorar e casamos. E não tínhamos mais trabalhado juntos desde então. Eu gostei muito. A Adriana é uma grande atriz, das maiores. Ela tem um compromisso com o atuar que é comovente. Não é difícil trabalhar com quem você tem grande admiração, mas como faz se você está casado e tem tanta intimidade? Tem que achar um código e a gente combinou que a gente não diria um para o outro o que faria. Nosso processo criativo seria individual, como se fôssemos colegas de trabalho. Acho que deu certo. Fomos felizes.

– Nesse filme, o personagem de Francisco Cuoco divaga sobre a beleza quando diz que “a beleza passa, o conhecimento fica”. E o seu personagem questiona isso. Qual análise que você faz sobre a beleza?
– O valor estético não é tão descartável. Tanto é assim que muita coisa do que é belo na história da humanidade está lá nos museus, para a gente admirar. Por outro lado, essa crítica do filme é porque vivemos numa sociedade de consumo que se alimenta da imagem. Mas beleza é um conceito bem mais amplo que uma jovem de 18 anos de idade. A beleza não é matemática. E nem está na proporção perfeita. Todos nós podemos enxergar a beleza em coisas diferentes.

– Em algum momento da carreira a pecha do galã te seduziu ou te incomodou?
– Não. Eu rapidamente saí do galã romântico para o galã cômico. O que surgiu num dado momento foi uma preocupação com o estigma do humor. Quando fomos gravar A coleção invisível, o Walmor Chagas me falou: “Isso é um desafio, diferente do que você está acostumado a fazer”. E ele tinha razão. É como as pessoas acabam te enxergando. Até hoje tem isso: vou abastecer o carro, os caras chegam rindo. Mas isso não me preocupou tanto assim, porque os convites sempre foram abrangentes. E eu, particularmente, gosto de me provocar. Gosto de fazer tudo.

– Você completa 40 anos ano que vem, numa época em que a noção de longevidade jogou um pouco mais para frente o status de ser velho. Os 40, nesse sentido, ainda pesa ou eles são mesmo os novos 30?
– Ainda não sinto a idade como algo emblemático. A minha relação com o tempo ocorre a partir das limitações físicas, de deixar de fazer coisas que eu conseguia fazer. Aí eu sinto o tempo. Não sei se planejava estar assim ou assado aos 40. Acho que eu almejava mais as coisas aos 20. Aos 40 não planejo, não. De fato, hoje as pessoas vivem mais tempo e com mais qualidade e isso muda a relação com a idade. Talvez a gente passe a sentir a idade aos 50, 60.