HELOÍSA PÉRISSÉ

Aos 48 anos, a atriz e uma das maiores comediantes do País fala sobre preconceito, religião, casamento e de como, apesar do riso frouxo, acabou abatida por uma depressão e pelo pânico. “Tive uma crise dentro do túnel. Achei que ia morrer ali dentro”

 

Por Carol Marques Fotos Stefano Martini

 

STATUS 49 - ENTREVISTA

Quem abre a porta é uma das cinco ajudantes que ela mantém para dar conta de uma rotina que inclui roteiros, personagens, peças, produções de televisão e cinema, filhas, marido e cães. Feijão, um Buldogue Francês, e Arroz, um  “Chihuahua lata”, também surgem para dar boas-vindas à reportagem de Status, no amplo apartamento debruçado sobre o mar de São Conrado, na zona sul do Rio, onde está provisoriamente instalada até que a reforma da casa fique pronta. Heloísa Périssé chega apressada do supermercado, de short, camiseta, chinelos, nem um pingo de maquiagem e cabelos presos. Naquela manhã, já pagou contas, tomou café com as filhas Luísa, de 15 anos, e Antônia, de 8, e conversou rapidamente com o marido, o diretor Mauro Farias, parceiro na vida e na profissão há 13 anos, com um breve hiato de 9 meses de separação. A atriz só não lê o jornal. Deixou de fazê-lo para não cair na tristeza. Sim, a comediante tem lá seus rompantes. Mas não conseguiu, por exemplo, ficar sem saber do crime que horrorizou a cidade nos últimos meses: o do médico Jaime Gold, 57 anos, esfaqueado durante um assalto na Lagoa Rodrigo de Freitas, por causa de uma bicicleta.

“O que é isso!? O cara (o governo) me tira 27,5% do salário na fonte e se eu quero andar na Lagoa à noite, não posso? Porra, tem que ter uma solução, cacete! Ninguém pensa!”, esbraveja a atriz, cuja fala rápida faz lembrar a adolescente Tati, sua personagem mais famosa e que a levou a estrear na Globo, em 1994, na Escolinha do Professor Raimundo. Aos 48 anos, Lolô, como é chamada, transpira vitalidade, atropela palavras, é curiosa. O riso frouxo, no entanto, não a fez escapar de uma depressão e de um ataque de pânico no meio de um túnel. Procurou ajuda, tomou tarja preta e, sobretudo, rezou a cartilha dos pais. “Lá em casa ninguém maximiza os problemas. Vivemos as soluções”,diz a atriz, que está em cartaz no Rio de Janeiro com o monólogo “E foram quase felizes para sempre”.

Há quanto tempo você não tira férias de verdade?
– Em março, quando acabou a novela Boogie Oogie, tirei dois meses de férias, até porque estava com férias vencidas e eu seria obrigada a sair de cena. Fiquei um período de pernas para o ar, mas não consegui. Comecei a ver a produção da peça para São Paulo, e isso gera uma tensão.

Você não lida bem com o ócio?
– É estranho quando estou de férias, sabe? A princípio, eu disse: vou entrar de férias e, no primeiro dia, vou ficar assim (ela arregala os olhos, fica parada como se estivesse deitada em sua cama), vou acordar e pensar: hoje não tem nada pra fazer. Obviamente, não consegui. Meu motorista tirou férias junto comigo, olha que legal! Eu só tive uma mudança de função. Saí da função de atriz e virei motorista. Sempre arrumo uma coisa para fazer.

Quando você relaxa de verdade?
– Às vezes, consigo estar em casa e assistir Downtown Abbey (seriado britânico), que adoro. Aquilo é tudo! É onde quero chegar em termos de escrita, conseguir fazer um texto com aquela sutileza. Eles falam mal uns dos outros, mas com certo cuidado. É a vida, né? A gente fala mal um do outro o tempo todo.

 Você sempre teve uma autoestima bem trabalhada? De onde vem isso?
– Vem de tudo. Primeiramente de Deus. Às vezes, digo que não vou falar de religião, até porque não é religião, mas Deus. Não me interessa as nomenclaturas. Quando digo Deus, falo de estar conectada ao Criador, onde ali ele tem um plano perfeito para sua vida e você abre esse canal e vai recebendo, doando e vivendo. Enfim, fazendo da sua vida um propósito maior do que só a conquista material, do sucesso. Deus tem um papel fundamental na minha vida.

Desde quando?
– Desde sempre, desde que comecei a me entender como pessoa. Digo isso na análise e minha analista diz que essa força é minha. Mas rebato, porque essa força vem Dele, é por Ele! “Tudo posso naquele que me fortalece”. Medito todo dia sobre a cruz que o ser humano carrega, que não é mais ou menos pesada que a do outro e do que ele possa carregar. Porque eu acredito em um Deus bom.

Como evangélica, como você vê a intolerância em casos como o da novela Babilônia, que acabou eliminando cenas de beijo gay?
– Qualquer tipo de preconceito é abominável, além de ser uma completa manifestação de ignorância. Deus é de todos e pai de todos, é assim que ensino minhas filhas, que são criadas para o mundo e não para viverem na sala da minha casa.

Essa fé imensa vem de onde?
– Agradeço muito à minha mãe. Meu pai era ateu. Mas não morreu ateu. Minha irmã sofreu um acidente de carro aos 14 anos. Ela era bailarina e ficou paraplégica, e isso foi um divisor de águas na vida dela, que casou, teve duas filhas, se formou em direito, mora nos EUA, é advogada de imigração… Venho de uma família que tem, assim, um plus, ninguém chora e se lamenta. Tenho uma família que ouve problemas assim: “Hum, daqui pra onde? Não tem perna, mas tem braço, tem cabeça…”. A gente não maximiza os problemas. Vivemos as soluções.

Como você reage diante de casos como o do médico esfaqueado na Lagoa? (Jaime Gold, de 57 anos, foi morto em um assalto no dia 20 de maio por menores que queriam sua bicicleta e um celular)
– Acho que não dá para a gente se achar impotente. Você tem que acreditar que, no mínimo, é aquele beija-flor que leva a gota para apagar o incêndio na floresta. Covardia me deixa triste. Eu, por exemplo, parei de ler o jornal de manhã. Não aguentava as notícias. Não lido bem com a covardia desse País, a impunidade. O que é isso!? O cara (o governo) me tira 27,5% do salário na fonte, e se eu quero andar na Lagoa à noite, não posso? Que que há? Vamos mudar então a lei, o menor tem que responder por isso. Ok. Agora, de onde vem esse menor? Como é a escola que o Estado ofereceu para esse menor? Não estou defendendo esse jovem, não. Porque esse menor ferra uma família inteira. Ferra uma geração. Acho que existem milhões de menores que também não fazem isso. Mas, e aí? O Estado tem que ter um olhar para quem precisa. Tem que ter uma resposta. Tem que ter alguém que levante uma bandeira real. Vamos pensar em uma forma de refletir a violência. A curto prazo, o que se faz com esse bando de homem enfiado numa cela cheia de testosterona? Porra, tem que ter uma solução, cacete! Ninguém pensa!

Você falou de levantar bandeira, e parece que a classe artística faz cara de paisagem para o que acontece no País. Você iria para as ruas?
– Claro! Se eu acreditasse na causa, iria com certeza. Acho que está tendo um movimento grande agora. Fomos abafados, passamos um período em que falar não era legal, não era de bom tom. Tinha que rezar essa cartilha. Mas, antes de ser atriz, sou uma cidadã e quero o melhor para esse País, porque acho o Brasil absolutamente maravilhoso. Eu viajo muito e sei o quanto tem gente com história bacana para contar. Mas felicidade não dá ibope. Sou super bem recebida aonde vou, faço questão de falar com todo mundo. O povo brasileiro merece rir. Quando alguém que pega um trem às 4h da manhã, rala à beça, cata seu dinheirinho suado, vai ao teatro e, no final, me diz que riu comigo, digo obrigada do fundo do coração por poder transformar um dia a dia tão penoso.

Como isso se aplica no seu dia a dia?
– Ensino uma coisa às minhas filhas: o cara que passa pela porta não é melhor do que aquele que a abre. Um passa, o outro abre. Cada um no seu lugar. Quando o cara abre a porta para você, olhe no olho dele e diga: “obrigada”. Porque ele está te servindo. O garçom bota a comida na mesa, você olha e diz: “obrigada”. A comida está boa, elogie a comida. Isso muda. Sabe por quê? Porque essas pessoas são consideradas invisíveis. Faço questão de cumprimentar todo mundo. Isso muda a energia. O poder não é importante. O importante é ter prestígio. O que mais vale no mundo é ter amigos.

 Você já foi invisível?
– Quando eu era dura igual coco, não tinha dinheiro para ir ao cabeleireiro, fazer uma unha. Mas, só por eu ter uma alegria, por eu ser uma boa energia, as pessoas diziam: “Ah Lolô, vem aqui que faço a tua unha!”. Tinha uma época em que eu era tão dura que, quando ia bem vestida a uma festa, as pessoas já chegavam e falavam: “Roupa bonita. É de quem?”. Porque sabiam que eu não tinha grana pra comprar (risos).

Quando você saiu dessa pindaíba?
– As coisas foram mudando, mas tive um upgrade mesmo quando a Tati (adolescente, um de seus personagens mais famosos) estourou na televisão. Vinha me firmando. Fazia testes e nada. Até que passei em um comercial e tudo mudou, porque aí comecei a ser chamada para fazer direto. E as pessoas vão te chamando. Mas o grande pulo foi com a Tati e a peça Cócegas.

Nessa época você estava casada com o Lug de Paula, seu segundo marido (o primeiro foi o ator André Mattos). Foi nessa época que você ficou viciada em ginástica?
– Era tarada! Fui muito doente. Fazia três horas de exercício por dia. Agora faço Jun (método criado por Jun Igarashi, que está transformando o corpo das globais).  Na segunda-feira fiz aeróbico, na terça fiz exercício de força. Estamos fazendo eu e Luísa, e foi ótimo pra nossa relação.

Como você vê os tempos de barriga chapada, negativa, em gomos?
– A minha está um tanque de roupa suja! Outro dia, no Jô, ele disse: “Lolô, você não vive a ditadura da magreza, né?”.É que televisão engorda mesmo. Muitas pessoas me veem na rua e dizem: “Nossa, como você é mais magra”. Para mim, a ditadura do prazer é maior do que a ditadura da magreza. Gosto de sentar e beber um vinho com meus amigos, de comer. É aí que eu me ferro.

Isso tudo dá uma angústia… Você já teve depressão?
– Sim, mas não por isso. Foi em 1993, por um conjunto de coisas. Me tratei, precisei de remédio tarja preta. Eu relutei. Mas sou prática. Existe uma desordem química no cérebro? Vamos tratar. Há três anos, tive que me tratar de novo. Tive um ataque de pânico dentro do túnel e pensei: “Vou morrer aqui dentro!”. Não dava para dar ré, não dava para sair. Orei e vi a lanterna de uma van e me guiei por ela para sair dali. Tiveram que ir me buscar, fui para o hospital. Só quem tem essa sensação sabe como é. Fiz tratamento com homeopatia e agora acho que estou curada. Mas sou muito atenta. A gente cria um grau de consciência. Primeiro vem o leão que sai da moita e vem te pegar. Depois, você entende o que está acontecendo.

E como lidou com sua separação do Mauro?
– Foi um período muito difícil para mim, mas também uma fase de colocar as coisas à prova. O mundo é um paradoxo, achar o meio termo disso é uma arte. Sem enlouquecer, então… Às vezes, quando você pensa que vai ser o seu fim, é o seu começo. Aí está a graça das coisas. A gente tinha oito anos de casados. E pensei, chegou ao fim da linha e, agora que acabou, estou pronta para outro relacionamento. Mas foi um outro relacionamento com o Mauro! Não cheguei a namorar ninguém nesse período. Nove meses e você ainda está muito machucada, saí muito, me diverti muito, mas também não queria me expor, expor minhas filhas a isso. E não era um fim, a gente vivia se falando. Foi a tentativa de um fim.

Você foi muito namoradeira?
– Fui, mas sempre tive relacionamentos longos. Sou muito casadoira. Sou do tipo que separa de um e já estou com outro. Entre o Lug e o Mauro, namorei o Memê (DJ) e logo depois conheci o Mauro. Bato o olho e digo: é ele. É como se fosse uma coisa pré-organizada para acontecer.

– Você disse que a Letícia, sua personagem na peça E foram quase felizes para sempre te devolveu uma coisa mulherzinha. Onde reside essa mulherzinha hoje em dia?
– Ah, eu adoro cuidar da minha casa, organizar tudo, servir, tem o dia da passadeira, aí fica tudo cheiroso. Sou muito ligada a cheiros, gosto de uma casa bem arrumada. Mas costumo dizer que sou mais masculina no pensamento. A Tonton (a filha Antônia) outro dia disse: “A mamãe é o papai e o papai é a mamãe” (risos).

Heloisa é de sofrer por amor?
– Heloisa é intensa, é emoção, é leonina. Fala, discute, luta pelo que quer… Sofrer por amor faz parte disso tudo, é orgânico e visceral, mas não curto um quarto escuro com música mela-cueca e chuvinha lá fora. Não chamo o sofrimento para mim. Sou solar, corro para a rua, vou ver gente, vou dar risada de qualquer coisa, vou me ocupar de uma obrinha que seja (risos). Não me dou o direito de curtir sofrimento porque sou muito agradecida pelo que tenho, pelo que construí, pela minha saúde e pelas minhas meninas.