DA CADEIA AO ESTRELATO

Ele veio da periferia de Boston, foi preso em uma tentativa de assalto, experimentou drogas e só completou o colegial há dois anos. Mesmo assim, Mark Wahlberg se tornou um fenômeno em Hollywood e hoje fatura US$ 35 milhões ao ano

 

Por Elaine Guerini, de Los Angeles

 

STATUS 50 - PERFIL

Mark Wahlberg terminará o ano US$ 35 milhões mais rico pelos cálculos da revista Forbes. Sempre presente na lista das celebridades que mais faturam nos EUA, o ator americano de 44 anos embolsará a fortuna não só por estrelar Ted 2, a partir de 27 de agosto nas telas, dando sequência à história do ursinho de pelúcia obcecado por sexo e drogas que arrecadou US$ 550 milhões em 2012. Parte da bolada vem da sua produtora, a Leverage Management, que assina Entourage – Fama e Amizade, com estreia também em agosto. Essa é a versão cinematográfica da série de TV parcialmente inspirada nas loucuras que Wahlberg aprontava quando começou a se dar bem em Hollywood, no final dos anos 90. “Hoje quero ser o melhor no que faço. Não só como artista, mas como homem de negócios’’, diz Wahlberg.

Nada mal para quem teve uma adolescência marcada pelo abuso de drogas e problemas com a polícia de Boston, onde o ator nasceu e cresceu. Aos 16 anos, Wahlberg foi condenado a dois anos de prisão (cumprindo 45 dias na Casa de Correção Deer Island) por agredir um vietnamita de meia idade durante um assalto, em 1987. “O meu passado me faz apreciar muito mais o que conquistei. Como os meus dias de bebedeiras, drogas e bagunças ficaram para trás, consigo me dedicar ao que realmente importa, o meu trabalho e a minha família”, diz o ator, casado com a modelo Rhea Durham e pai de quatro crianças (Ella, de 11 anos, Michael, 9, Brendan, 6, e Grace Margareth, 5). “Tive muita sorte pela oportunidade de me reerguer. As pessoas só oferecem ajuda quando você está pronto para ser ajudado. Tenho amigos que ficarão na cadeia pelo resto da vida.”

Quando Wahlberg foi solto, seu irmão mais velho, Donnie Wahlberg, do New Kids on the Block, deu uma força, ajudando-o a encontrar o seu nicho no mercado musical. Ele chegou a abrir o show da banda do irmão como Marky Mark (seu nome artístico como rapper). Depois de alguns hits, como “Good Vibrations’’ e “Wildside”, Wahlberg ganhou popularidade assinando contrato como garoto-propaganda das cuecas da Calvin Klein. Graças ao outdoor da marca, com o ator exibindo o tórax esculpido em plena Times Square, de Nova York, em 1992, choveram convites de Hollywood. Seu primeiro sucesso foi Boogie Nights – Prazer Sem Limites (1997), no qual o diretor Paul Thomas Anderson o escolheu para encarnar o astro pornô bem dotado. “Ainda bem que o meu agente era o mesmo de Anderson na época, o que fez o papel cair nas minhas mãos. Daí em diante, tudo começou a dar certo para mim.” A seguir, trechos da entrevista que Wahlberg concedeu à Status.

O que leva você a sempre figurar nas listas dos mais bem pagos de Hollywood? Ambição?
– Só posso dizer que me vejo, acima de tudo, como um empreendedor. Talvez eu tenha essa necessidade de me aventurar em várias frentes profissionais e de criar empregos pelo fato de a minha família ter tido tão poucas oportunidades quando eu era pequeno. Adoro poder sentar diante de CEOs de estúdios e outras grandes empresas para discutir as minhas ideias para filmes, séries e outros projetos. Quem diria que um garoto como eu, nascido e criado na periferia de Boston, poderia um dia chegar aqui?

E tudo isso sem um diploma de faculdade. É verdade que você só se formou no colegial recentemente?
– É. Como cresci rodeado de más influências, metido em confusão, abandonei a escola aos 13 anos, perdendo a chance de estudar. Quando olho para trás, é disso que eu mais me arrependo. Só terminei o colegial em 2013, quando completei um curso online. E, se encontrar tempo, ainda quero fazer uma faculdade. Sinto a responsabilidade de mostrar aos meus filhos que educação é importante. Não quero ouvir nenhum deles dizendo: Se você não estudou, por que eu precisaria?

Diria que trabalha mais pelo dinheiro, pelo poder ou pela fama?
– Muitas vezes, uso outros chapéus, como o de produtor, simplesmente porque gosto de me arriscar no que faço e não quero ter ninguém acima de mim dizendo que não posso. Só isso. Definitivamente não é pela fama. Se pudesse mudar algo na minha vida, certamente gostaria de voltar a ser um sujeito anônimo. Claro que aos 20 e poucos anos eu adorava fazer sucesso. Até porque era o jeito mais fácil de conhecer belas mulheres (risos). Foi assim que conheci a minha Rhea.

E como não deixar o poder subir à cabeça?
– Poder é algo muito perigoso. É por isso que procuro manter os pés no chão, sendo um cara humilde, para dar um bom exemplo para meus filhos. Sou grato por poder criá-los num ambiente totalmente diferente do meu, de quando eu era criança. Mas por eles terem tudo de mão beijada, preciso me certificar de que eles cresçam sem afetação, o que é complicado.

Qual o segredo para vencer em Hollywood?
– Disciplina, algo que eu não tinha no início de carreira (risos).

O que você aprontava?
– Num dos primeiros filmes que fiz, Medo (1996), saí do set, em Vancouver, no Canadá, simplesmente porque fiquei entediado. Liguei para uns amigos e me mandei para Boston. Quando telefonei para o diretor, avisando que estaria fora nos próximos dias, ele gritou comigo, perguntando se eu tinha perdido a cabeça (risos). Ainda bem que percebi naquele momento como a minha postura era vergonhosa. Tive sorte por não ter sido despedido. Só que eu era ainda pior quando atuava na área musical…

Pior como?
– Eu era terrível. Tenho pena das pessoas que tiveram de lidar comigo naquela época. Eu chegava para trabalhar quatro horas atrasado e ainda tinha coragem de parar tudo, caso recebesse um telefonema, e só voltava para dar continuidade quando me dava na telha (risos). Hoje eu entendo que sou uma peça num grande quebra-cabeça e tenho respeito pelos outros. Muitas vezes, acordo às 4h30 da manhã.

Para fazer o quê?
– Exercícios. Não consigo imaginar a minha vida sem uma rotina de atividade física. Quando preciso estar pronto para as filmagens às 7h da manhã, acordo às 4h30 para malhar (na academia de ginástica que Wahlberg tem em casa). Até nas minhas férias, esteja onde estiver, acordo cedo para malhar. Muito da disciplina que tenho hoje adquiri com a prática de exercícios físicos. O resto eu conquistei com a fé. Sou daqueles católicos que ainda vai à missa e me orgulho disso.

É verdade que você se recusou a fazer piadas de cunho religioso nos dois filmes Ted?
– É. Tenho por princípio não dizer nada que possa ser considerado ofensivo do ponto de vista religioso. Não só com relação ao catolicismo como qualquer outra religião. Minha sorte é que Seth MacFarlane (roteirista e diretor dos filmesTed) entende e aceita. Quando eu reclamo, ele tira essa piada das minhas falas e simplesmente a põe na boca do urso (risos). Aí não é mais responsabilidade minha.

É um terço o que você traz no pescoço (por baixo na camiseta)?
– É. Embora eu não costume rezar o terço, guardo esse presente que recebi de uma escritora espanhola. Ela ajuda a organizar a Jornada Mundial da Juventude com o Papa Francisco.

STATUS 50 - PERFILCena do filme Ted 2. 

STATUS 50 - PERFILCena do primeiro filme, a história do urso que só quer curtir a vida loucamente

Como encarou a proposta de Ted 2?
A maioria das sequências, mesmo as de filmes originais, acaba enveredando pela mesmice, virando apenas um caça-níquel, não?
Concordo. Apesar de ter rodado um longa da franquia Transformers, no ano passado, para mim não conta como continuação, por ter sido o meu primeiro filme na série. Eu não tinha participado de nenhuma sequência até Ted 2. Sempre soube que, se caísse nessa tentação, precisaria ter uma história que justificasse o retorno dos personagens.

É o caso aqui?
– Acredito que sim. Nessa segunda parte, Ted se casa e quer ter um filho. Obviamente, isso não é possível, já que ele não tem um pênis. Discutimos então inseminação artificial e até adoção. Mas Ted não pode ser pai por não existir aos olhos da Justiça. É aí que damos início a uma luta pelos direitos civis do urso, o que reflete a questão das minorias sociais. Mantivemos o tom irreverente e alucinado da primeira comédia, enquanto abrimos novas discussões.

– O que Ted representa para você? Ele seria uma espécie de alter ego de homens que queriam passar o tempo todo transando, enchendo a cara ou fumando maconha, mas não podem?
– É um pouco disso, sim. Talvez ele simplesmente represente a amizade masculina. Apesar de Ted ser de pelúcia, a relação dele com o meu personagem é real. E homens são crianças grandes que, na companhia de outros caras, viram moleques de novo, aprontando todas. Eu sou um pouco assim quando encontro os meus amigos até hoje. Quando jogamos golfe, por exemplo, o jogo é quase sempre terrível, cheio de trapaças (risos). Mas isso não nos impede de sermos responsáveis pais de família. Só gostamos de fazer bagunça de vez em quando. Mas nada que eu não possa dividir com a minha mulher, claro.

Inicialmente, sua mulher disse mesmo que Ted poderia arruinar a sua carreira?
– Sim. Nós estávamos no carro, a caminho da festa do Oscar, em 2011, quando O Vencedor concorria a muitos prêmios, inclusive de melhor filme. Como o meu agente e a mulher dele estavam conosco, nós falávamos sobre as ofertas de filmes que eu tinha recebido. Quando disse para minha mulher que queria rodar Ted, ela me chamou de idiota (risos). Disse que era a pior ideia que ela tinha ouvido e que o filme acabaria com a minha carreira.

E o que ela disse depois, quando o filme arrecadou milhões de dólares nas bilheterias?
– Muito antes disso, ela já sacou que eu tinha razão. Assim que Rhea viu a primeira edição do filme, antes da estreia nos cinemas, ela riu histericamente, como todo mundo. Espero que ela confie mais em mim daqui para frente (risos).

No filme anterior, você rodou uma intensa cena de luta com Ted, o que deve ter sido complicado, já que precisou filmar tudo sozinho. E na sequência?
– Aqui fiz algo ainda pior… Tive de cantar e dançar em público, o que odeio fazer. Danço com Ted na festa do seu casamento, com uma banda ao vivo. Imagine a cena: eu dançando sozinho, de smoking, diante de 500 figurantes.

Como não gosta de cantar e dançar? Você não foi rapper?
– Fui, mas aquilo foi uma outra época da minha vida. Eu até teria ficado mais à vontade, se fosse um rap, por eu ainda gostar daqueles movimentos. O problema aqui foi a dança de salão. Não é meu estilo. Eu me senti ridículo. Pena ter rodado a cena às 7 da manhã. Se fosse um pouco mais tarde, eu pelo menos poderia ter tomado uns drinques antes (risos).

Como seus filhos se sentem por não poderem ver Ted e Ted 2, mesmo com o ursinho nos cartazes?
– Eles ficam loucos. Recentemente, levei o meu filho mais velho, de 9 anos, para assistir Velozes & Furiosos 7’, ainda que minha mulher não quisesse. Assim que ele viu o trailer de Ted 2, começou a implorar para assistir o filme. Mas não dá. Apesar da linguagem vulgar e das piadas com drogas e com sexo, até deixaria que meus dois meninos vissem o filme. Minha filha mais velha, de jeito nenhum. Confesso ser um pai superprotetor com ela.

Por quê? Talvez pelo que já tenha aprontado com mulheres no passado?
– (Risos). Provavelmente. Você pode imaginar… Deve ser o tal carma.