PROSA DELICIOSA

A escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho devassa o Brasil em livro de crônicas

 

Por Ronaldo Bressane

 

STATUS 49 - APPROACH, ENTRELINHAS

De passagem pelo Brasil – onde veio terminar um romance e participar da Flip –, a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho conversou com a Status sobre Vai, Brasil (Tinta-da-China; 328 págs.; 18 euros), reunião das crônicas que escreveu para o jornal Público no período em que viveu no Rio de Janeiro, entre 2010 e 2014. Seu terceiro romance, Deus Dará, a ser publicado em 2016, tem a ver com essa experiência e também com os nossos equívocos comuns, que já somam 515 anos. “Há cinco protagonistas cariocas, dois portugueses e um narrador transatlântico. O eixo geográfico é o bairro do Cosme Velho, mas do Corcovado às cracolândias tenho matéria de sobra para me espalhar ao comprido, dos dois lados do Atlântico”, diz ela.

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– Você viveu várias temporadas no Brasil, mas também pode nos observar de seu posto em Portugal. O que ainda a espanta no nosso comportamento?
– Quando o Brasil não me espantar estarei morta. Espanta-me o presidente da Câmara que conduz um culto evangélico, a bala perdida que entra na casa da minha amiga no Rio, as três horas que levo a vir de Guarulhos, e que ainda haja água em São Paulo. Espanta-me nunca ter passado mais de 24 horas em Salvador, não conhecer o sertão de Euclides, ter lido Nelson Rodrigues tão tarde. Espanta-me o Alto Rio Negro, a poesia de Caetano, o verbo do Rosa, o queixo de Noel. Espanta- me a juventude de Machado de Assis. Espanta-me a antiguidade de Monique Nix. Espanta-me ir ver o Metá Metá e dançar morna. Sobre o vale do Anhangabaú, continua a espantar-me tanta gente falar a mesma-e-outra língua, ando a aprendê- la, ela não para. Espanta-me que em 2015 queiram prender Zé Celso. A propósito de justiça, espanta-me que o exército esteja na Maré e ainda haja Polícia Militar. Espanta-me que uma menina aborte clandestinamente enquanto mais um Boeing 777 volta de Miami. Espanta-me de novo a cor da terra em Minas Gerais, o desconhecido que pergunta tudo joia e me chama de amada. Espantam-me sempre as formas de Nuno Ramos para este estranho fruto de todos nós. Difícil achar o que seja o “vosso comportamento”. O Brasil são tantos que nunca vai virar um imenso Portugal.

– O Brasil vive uma grande retração em seu mercado editorial. Como está este mercado em seu país? E como é a recepção da literatura contemporânea brasileira em Portugal?
– O mundo editorial em Portugal é concentrado em dois grandes grupos que absorveram muitas editoras históricas; as editoras independentes de tamanho médio, como a Tinta-da-China, em que publico, são exceções; e multiplicam-se pequenas editoras alternativas, sobretudo de poesia. Há um interesse geral, e real, pela cultura brasileira, mas os escritores mais recentes em geral vendem pouco; entretanto, vários clássicos não estão disponíveis. O mesmo vale para a literatura portuguesa no Brasil, creio, onde os autores portugueses vendem pouco, e estão pouco editados.

– Há diferenças claras – e, penso, saborosas – entre o português de Portugal e o português brasuca. Que pensa da unificação da língua e da ortografia? Sua prosa deveria ser “adaptada” à ortografia brasileira, ao publicá-la aqui? Livros brasileiros têm de ser “traduzidos” ao português português?
– Não escrevo segundo o Acordo Ortográfico, não sei para que serviu, os equívocos entre Portugal e Brasil não passam por aí. Acredito que a prosa não deve ser adaptada em nenhum dos lados do Atlântico, quero ler os brasileiros exatamente como escrevem, e gostaria que os portugueses fossem lidos no Brasil exatamente como escrevem. Porque: 1) forma é conteúdo, estilo, autoria, em todo o detalhe; 2) não há leitura sem estranhamento, entender tudo não é ler melhor, pode ser mesmo o contrário; 3) se não passa pela cabeça de ninguém adaptar um poema (espero), a prosa é menos literatura?; 4) quem estaria fora e dentro dessa adaptação?, vamos recuar aos clássicos, “traduzir” Clarice Lispector, Eça de Queirós?, há um limbo de intocáveis e depois uma vasta prole de “traduzíveis”? Desde que as variantes do português se foram afastando, sobretudo no século 20, todos perdemos por vezes o pé, mas isso não impede um leitor português de ler Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato, ou Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, além de toda a gíria paulista. O que o leitor não entende de imediato é um vislumbre de outra possibilidade. A decisão de pegar ou largar é dele.

Kafka
fundamentalista

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Numa história em quadrinhos em que uma barata discute com uma criança, é empregada uma palavra que leva o quadrinista à prisão. Tragado por um processo burocrático, ele precisa renunciar à família e ao país. Não é ficção: a história aconteceu com Mana Neyestani, conforme ele conta em Uma Metamorfose Iraniana (Nemo; 208 págs.; R$ 40). Ele hoje vive em Paris.

Alta ajuda

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A trilogia Guerra nas Estrelas foi concebida segundo o que o mitólogo Joseph Campbell definia por Jornada do Herói, teoria que mostra como grandes narrativas se originam em fábulas e mitos milenares. Christopher Vogler aplicou essa teoria à técnica cinematográfica em seu  A Jornada do Escritor (Aleph; 488 págs.; R$ 70), manual que ensina como recriar os arquétipos essenciais na forma de personagens e estruturas para roteiros, peças e romances. Um divertido e erudito ensaio que mostra como a mesma carpintaria dramática usada por Homero pode ser reinventada em estruturas pós-modernas e não-lineares como os filmes de Tarantino.

Gritos e Sussurros 

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Alejandro Zambrai tem neste Meus Documentos (Cosac Naify; 224 págs.; R$ 33) uma antologia de contos que falam sobre crescer sob uma ditadura pesada, que matou, torturou e expulsou do Chile parentes e amores, dilacerou famílias e rachou irreversivelmente a sociedade do país. Mas, por vagar entre o humor e o horror, são narrativas das dificuldades (ou mesmo impossibilidades) das relações amorosas, da fragilidade do homem frente às oscilações femininas, dos miúdos dramas da tecnocracia dos sentimentos e os enlaces entre o cotidiano e a literatura.

Pergunte ao pop

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Ele foi tão essencial à literatura quanto a trinca Coppola, Scorsese e De Palma para o cinema: injetou sangue, suor, lágrimas, azeite & vinho na arte dos EUA – leia-se contaminar a narrativa clássica com a “emoção italiana”: seus complexos códigos de honra, sua esperança inquebrantável, sua sentimentalidade visceral, sua percepção aguda da luta de classes, seu sentimento de ser estrangeiro e seus embates com Deus e o Diabo. A editora José Olympio recoloca nas livrarias Pergunte ao Pó (208 págs.; R$ 35), romance de John Fante que imantou a cena beatnik nos anos 1950, esteve na cabeceira da contracultura nos anos 1960, foi vital nos anos 1970 para o aparecimento de escritores como Charles Bukowski e influenciou todo escritor pop que se preze, gente que pressupõe uma ligação umbilical entre vida vivida e vida contada – o que traz à leitura a sensação de que o narrador está abrindo o coração para o leitor a cuteladas. As aventuras e, sobretudo, desventuras de Arturo Bandini, um filho de imigrantes italianos sonhando em fazer sucesso como escritor em Los Angeles e se dando muito mal, também reaparecem em A Grande Fome (228 págs.; R$ 35), reunião recente de contos, crônicas e fragmentos de romances inacabados: para um fantemaníaco é impossível ler o “Prólogo a Pergunte ao Pó” sem dispor de uma caixa de kleenex – e um bom vinho.

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