MULHER MARAVILHA

Médica especializada em emergência em áreas remotas, multiesportista e apresentadora de TV, Karina Oliani encara com frieza situações extremas. Ela já mergulhou com orcas, foi a mais jovem brasileira a subir o Everest e, recentemente, esteve no Nepal para ajudar as vítimas do terremoto

 

STATUS 49 - SANGUE FRIO

A temperatura média da água, do Atlântico Norte era de 1º C. Vestidos com roupas secas (trajes de mergulho que isolam totalmente do contato com o mar), máscaras e snorkels, a médica brasileira Karina Oliani, 33 anos, e o mergulhador islandês Erlendur Bogason, 56, avistaram mais de cem baleias orca e nadaram ao encontro delas.

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Karina se prepara para mergulhar com mais de 100 orcas, sem saber se viraria o almoço dos superpredadores

Sem saber, eles se tornaram as primeiras pessoas em em Grundartfjorthur, uma pequena vila litorânea na Islândia e um dos lugares mais frios do mundo, a mergulhar ao lado de um grande grupo dessas baleias selvagens. A dupla contava com o apoio de uma equipe de resgate islandesa que, entre ansiosa e apreensiva, não fazia ideia de como as baleias iriam reagir. No pior dos cenários, a dupla podia ser comida viva pelos superpredadores de até 9 toneladas. “Elas não têm nada de assassinas, são animais magníficos que, como nós, também são predadores e precisam se alimentar”, diz Karina, depois da aventura bem sucedida. “Foi a experiência mais incrível da minha vida e precisou que uma mulher brasileira viesse até aqui para me levar com ela para a água em meio a esse enorme grupo de baleias selvagens”, encantou-se Erlendur.

O episódio é somente mais um na agitada vida da médica e apresentadora paulistana que, desde pequena, tem fascínio por atividades nada convencionais. Aos 12 anos, Karina fez seu primeiro salto de paraquedas (duplo) e concluiu seu curso de mergulho autônomo. Aos 17 já era bicampeã brasileira de wakeboard e recordista em apneia. Atualmente, ela pratica diversos esportes, como montanhismo, escalada em rocha, motocross, canoagem, snowboard, surf, paraquedismo, corrida de aventura, hipismo, stand- up paddle, mountain bike downhill, jiu-jitsu, esqui aquático, asa-delta e sandboard. Ufa! Mas ainda não acabou. É melhor tomar fôlego para a apresentação completa da multiesportista, patrocinada pelas marcas Mitsubishi Motorsports, Emana e The North Face: brasileira mais jovem a conquistar o topo do monte Everest (aos 31 anos), médica especializada em medicina e resgate de áreas remotas, membro da Wilderness Medical Society (entidade americana dedicada à saúde em ambientes selvagens), piloto de helicóptero, instrutora de mergulho, salva-vidas, bailarina, modelo e apresentadora do programa “Missão Extrema com Karina Oliani”, que o canal pago Discovery apresenta aos domingos (ela também já trabalhou em programas de esportes de aventura no Sportv, TV Record, Multishow, Globo e OFF).

Karina ainda dedica parte de seu tempo à ONG The Cure Blindness (cureblindness.org), praticando medicina de responsabilidade social e operando gratuitamente portadores de catarata na África, nos Himalaias e em outras regiões do mundo. “Sempre amei desafios e, conforme eu crescia, eles cresciam junto comigo. Meus pais contam que desde pequena eu já mostrava esse meu lado aventureiro de ser. Enquanto minhas irmãs brincavam dentro da casinha de bonecas, eu ficava do lado de fora, escalando a casinha! Parece loucura, mas eu amo me sentir desafiada, é o que me motiva”, diz ela. “Minha paixão por aventura fez com que eu, aos 19 anos, começasse a me dedicar à escalada em rocha e, na sequência, veio a admiração pela alta montanha. Percebi que era mais que apenas um esporte, era um estilo de vida. E que exigiria mais do que preparo físico, era preciso escalar bem em gelo, rocha, saber todas as técnicas de cordas, nós, segurança, e, principalmente, ter um psicológico forte pra enfrentar a falta de ar, de conforto e as condições mais extremas do planeta”.

Olho congelado

O grande desafio da vida de Karina é completar a escalada das sete maiores montanhas do planeta, quatro delas já alcançadas: Elbrus (5.642 metros de altitude), na Rússia, Aconcágua (6.962 m), na Argentina, Kilimanjaro (5.895 m), na Tanzânia, e Everest (8.848 m), na fronteira entre China e Nepal. Ainda faltam o Carstensz (4.884 m), na Nova Guiné, o McKinley (6.149 m), no Alasca, e o Vinson (4.892 m), na Antártica. Até hoje, apenas dois brasileiros completaram a façanha: Waldemar Niclevicz, em 1997, e Manoel Morgado, em 2011.

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Escalando a Macau Tower, de 338 m de altura, na China, para o extinto programa “Extremos”, do Mutishow

Para alcançar o cume da maior montanha do mundo, em maio de 2013, Karina teve que enfrentar 30 horas no acampamento 4, a quase 8 mil metros de altitude, local conhecido como Zona da Morte. “Foi o momento mais difícil e a noite mais fria da minha vida. Estávamos em quatro: o americano que filmava a expedição, os dois sherpas e eu. A gente tinha feito todo o planejamento para chegar ao acampamento 4 após o almoço, descansar um pouco, derreter gelo, encher nossas garrafas de água e sair às 21 horas, porque nenhum montanhista inteligente dorme na zona da morte. Tem esse nome porque qualquer pessoa que ficar tempo demais naquela altitude morre. É uma questão de horas”, diz ela. “Só que, ao chegarmos, a velocidade do vento era de mais de 100 km/h e a temperatura, -40° C. Um dos sherpas, falou: ‘Se vocês querem continuar, ok, mas já vamos cavar nossa cova para não dar trabalho para os outros’. Como só tínhamos cinco garrafas de oxigênio para cada pessoa, se a gente as usasse para dormir, não teríamos o suficiente para a escalada. Então resolvemos nos separar. Ficamos só eu e o Pemba Sherpa”.

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Ela se prepara para um mergulho em Long Island, nas Bahamas, na gravação da série “Do Jeito Delas”, do canal Off, em 2013. Karina é recordista em apneia com 4 minutos e 15 segundos embaixo d’água

No dia seguinte, a neve cobria tudo. Não dava para sair da barraca ou voltar; não dava para fazer nada. Os dois ficaram esperando a tentativa de ataque ao cume. Por volta das 20 horas, o tempo pareceu dar sinais de que mudaria. “Eu disse: ‘Vamos’. O Pemba falou que era loucura, o vento ainda estava muito forte, mas começamos a subir. A sensação térmica devia estar facilmente perto de -60° C. Os equipamentos de escalada estavam cobertos de gelo. Não demorou e um bloco de gelo se formou na luz do meu capacete, me deixando na escuridão. Não conseguia enxergar onde estava pisando. Fiquei pendurada na corda umas quatro vezes, como se estivesse explorando o abismo, com não sei quantos mil metros abaixo de mim. Coloquei os óculos na testa para poder enxergar, e bastaram 20 minutos para que meu olho esquerdo congelasse. O Pemba tentou raspar a pálpebra, só que começou a doer muito. Eu gritava de dor. Ele ficou desesperado, então teve a ideia de lamber meu olho. Quando consegui abrir o olho, ele estava todo machucado, a visão embaçada. Coloquei os óculos de volta e continuei a subir”. No dia 17 de maio, às 7h38 (horário do Nepal), ela alcançava o cume.

Ter coragem de fazer tantas coisas que a maioria nem sonha não significa ter medo de nada. “É importante aprender a controlar e treinar os sentimentos para saber se o medo tem fundamento real ou se é só fruto de um descontrole. Fico pensando no porquê de já ter me arriscado tanto. Com certeza não foi para desafiar a natureza. Este é o combustível de que preciso para estar sempre superando meus próprios limites, mas também tenho medo de viver uma vida onde eu olhe para trás e não consiga dizer: foi incrível, sensacional, valeu cada dia”. Com isso, certamente, ela não precisa se preocupar.

SALVANDO VIDAS

Após saber do terremoto de 7,9 graus na escala Richter que sacudiu o Nepal em abril, Karina Oliani, juntamente com mais quatro médicos brasileiros, partiu para Katmandu

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Ao chegar ao país, eles foram direcionados a um vilarejo a cerca de 4 horas da capital nepalesa, que ainda não havia recebido nenhuma atenção médica desde o terremoto. “A ordem que recebemos era clara: dois médicos e um sherpa (povo que trabalha como guia nas expedições de alpinistas) deveriam se deslocar rapidamente e alcançar as quatro vilas que estavam 1.500 metros acima de Timbu”, diz ela. “Sabíamos que tínhamos que ser autossuficientes. Barraca, sacos de dormir, comida, água e um kit médico faziam parte da nossa bagagem”.

Depois de três horas de caminhada montanha acima, eles prestaram os primeiros socorros a um caso grave. “Uma senhora de mais de 60 anos ficou com uma das pernas embaixo de escombros e teve um afundamento de maxilar. Os locais haviam improvisado uma tala com várias madeiras sobre um emplastro de ervas que dificultou bastante a limpeza da ferida. A tala prendia a circulação de uma maneira perigosa, deixando o pé dela com um edema importante e as ervas, claro, já estavam infectadas. Por conta de uma enorme dor na face ela não se alimentava há quatro dias”. Com a senhora medicada, era hora de seguir para o próximo local. “Sentimos muitos tremores – alguns suaves, já outros nos deixaram assustados – e ganhamos 1.500 m
de elevação em apenas um dia, totalmente não recomendado em medicina de montanha, mas era preciso. Quem quiser ajudar esse povo que é tão bonito, resiliente e guerreiro, pode contribuir diretamente para o projeto deles: givealittle.co.nz/cause/Nepal-earth quake-2015”