A GUERRA DE PETE BETHUNE

Ele trabalhava como engenheiro de uma petroleira e decidiu largar tudo para se tornar um ativista radical. Conheça o líder de um grupo de ex-militares que caça criminosos ambientais no céu, na água e na terra

 

Por Jr. bellé

 

STATUS 50 - VAI ENCARAR?

É madrugada. Pete Bethune mergulha silenciosamente na baía do porto de Puntarenas, na Costa Rica, infestada de crocodilos. Atrás dele está seu companheiro de equipe Bryce Mahoney. Os dois vestem rebreathers (aparato que permite ao mergulhador reutilizar boa parte do oxigênio liberado na expiração) e se movimentam com o auxílio de propulsores aquáticos. Protegidos pelo breu e por uma leve névoa, eles tentam se manter longe dos répteis assassinos. Alguns minutos e cuidadosas braçadas depois, Pete e Bryce avistam seu alvo: um barco pesqueiro ancorado a poucos metros da costa. Sorrateiros, os dois invadem a embarcação e rapidamente implantam nela rastreadores, resolvendo a parte mais difícil em pegar navios pesqueiros ilegais – encontrá-los em atividade. Sem serem notados, esgueiram-se e nadam de volta para o continente. Em poucas horas, ele e sua equipe, formada por ex-militares, saberiam exatamente para onde e ir e em que momento atacar.

Logo após o sol nascer, a suspeita seria confirmada pelos dados do GPS: o barco estava na reserva ambiental da Ilha de Coco, patrimônio mundial tombado pela UNESCO e conhecido ponto de pesca ilegal de tubarões. De acordo com as leis locais, eles precisam apresentar, como prova de crime ambiental, um vídeo do barco avançando sobre a área de proteção e o registro de seu GPS. Em dois dias de trabalho, a equipe consegue muito mais. Sete barcos pesqueiros, seus capitães e equipes foram legalmente processados a partir das evidências colhidas por eles. A maior apreensão feita na história da Costa Rica.

Essa foi mais uma das misões de Pete Bethune, 50 anos, e sua equipe, chamada The Operatives, formada em 2011, mas efetivamente em campo há apenas dois anos. “Eu diria que somos um grupo de ex-militares que usa suas habilidades para salvar o planeta. Nós caçamos criminosos ambientais, treinamos unidades locais naquilo em que somos especialistas e contamos nossas histórias para o mundo com o intuito de atrair o debate público para causas importantes”, diz o criador e comandante dos Operatives à Status. Sua equipe varia de acordo com o perfil e o local da operação, mas costuma ter vinte pessoas, sendo pelo menos um quarto delas composto por militares de carreira.

STATUS 50 - VAI ENCARAR?

Ele os recruta, preferencialmente, entre marines, seals e outras tropas de elite dos Estados Unidos, mas também entre soldados da SAS (Special Air Services) da aeronáutica britânica e paraquedistas dos mais variados destacamentos. “Militares estão mais bem preparados para o tipo de missão que fazemos. Rastejamos para dentro de áreas proibidas, reunimos informações sobre nossos alvos, geralmente barcos pesqueiros ilegais, então subimos neles e prendemos os criminosos”.

Antes de todas as missões, o governo local é avisado. Se eles decidirem cooperar, a equipe de Pete se junta ao órgão militar ou civil designado pelos meios oficiais. Se não, agem na ilegalidade. “É muito importante nosso relacionamento com os governos, mas, em alguns casos, como em países muito corruptos, eles acabam dificultando o nosso trabalho. Aí, agimos por conta própria”, diz o ativista. Segundo ele, as armas preferidas para serem usadas nas abordagens são rifles AR-15 e pistolas Glock de uso próprio da The Operatives. Caso não consigam entrar com as armas no país, eles tentam importá-las ou comprar similares. Se nenhuma das alternativas der certo, as operações ocorrem sem nenhum armamento de fogo.

Das doze missões que o grupo empreendeu até agora, oito (as mais bem sucedidas) se tornaram episódios da primeira temporada da série documental The Operatives – produzida, filmada e editada inteiramente pela Earthrace, ONG montada por Pete em 2010 – e podem ser assistida pelo site da Pilot TV, da Nova Zelândia (takepart.com/pivot/operatives). O objetivo é fazer pressão midiática sobre os governos, para que tomem medidas efetivas pela preservação ambiental. Uma missão humanitariamente nobre, mas mercadologicamente problemática. “Fomos baleados várias vezes, passamos por situações extremas, faz parte do nosso trabalho. As emissoras não gostam de se expor a esse tipo de risco. Precisamos entregar um programa pronto”, diz Pete.

The operatives

Nas missões da Costa Rica estavam presentes Bryce, ex-ranger americano especialista em táticas de vigilância, responsável por fazer os equipamentos eletrônicos funcionarem, a exemplo dos rastreadores; Richard McKee, soldado do exército dos Estados Unidos por 23 anos, perito em batalhas na selva e investidas em territórios inóspitos – é ele quem faz o planejamento e pensa a estratégia; Matt Griffin, sniper, ex-marine e treinador de MMA, cuida da logística e por vezes arrisca o pescoço; Jack Waldron, paraquedista das tropas da Nova Zelândia e mercenário; Charissa Moen, americana que pilota os VANTS (veículos aéreos não-tripulados), como fez por anos nos céus do Iraque e Afeganistão; e Rick Clark, ex-Seal Team 6, a tropa de elite do exército americano, e, por isso, segundo comandante da equipe.

Entre os feitos dos Operatives está o registro em vídeo da matança de focas na costa da Namíbia, o rastreamento por drone dos mais diversos pescadores ilegais, perseguição a navios baleeiros na Antártida, invasão de garimpos ilícitos numa zona de preservação ambiental na Costa Rica, onde foram recebidos a tiros de fuzis AK-47. “Estamos sempre preocupados em não sermos baleados. Muitos dos criminosos que caçamos estão armados e levar um tiro é sempre uma possibilidade. Já tentaram me acertar quatro vezes, mas felizmente continuo vivo”, diz Pete. Cada membro recebe um cachê de cerca de US$ 200 por dia, tudo pago por meio de doações recolhidas pela Earthrace.

Pete não é um ativista qualquer. Além de liderar perigosas operações paramilitares, ele as transforma num show midiático capaz de fazer o mundo todo voltar os olhos para sua causa. Nada mal para um engenheiro que passava meses em plataformas de extração de petróleo no oceano. “Recebia um ótimo salário, aprendi muito sobre hidráulica, eletrônica, e até sobre explosivos e radioatividade”, diz ele. “Era um emprego maravilhoso que me deixou tecnicamente muito bem preparado, mas eu vi em primeira mão o potencial destrutivo da indústria do petróleo, então comecei a sentir que estava trabalhando para o inimigo”.

Em 1993, ele tomou coragem e pediu demissão. Tinha um plano em mente. Abriu a Camsensor Technologies, uma empresa especializada em câmeras para controle de qualidade. Doze anos depois, vendeu tudo e usou o dinheiro para construir um barco movido a resíduo de óleo de cozinha e biocombustível. Batizou-o de Earthrace, uma lancha trimaran de 13 toneladas e 24 metros de comprimento (no quadro ao lado, destruída depois de um operação pelo Sea Shepherd). Sua missão era bater o recorde mundial de velocidade de circum-navegação em lancha, feito atingido em 2008. Pela primeira vez, os holofotes do mundo se voltaram para ele. “No tempo que passei a bordo, observei muitos problemas marinhos – pesca de arrasto, recifes devastados – e aquilo foi me deixando com muita raiva. Então me juntei ao pessoal do Sea Shepherd para ajudar na proteção às baleias, e assim tudo começou”.

VINGANÇA? NÃO, PROMOÇÃO

STATUS 50 - VAI ENCARAR?

“Estava escuro e muito frio, lá a água chega a -1º C por conta dos sais. Havia um cheiro horrível e um vento forte, as ondas rebentavam na gente enquanto nos aproximávamos do navio”, diz Pete, sobre a noite da invasão ao navio japonês Shoran Maru. Eles estavam em três pessoas num pequeno jetski, que tombou três vezes, lançando todos ao mar. Pete teve que escalar o barco tomando cuidado com a rede antiembarque, oculta pela escuridão. “Tudo era muito difícil. Eu caí na primeira tentativa, mas, surpreendentemente, na segunda consegui subir a bordo.” Muitos acharam que a decisão foi impulsiva e raivosa, mas ele desmente. “A ideia sempre foi voltar para o Japão como um prisioneiro. Nós lutamos muito para que a mídia japonesa falasse da matança de baleias, mas eles sempre nos ignoraram. Quando o Ady Gil afundou e eu fui preso, eles não tiveram como ignorar”.

Ajuda milionária

Pete tinha o barco mais rápido do mundo em mãos e queria usá-lo para atazanar a vida de quem destrói os mares, ofício ao qual a ONG Sea Shepherd já havia se provado uma especialista. Além do mais, ele precisava recuperar o US$ 1,5 milhão que havia investido no Earthrace. Foi então que a multimilionária israelense e ativista ambiental Ady Gil entrou na jogada. Ela comprou o barco e o doou para o Sea Shepherd com a condição de que fosse rebatizado com seu nome. A lancha Ady Gil tornou-se o pesadelo dos bandoleiros do mar. Com ela, Pete e a Sea Shepherd interceptaram dezenas de navios baleeiros da Antártida à China, atiraram ácido butírico em pescadores ilegais, azucrinaram a vida de muita gente identificando e filmando crimes contra a fauna e a flora marinha. Até que em janeiro de 2010 ela foi atropelada deliberadamente pelo navio japonês Shonan Maru, de 490 toneladas. Pete escapou por muito pouco e o vídeo da colisão rodou o mundo. Algumas horas depois da batida, ele tomou uma decisão extrema: invadiu o navio. A guarda costeira foi acionada e ele acabou preso, condenado a cinco meses numa prisão de segurança máxima no Japão por agressão, transgressão, vandalismo e posse de arma branca (confira mais sobre a aventura no quadro acima).

Foi em sua minúscula cela que o ativista teve a ideia que gerou o The Operatives. “Foi lá que planejei tudo o que faço hoje”, diz ele. Pete percebeu que por mais boa vontade e dedicação com que os grupos de ativismo ambiental lutavam pelo planeta, nenhum deles tinha preparo suficiente para encampar as brigas mais perigosas. E eles compram muitas brigas perigosas, com socos, tiros, sangue, tropas. “Eu vi nisso a oportunidade de formar uma unidade de militares de carreira e pessoas com experiência em operações especiais”. Neste momento, Pete e os Operatives já estão prontos para deflagrar sua segunda e mais nova campanha, que vai ao ar na TV neozelandesa ainda neste semestre.