A DISCRETA FORÇA DE ED SOARES

Ele age nos bastidores, é desconhecido do grande público e se tornou um dos empresários mais influentes do MMA. Conheça o americano, descendente de brasileiros, que toma conta das carreiras de Anderson Silva, Lyoto Machida e outros gigantes do octógono

 

Por JR. Bellé
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Anderson Silva estava atônito e não parava de falar. “O quê? Como assim? Não, eu não tomei nada. Deixa eu falar, não tomei nada disso. Absolutamente nada disso. O que eu tomei foi injeção, anti-inflamatório. Não, cara, porra, estou falando que não. Está maluco, bicho? Tomei Dexalgin três dias. Foi a única coisa que tomei”, bradava o ex- campeão, surpreso, quando recebeu a ligação que o informava da suspeita de doping após vencer Nick Diaz no seu retorno ao octógono, em fevereiro. Inconformado, repetia. “Eu não tomei, cara, tomei anti-inflamatório. Liga para a Daiane (esposa de Anderson) e pede para ela te dar os negócios que tomei”. Aquela era a primeira vez que Spider falava sobre o assunto e a primeira pessoa a escutar sua versão foi um dos homens mais influentes do mundo da luta. Seu nome? Ed Soares. Para quem não o conhece, vamos às apresentações: filho de brasileiros, nascido na Califórnia, foi ele quem levou os combates de MMA para a televisão aberta dos EUA antes mesmo do próprio UFC. Ed não é designer ou estilista, mas desenhou e fabricou os uniformes dos primeiros 11 eventos do Ultimate. Ao lado de Jorge Guimarães – o Joinha –, é hoje um dos sócios do grupo Tough Media, que gerencia as carreiras de um número extraordinário de lutadores de elite. Além de Spider, estão em seu casting Lyoto Machida, os irmãos Nogueira, Brian Ortega, Glover Teixeira, James Moontasri, Kevin Kasey, Pedro Munhoz, Rafael Cavalcante e William Macario.

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Ed Soares conseguiu brilhar no UFC porque também mantém uma estreita relação com os donos da marca

Uma das primeiras estrelas contratadas pela Tough Media foi Lyoto Machida. “Comecei a trabalhar com o Ed e o Joinha quando eu participava do WFA, um torneio que só teve duas edições e então foi comprado pelo UFC”, diz Machida, que faz sua memória voltar uma década, quando sua carreira encontrava-se num limbo: “Na época eu estava sem contrato e precisando lutar, não pensei duas vezes quando o Joinha me ligou e fez a proposta”. The Dragon, como Lyoto ficou conhecido ao conquistar o cinturão dos meio-pesados do UFC três anos depois de ingressar na Tough Media, ainda segue como um de seus principais atletas. Machida credita muito da força do MMA brasileiro dentro do UFC à atuação de Ed desde os primórdios do evento, quando ele era apenas o patrocinador do lendário Chuck Liddell. “O Ed tem um mérito muito grande no sucesso de importantes atletas como Minotauro, eu, Anderson, Minotouro e vários outros lutadores brasileiros de expressão. Ele colocou a gente numa posição forte, a gente tem força dentro do UFC e muito disso é trabalho do Ed, da boa relação que ele tem com os organizadores, e da valorização dele perante a gente”. Além do contrato com a Tough Media, Lyoto tem como ponto de treino fixo a academia Black House, em San Diego. Trata- se de um centro de treinamento construído por Ed e Joinha no depósito da antiga marca de roupas de Ed, a Sinister.

Bombeiro e esquiador

Para chegar ao rol das figuras mais importantes do MMA, Ed tomou rumos inusitados. Filho de imigrantes pobres que deixaram o Brasil por um naco de esperança na suposta terra da liberdade, Ed nasceu em Redondo Beach. “Eu queria ser bombeiro, era meu sonho, mas por um motivo específico: aqui nos Estados Unidos os bombeiros trabalham apenas dez dias por mês”, conta Ed. Não se trata de pura preguiça, ele tinha planos espetaculares para os outros 20 dias, algo que vinha fazendo sua cabeça naqueles últimos anos de adolescência: “Esquiar! Eu adorava esquiar e era bom naquilo, queria estar na montanha o tempo todo. Com 17 anos me tornei instrutor de esqui para crianças”, diz o empresário à Status. Ed trabalhou no ramo por três anos e não demorou muito para começar a competir em provas de velocidade. O esporte deu a ele algum dinheiro, mas também uma frustração crescente, que acabou sendo decisiva para a primeira guinada em seu futuro: “Cada vez mais eu ficava desapontado comigo mesmo, desanimado e frustrado, porque eu tinha nível para competir, mas nunca pra vencer”. E foi justamente depois de seu melhor resultado – um 14° entre 72 competidores – que a frustração alcançou níveis preocupantes. Mais do que estar na montanha, Ed queria estar entre os melhores e isso era algo que o esqui jamais poderia lhe dar. Sem pensar duas vezes, desceu a montanha e abandonou o sonho de ser bombeiro.

Usando com maestria a sedutora lábia e a incansável criatividade em alinhavar contatos, Ed começou a produzir eventos em boates de Los Angeles. De uma hora pra outra, parecia ter finalmente encontrado sua vocação. As festas iam bem e faziam sua fama crescer no mesmo ritmo do público, que enchia mais e mais suas pistas de dança. Além disso, ele logo se viu almoçando com produtores destacados e bandas promissoras, que pouco depois começou a empresariar. Mas, quando Ed estava no auge de sua carreira como produtor, ele pulou fora do show business. “O motivo mais importante foi que minha esposa ficou grávida da nossa primeira filha, que hoje tem 17 anos. Eu não queria mais trabalhar na noite sendo pai de família, achei que não seria bom pra minha vida”. Para sorte de Ed, pouco antes dessa guinada imprevista nos negócios, ele havia começado a treinar jiu-jitsu numa academia de um sujeito chamado Royce Gracie, o primeiro campeão de UFC e herdeiro dos fundadores do torneio.

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Passando a Guarda na vida

O ano era 1998 e Ed investiu toda as suas economias na criação de uma marca de roupas chamada Sinister, cujos cortes eram, em grande medida, criações suas. Ou seja, alguém sem nenhuma formação em design ou moda estava desenhando roupas. Parecia ser a receita do desastre, mas as coisas deram surpreendentemente certo. Na época, Royce já não era apenas seu professor, mas também um amigo, o qual ajudou com a organização de uma série de palestras e seminários ao redor dos EUA a fim de divulgar o jiu-jitsu brasileiro. Como parece natural para Ed, as artes marciais passavam de hobby para paixão, e de paixão para lucrativos empreendimentos. Não demorou muito até a Sinister começar a embrenhar-se no novo ramo e até mesmo a patrocinar lutadores. O primeiro foi o lendário Chuck Liddell (pouco depois ele conquistou a alcunha de The Iceman, por derrubar friamente seus adversários até conquistar o cinturão dos meio-pesados do UFC, o qual defendeu em quatro ocasiões). “Eu desenhei o calção desse cara! Aí comecei a tomar gosto e acompanhá-lo nas competições. Foi numa dessas vezes que por acaso reencontrei o Joinha, o que mudou minha vida”.

Ed e Joinha estavam no Japão pelo mesmo motivo, o Gran Prix do Pride de 2003. Joinha já era um sujeito conhecido e respeitado no circuito das artes marciais, especialmente por conta de seu programa no SporTV, o Passando a Guarda, pioneiro na cobertura do MMA no Brasil. “Fazia um bom tempo que eu não via o Ed. Quando ele chegou perto não o reconheci, mas aí ele começou a falar da mãe dele e na hora me lembrei”, relembra Joinha. Décadas antes, os dois foram vizinhos em Rendondo Beach, quando a esposa de Joinha teve a primeira filha do casal. “A mãe do Ed era uma mulher incrível e super prestativa, ela ajudava a gente a cuidar da Gabriela. Nessa época o Ed era pequeno também”. Mas o filho mirrado daquela boa e conterrânea vizinha havia crescido, bem como suas ambições, que não raramente davam as mãos com alguma sorte do destino, resultando em eventos magníficos. Neste caso, a sorte de Ed aconteceu pelo azar de Joinha, que estava cobrindo o Pride sem um operador de câmera. “Era a primeira etapa do Gran Prix e eu cheguei pro Ed e falei: ‘pô, se você quiser eu te arrumo uma credencial e você me ajuda fazendo as imagens das lutas e as entrevistas’”.

Sem dúvida tratava-se de uma proposta indecente, mas Ed imediatamente aceitou- a, julgando ser uma ótima ideia. Seu plano, por trás da boa vizinhança e da camaradagem, era aprender a manusear aquele tipo de equipamento e depois produzir uns vídeos especiais para o site da Sinister. Durante uma semana, Ed foi o cameraman do Passando a Guarda e o responsável por filmar. Quando Ed e Joinha já se preparavam pra voltar, o primeiro cutucou o segundo e revelou que queria levar o Passando a Guarda para os EUA. “Eu olhei bem pro Ed e falei que tudo bem, que ele podia tentar, mas pra falar a verdade eu não tinha muitas esperanças”. Munido de um VHS contendo um episódio do Passando a Guarda brasileiro, Ed conseguiu uma reunião com uma transmissora de TV local, que cobria o sul da Califórnia e chegava a 5,5 milhões de lares. Diante uma mesa repleta de olhares enviesados e ouvidos incapazes de compreender o português, Ed explicava que gostaria de produzir um programa idêntico àquele, com exceção, evidentemente, do idioma. Tratava-se de uma importação vinda do Brasil, feita por uma pessoa sem qualquer experiência com produção de TV, e que tinha como pauta principal um esporte novo – o MMA – e por isso sem um público exatamente definido. “Foi estranho, pois os caras foram compreensivos e fizeram uma oferta boa: cobrariam mil dólares por episódio. Eu achei um absurdo! Como assim? Eu daria um programa prontinho na mão deles e os caras ainda queriam me cobrar por isso?”, lembra Ed. Não demorou muito, cerca de meia hora para ser mais preciso, até que Ed, já em seu carro, se deu conta que ele comprara um horário na TV, o que incluía, evidentemente, a verba da publicidade.

Por pouco tempo, Ed dividiu os custos entre a Sinister e uma empresa parceira, com quem também dividia os doze spots publicitários do Passing The Guard, que rapidamente mostraram todo seu potencial. Outras marcas, incluindo o UFC e o Pride, queriam os espaços – e pagavam muito bem por isso –, afinal o programa atingiu o segundo lugar de audiência em sua área de exibição, que agora incluía o Havaí. Com transmissão à meia noite do sábado, perdia apenas para o Saturday Nigh Live. Foi então que Ed se aproximou de Dana White e Lorenzo Fertitta, donos do UFC, a mais bem sucedida organização de eventos de MMA do planeta. “Já na segunda temporada do Passing the Guard, o Danna entrou em contato comigo: eu estava colocando o MMA e o UFC na TV aberta antes que ele”. De repente, Ed percebeu que era parte importante de uma das mais rentáveis áreas do evento: “eu filmava os combates, montava uma parte do Passing The Guard com os melhores momentos e exibia quinze dias antes do próximo evento. Isso contribuía muito com a venda de payperview, por isso o Dana ficou de olho”, explica. A audiência adorava, os patrocinadores adoravam, os torneios adoravam e Ed não parava de renovar o contrato com a TV: foram 11 temporadas e 143 semanas no ar.

Novas estrelas

Em 2005, Ed decidiu seguir os passos do amigo e sócio, Joinha, e empresariar atletas. “Eu já fazia isso há algum tempo”, conta Joinha, “fui empresário do Vítor Belfort, entendia do ofício e queria um parceiro. Historicamente, o Ed sempre trouxe bons resultados, então era hora de tentar”. Ed, por sua vez, sentia-se seguro não apenas pela tutela do sócio, mas também por uma aproximação inusitada, que quase inconscientemente ele fazia: “Eu me sentia experiente no ramo de empresariar carreiras, já tinha feito isso com artistas em Los Angeles. Eu pensava que empresariar lutadores era bem parecido com empresariar grupos de hip-hop. Uns têm que vender discos, outros têm que vender payperview. E os dois têm que vender ingressos, colocar gente nos eventos, shows e competições. E não é que eu estava certo!”

Tough Media, Sinister, Passando a Guarda e Black House: as responsabilidades de Ed só faziam somar e já não havia tempo para todas elas. Além de que, algo infinitamente mais impactante havia acontecido em sua vida: o nascimento da segunda filha (e é bom lembrar que a paternidade mexe muito com os ânimos de Ed). “Em 2006 parei de fazer o Passing The Guard e em 2010 vendi a Sinister. Eu não podia fazer todas as coisas bem, não dá para ser bom em tudo, então acabei optando”. O caminho profissional escolhido por Ed – focado no gerenciamento da carreira de lutadores – depende intimamente do crescimento do MMA, que por sua vez depende de seu principal torneio, o UFC, que está convalescente desde o doping de Spider. “Ele voltará em breve, antes do que vocês imaginam. Mas o fato é que o momento do MMA brasileiro é de se reconstruir e investir em ídolos novos”, diz Ed. Para ele, é preciso muito tempo para formar estrelas como Liddell e Randy Couture, como Anderson e Lyoto, como Rodrigo Nogueira e Wanderley Silva – que foram ídolos também no Pride. “Com exceção do José Aldo, os grandes lutadores brasileiros estão na segunda fase da carreira, já passaram do auge e os dias estão ficando mais curtos. Daí a importância de se investir em novos atletas. E o mais rápido possível. Por isso, estou de olhos abertos”.

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Anderson Silva brinca de repórter com Ed Soares, que acabou se tornando seu amigo. Ed foi quem deu a notícia da acusação de doping para Spider