O MONGE DO MAL

Por trás dessa figura inofensiva, de olhar sereno e andar pacífico, esconde-se um líder ultranacionalista, que prega a perseguição e até a morte de muçulmanos em Mianmar. Conheça o monge Ashin Wirathu, que vem sendo chamado de “bin laden budista”

 

Por Solly Boussidan Fotos Christophe ARCHAMBAULT (AFP PHOTO)  |  Madaree TOHLALA (AFP PHOTO)  |  Ivan Damanik (NurPhoto/AFP PHOTO)  |  

 

STATUS 49 - VAI ENCARAR?

Carinha de anjo, só que não: o monge Wirathu contribui para uma das maiores crises humanitárias no mundo

O corpo franzino, os gestos calmos e a feição de menino condizem com tudo aquilo que se imagina de um monge budista. Os pés descalços, a cabeça raspada e o manto laranja, símbolos de simplicidade e desapego ao mundo material, também estão ali, ajudando a compor a imagem de um cidadão do bem, muito acima de qualquer suspeita. Mas, quando Ashin Wirathu começa a pregar, o discurso parece não pertencer àquele corpo. “Não podemos dormir ao lado desses cães loucos, que querem destruir nosso país, nossa religião e nosso povo. Eles usam o dinheiro para chegar ao poder”, diz o monge, revelando sua face ultranacionalista durante um de seus vários sermões publicados no YouTube. Um dos mais proeminentes líderes religiosos de Mianmar (antiga Birmânia), Wirathu refere-se à “ameaça” representada pelos muçulmanos da etnia rohingya que vivem no país, uma minoria que não chega a 2% da população total. “Em todas as cidades desse país, lá estão os muçulmanos, estuprando nossas mulheres, dominando os negócios”, acrescenta o líder religioso, que vem sendo chamado de “Bin Laden budista”.

Ódio nas redes

Poderia ser apenas mais um discurso de ódio perdido no submundo da Internet, mas o fato é que Wirathu conta com milhares de seguidores e avassaladora presença nas redes sociais. Sua mensagem de ódio está por trás da maior perseguição humanitária da atualidade, segundo a ONU. A tensão entre budistas e muçulmanos, cuja origem remonta à época em que o país era colonizado pelo Reino Unido (ver box), agravou-se especialmente em 2012, com o estupro e a morte de uma estudante budista. O crime serviu de pretexto para Wirathu endurecer seus ataques, acusando os rohingyas de “usurpar as terras birmanesas e querer islamizar o país”. A mensagem ecoou por toda a região por meio do 969, grupo nacionalista budista liderado por Wirathu. Com a ajuda de outros grupos budistas, eles distribuíram panfletos conclamando a população a exigir leis para promover a “separação das raças”. O resultado foi catastrófico: dez homens muçulmanos foram retirados à força de um ônibus e espancados até a morte sob os olhares complacentes de policiais e soldados. Nos arredores da cidade de Sittwe – capital do Estado de Rahkine e principal reduto dos rohingyas –, mesquitas foram dilapidadas, vilas inteiras incendiadas e os cerca de 200 mil muçulmanos que moravam ali foram obrigados a deixar suas casas. Os que ainda permaneceram na cidade foram levados a “campos de deslocados”, na descrição do governo, mas que entidades humanitárias preferem chamar de “campos de concentração modernos”. Estima-se que 150 mil pessoas estejam vivendo nesses locais, sem infraestrutura, atendimento médico e e alimentação.

Desde os tempos da colônia

Os rohingyas são uma minoria étnica muçulmana originária do leste de Bangladesh e do noroeste de Mianmar. Muitos foram trazidos à antiga Birmânia como trabalhadores no período colonial britânico (séc. 19). Até a década de 1960, os rohingyas eram e aliados da junta militar que governava Mianmar. A independência de Bangladesh, primeiro dos britânicos e depois do Paquistão, levou ao aumento da neurose, do racismo e da xenofobia por parte da junta militar birmanesa. Para os militares, as relações dos rohingyas com Bangladesh, de maioria muçulmana, ameaçavam a segurança nacional. A minoria passou a ser discriminada até que, em 1982,  perderam o direito à cidadania. As relações privilegiadas entre rohingyas e militares gerou ressentimentos na etnia budista rakhine, com quem os muçulmanos dividem o território. Os rakhines têm uma longa história de reinos independentes nessa região, mas também foram perseguidos e empobrecidos pelos birmaneses. O ressentimento é até hoje justificativa para a perseguição aos rohingyas tanto pelo governo quanto por gangues de budistas em Rakhine.

“O que ocorre em Mianmar é um nazismo-budista”, diz à Status Maung Zarni, ativista birmanês e pesquisador na London School of Economics. A reportagem de Status esteve em um desses campos de refugiados, nos arredores de Sittwe. Em diversas partes do campo não há nenhuma infraestrutura de saneamento. Os rohingyas utilizam várzeas precárias como banheiros, contaminando os poucos poços de água potável no local. Famílias foram separadas, e é praticamente impossível obter qualquer atendimento médico. A agência da ONU para refugiados (Acnur) tenta remediar a situação, mas os campos são controlados pelo governo, que muitas vezes impede o trabalho de entidades internacionais. Tanto a ONU quanto organizações de direitos humanos confirmam relatos de centenas de casos de roubos, assassinatos, decapitações e estupros coletivos perpetrados contra a minoria étnica sobretudo no Estado de Rakhine. “O que ocorre em Mianmar é o genocídio chancelado dos rohingyas por políticas nacionais racistas que levam ao assédio, desumanização, enfraquecimento e isolamento da etnia”, explica Penny Green, pesquisadora na Universidade Queen Marry, de Londres, e diretora da Iniciativa Internacional dos Crimes de Estado, organização britânica que estuda violações de direitos humanos por políticas nacionais.

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Se os que ficam em Mianmar são abandonados à própria sorte, a situação daqueles que tentam fugir não é muito diferente. Para deixar o país, os rohingyas se lançam ao mar em embarcações precárias, muitas vezes sem motor, pela Baía de Bengala, na esperança de chegarem à Malásia, país de maioria muçulmana. Os botes superlotados ficam à deriva durante dias – às vezes, semanas – e são frequentemente impedidos de ancorar nos países vizinhos, que relutam em recebê-los. Somente de janeiro a maio, cerca de 25 mil já tentaram essa alternativa, resultando em pelo menos 300 mortes, por afogamento, desnutrição ou insolação. Além dos botes, muitos tentam escapar pelas fronteiras terrestres com a Tailândia, contratando “coiotes” que podem cobrar de US$ 150 até US$ 3.000 por pessoa. Recentemente, dezenas de corpos de rohingyas foram descobertos em valas comuns próximas às fronteiras com a Tailândia. Investigações preliminares indicam que os atravessadores mantiveram essas pessoas em cativeiro, sem comida e sob tortura para tentar extorquir mais dinheiro dos familiares que permaneceram em Mianmar.

Mesmo com as atrocidades sendo documentadas, com fortes imagens propagadas pela imprensa em todo o mundo, nem o governo de Mianmar e tampouco Wirathu parecem se deixar abater pela pressão da opinião pública. Durante um discurso para centenas de seguidores, no início do ano, o monge budista chamou de “puta” e “vadia” a enviada da ONU no país, Yanghee Lee, que havia criticado o tratamento do governo local às minorias étnicas. “Não pense que a senhora é uma pessoa respeitável apenas por trabalhar na ONU. Em nosso país, você não passa de uma vadia. Você pode oferecer seu rabo para os kalar (termo depreciativo para os rohingyas), mas nunca vai conseguir vender o estado de Rahkine para eles”, vociferou Wirathu, sob aplausos. Sua fala foi tão forte que chegou a incomodar o governo, seu aliado, e outros líderes budistas no país, que criticaram publicamente a conduta de Wirathu. O monge do mal, porém, não se deixou abater: “Aquelas foram as palavras mais duras que consegui encontrar para me expressar. Se tivesse outras, mais fortes, eu as teria usado. Isso não é nada comparado ao que ela fez com nosso país”, disse.

Além da religião

As palavras contradizem a aura pacifista que sempre envolveu o budismo ao longo de sua história. Quando países asiáticos começaram a se erguer contra o colonialismo, no século 19, os monges estavam lá, lutando pela independência – muitos, inclusive, com seus corpos esquálidos, resultado de longas greves de fome. Em 2007, lá estavam eles novamente, em campanhas contra o regime militar que durante quase 50 anos governou o país. O que fez, afinal, os budistas surgirem agora do lado violento? “O Ocidente precisa parar de enxergar o budismo de forma romântica, achando que seus seguidores são incapazes de violência”, diz Zarni. “A religião está sendo usada como fachada para atingir objetivos socioeconômicos. Os budistas não são diferentes dos seguidores de outras religiões e podem ser tão maus quanto qualquer um”, conclui o especialista.

Justiça seja feita: Wirathu não é o único vilão nessa que é considerada uma das maiores crises humanitárias da atualidade. Ainda que o monge tenha milhares de seguidores e saiba explorar o Facebook e o YouTube para propagar seu discurso de ódio, o fato é que os rohingyas sofrem com uma discriminação institucionalizada. Em Mianmar, existem 135 grupos étnicos, todos reconhecidos pelo governo e com direito a cidadania, mas a regra exclui os rohingyas. A lista de restrições é extensa. Pela lei, eles só podem ter dois filhos e precisam de uma autorização do governo para casar (em 2006, um casal foi condenado a sete anos de prisão por terem se casado clandestinamente). Os rohingyas não têm direito a educação, mas são obrigados a pagar impostos muito mais altos que do restante da população. O acesso a hospitais é dificultado mesmo em casos de vida ou morte, enquanto nos campos de deslocados praticamente não há acesso a médicos desde que a ONG Médicos sem Fronteiras foi expulsa de lá. As grandes potências, como Estados Unidos e Reino Unido, enxergam o problema, mas temem que o endurecimento das relações com Mianmar levem o país a se fechar novamente, resultando em um cenário ainda mais sombrio. O governo de Mianmar, por sua vez, insiste em dizer que todo esse isolamento é para “o bem dos rohingyas”, para evitar confrontos, mas é certo que seu discurso nacionalista agrada grande parte da população budista. São eles, afinal, que irão às urnas em outubro para escolher o próximo presidente, na primeira eleição desde a abertura democrática do país, em 2011. “Enquanto a comunidade internacional não pressionar Mianmar, nada vai realmente mudar”, diz Penny Green.