PEGADOR ATÉ O FIM

Sempre rodeado de beldades, o empresário Olacyr de Moraes, falecido recentemente, foi o maior bon vivant que nosso País já teve. Status celebra a vida que levou este notável homem e conta os bastidores de seus últimos anos

 

Por Nirlando Beirão

 

STATUS 49 - PERFIL

O empresário cercado por Talita Bentovoglio, Michele Thibes e Priscila Cruz na festa de natal do Buddha-Bar, na Daslu, em São Paulo

Foi lá pelo final dos anos 1980 que, desimpedido pelo desquite, abonado por uma conta bancária que lhe dava a reputação – talvez exagerada – de ser dono da maior fortuna do Brasil, Olacyr de Moraes se decidiu a viver a vida, no melhor sentido que um homem pode conferir, desde os tempos memoráveis do rei Salomão e da rainha de Sabá, a um projeto como este.

Não havia foto de evento público, acontecimento social, coquetel, vernissage, aniversário, casamento, em que aquele cavalheiro, a quem a comunidade de negócios reverentemente atribuíra o status nobiliárquico de “Rei da Soja”, não aparecesse envolto numa corbeille de sorrisos femininos, modelos deslumbrantes, misses recém-saídas das passarelas, quase sempre meninas de tudo. E, raramente, a escort era uma só – o remoçado Olacyr as expunha aos punhados, brindando os paparazzi e os repórteres com o enigma de uma expressão em que o orgulho em possuir tão belos troféus era adocicado por uma naturalidade nada arrogante – coisa assim do tipo “desculpem, mas vocês não têm nada a ver com isso”.

STATUS 49 - PERFIL

O rei da soja em uma de suas fazendas, em 1988

Quando, relutante mas altivo, as circunstâncias o levavam a cruzar com seus ilustres pares do mundinho empresarial, ele já ia preparado para ser fulminado por olhares de desprezo que na verdade dissimulavam uma atroz inveja. Sabia que bastava virar as costas para que os amigos, muy amigos, sussurrassem entre si o deboche malicioso acerca do “velho coronel e suas lolitas vorazes”. Como se, no caso desses senhores linguarudos e abastados o convívio com as suas digníssimas não passasse também pelo cartão de crédito.

“Se ele tinha uma vaidade, era a vaidade de ser infinitamente generoso”, diz uma atriz e modelo que chegou a viver com ele um affair bastante longo pelo padrão Olacyr, de mais de um ano, sem exclusividade nem de uma parte nem da outra, e que hoje, já que casada e mãe de família, pede para não ser nomeada. A generosidade costumava se exprimir em fees mensais de até R$ 30 mil (ou o correspondente na época), em presentes súbitos e valiosos, um anel de brilhante aqui, um habillé de grife acolá, em cursos de inglês ou de boas maneiras patrocinados por ele. No entanto, obséquios à parte, o consenso entre as acompanhantes do empresário, as assíduas assim como as eventuais, era o de que a mística de seu cavalheirismo vinha, aí sim, da rara virtude de saber ouvir. “A gente desabafava as angústias com ele”, diz a citada modelo.

“Tenho umas 40 amigas porque gosto de ajudar as pessoas”, disse ele, muito sério, ao Jô Soares no talk show noctívago do humorista. Já tinha 82 anos de idade. Confidentes contam que Olacyr chegava a recorrer a agências e suas bookers, a partir de fotos escolhidas de comum acordo, mas sempre cumpria o ritual da fidalguia de fazer o convite ele mesmo, por telefone, e que não havia day after sem um cortês buquê de flores. Não eram só as gentis donzelas que contemplavam Olacyr com o penhor de sua admiração. Este repórter assistiu certa vez um exuberante publicitário proclamar, numa palestra, para hilaridade geral: “O Lula distribuiu renda no Brasil. Mas o Olacyr distribuiu muito mais”.

Ao abismo entre as idades, Olacyr respondia com um repetido: – “a idade está na cabeça, e não no corpo”. Voto de elogiável autoconfiança para quem começou a militar ativamente ainda numa era pré-Viagra. A mordacidade alheia podia ser fomentada até mesmo por equívocos como os que a revista Caras – onde Olacyr e seu plantel marcavam presença todas as semanas – insistia em cometer. Naquela redundância bem ardilosa de publicar nome e idade de seus personagens, para acentuar o embaraço, Caras adicionava dez anos à idade do empresário. Olacyr pacientemente ligava para o diretor de redação para pedir a correção. E lá, de novo, na semana seguinte, o mesmo erro a sugerir uma gratuita perseguição. Até que se apurou que o engano vinha do departamento de pesquisa da Editora Abril. Prematuramente calvo, invariavelmente encouraçado em terno e gravata, Olacyr pagava o preço de uma body language de varão bem comportado, que na realidade ele estava longe de ser, e com aparência mais gasta do que seu RG de fato atestava.

As cobrinhas venenosas não perderiam tempo em atribuir ao extenso elenco feminino a causa de sua decadência financeira, a partir de meados dos anos 1990. Ele que, o maior produtor de soja em todo o mundo, chegara até a lista dos bilionários da Forbes quando mal tinha completado os 40 anos. Na verdade, quem quebrou Olacyr – um empreendedor visionário cujo noviciado nas artimanhas do dinheiro se dera na empresa de transporte de cargas do pai, depois chamada Constran, e que adivinhou antes de todo mundo o potencial da exportação de grãos, a partir de vastas terras do Mato Grosso conquistadas à criação de gado – não foram as benesses do bom coração e, sim, as trapaças do big business.

Para escoar a produção de fazendas com 50 mil hectares de plantações, resolveu bancar, por conta própria, a Ferronorte, uma quilométrica estrada de ferro que iria dar no porto de Santos. Contava, sim, com alguma ajuda federal mas o presidente Fernando Henrique e a intransigente equipe econômica pilotada pelo ministro Pedro Malan desconversaram sistematicamente, relegando Olacyr à condição de figura caricata habitué dos tabloides de fofoca e esquecendo o empresário arrojado tão raro nesse cenário de marasmo, covardia e lamúrias que caracteriza o universo corporativo nativo.

O império empresarial que Olacyr criou, muito além do agronegócio – transportes, hidrelétricas, a construtora, o Banco Itamarati –, foi se liquefazendo por culpa das dívidas contraídas na aventura ferroviária, avaliadas em quase R$ 1,5 bilhão. Atolado em empréstimos bancários, foi se desfazendo de seus ativos, as fazendas (a maior, em Diamantino, MT, acabou virando assentamento do MST) e, enfim, em 2010, a Constran, vendida para a empreiteira UTC – hoje envolvida na Operação Lava-Jato.

De todo modo, tratou de fazer a roda girar e de se reinventar na área da mineração, não de ouro, como outro ex-bilionário, Eike Baptista, mas de metais de desconhecido valor estratégico. No interior da Bahia, em Barreiras, sua Itaoeste agregou a seu portfolio – manganês, cobalto, ferro, titânio, fosfato – consistentes jazidas de tálio, um metal de uso na mais sofisticada tecnologia médica.

Autoexílio

O exercício da mineração, ao revolver o subsolo da terra, acaba chafurdando no submundo da política. Direito de lavra, licenças ambientais – tudo fica mais fácil quando se azeitam os corredores do mando. Olacyr de Moraes tivera, no passado, trânsito fácil por aí e ainda tentava usufruir de seu antigo prestígio. Segundo contou a colunista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo, poucos dias antes de morrer ele enviara um e-mail ao Instituto Lula solicitando um encontro com o ex-presidente.

As barganhas mal explicadas resvalaram em Olacyr no trágico episódio da morte do ex-senador boliviano Andrés Guzmán, que se apresentava como assessor do empresário. O fato é que Guzmán apareceu uma bela manhã de abril de 2014 no apartamento de Olacyr e saiu de lá com uma pasta de dinheiro vivo (R$ 400 mil, apurou a polícia). Miguel Garcia Ferreira, motorista e segurança de Olacyr, ficou na tocaia e pediu carona no imponente SUV branco do visitante. No trajeto, Miguel discutiu com Andrés e o matou com quatro tiros no rosto. Alegou que não aguentava mais ver o ex-senador extorquindo o patrão de 28 anos com promessas de negócios inexequíveis. Aquilo baqueou de vez Olacyr e aprofundou sua reclusão.

STATUS 49 - PERFIL

Em 1993, aproveitando o carnaval da Bahia muito antes da camarotização de Salvador

Três anos antes, em abril de 2011, ao completar 80 anos, sem nenhuma inibição em alardear a idade, ele tinha oferecido no já falecido Clube A de São Paulo uma recepção para 200 pessoas – com escandaloso desequilíbrio demográfico em favor de suas floridas e risonhas companhias. Foi a última grande festa que deu. Continuou frequentando os salons da cidade, mas com moderação, já que em 2013 foi golpeado pela notícia de um insidioso câncer de pâncreas que ele relutava em tratar de forma convencional (tentou, mais de uma vez, em Abadiânia, Goiás, a “cirurgia espiritual” do médium João de Deus).

STATUS 49 - PERFIL

Exilou-se em seu apartamento de 600 metros quadrados do Itaim, ao qual ele passou a conferir o aspecto de um santuário de recordações pessoais – fotos e mais fotos que documentam sua movimentada vida pessoal e profissional. Em apreço à memória, assombreada pela doença, recuperou momentos de seu fausto de empresário, ao lado de políticos, celebridades e até mesmo dos últimos três presidentes da República.

No entanto, devidamente escaldado pelo efeito efêmero do puxa-saquismo, era por outro tipo de gente que sua alma se enternecia e era disso que ele passara a desenvolver uma inesperada veia poética no seu site pessoal – e, depois dos 81, na sua tardia estreia no twitter. Nos seus “contos”, narrativas curtas nas quais buscava afiar o estilo, celebrava em “um tal Sr. Fonseca” um “novo e velho amigo”, que numa remota tarde de sábado dos anos 1960 foi implorar junto a Olacyr “um caminhão de areia para terminar urgentemente uma obra”. O expediente estava encerrado, mas o dono da transportadora apiedou-se do cliente e conduziu pessoalmente o caminhão até o Sr. Fonseca. Ele e o dono da empresa – sim, Olacyr – selaram ali uma fraterna amizade.
Permitia-se até filosofar um pouquinho. Contou que, certa vez, empresários baianos, amigos seus, o ciceronearam em “áreas lindíssimas” e tentaram convencê-lo a comprar uma casa ali – “silêncio absoluto, tranquilidade, canto dos passarinhos, balanço do mar. Um paraíso!” Erraram de endereço. ”Aprecio a beleza natural do nosso país”, defendeu-se Olacyr, “mas o sossego e a solidão não fazem parte do que sou”.

Era igualmente em semeador de frases, nas quais invariavelmente fazia o proselitismo da coragem empresarial que ele, em meio aos triunfos e aos solavancos, tanto prezou. “É preciso dizer: eu quero fazer, eu vou ter sucesso, vou lutar e conseguir”, publicou. “Para ter sucesso na vida, é importante trabalhar com imaginação e criatividade”. Juntas, configuram uma cartilha de autoajuda que poderia muito bem ser assinada pelo Donald Trump. Com direito a exortação patriótica: – “Vocês jovens não percam a esperança, porque certamente vocês construirão um Brasil melhor” – e o desabafo autobiográfico: – “Pena que no Brasil exista mais inveja do sucesso do que admiração”.

A sobrinha Gisele Moraes – a pessoa da família mais ligada a ele – contou à Folha que as meninas estavam meio sumidas nesses últimos dias de vida dele, encerrados a 16 de junho. Seu filho, Marcos, determinou um velório rápido e sem pompa. “Foi um paizão, vai deixar saudades”, lamentou, à distância, Lyliah Virna, ex-Miss Brasil em 1993 e um de seus mais duradouros affairs.

A proverbial magnanimidade de Olacyr fez com que, até agora, ele continuasse socorrendo não só algumas de suas parceiras como também amigos arruinados.Ele conhecia bem os percalços da vida. E tinha no humor um aliado fiel. Uma de seus “contos” é uma alusão carregada de auto-ironia ao seu inesgotável SOS Models. Diz que, certa noite, estava dançando no clube de São Paulo quando uma mulher se aproximou e mergulhou a mão em seu bolso. Aquilo que diziam que as outras faziam simbolicamente, esta aí fez literalmente. Achou, claro, que tinha sido surrupiado. Apalpou o bolso e encontrou a carteira. Junto com ela, um bilhete – um convite para saírem juntos.