FEIOS, XULOS E MALVADOS

Ricardo Coimbra e Bruno Maron estreiam com indecentes álbuns de quadrinhos

 

Por Ronaldo Bressane

 

STATUS 50 - APPROACH, ENTRELINHAS

Em comum, Bruno Maron e Ricardo Coimbra têm o alto poder de fogo contra hipocrisias e idiossincrassias do mundinho pseudo-moderninho e da orgulhosa “inguinorança” do brasuca médio. Em tempos de brigas histéricas nas redes sociais, eles têm farto material para divertir e nos fazer gargalhar de nossos ridículos cotidianos. Embora os alvos sejam parecidos, os estilos de ambos são bem diferentes. O carioca Maron desde 2010 responde pelo Dinâmica de Bruto, blog que volta e meia viraliza suas tiras pelo Facebook e deu nome à antologia que publica pela editora Maria Nanquim. Seu traço falsamente tosco lembra Millôr Fernandes; ao contrário da maioria dos cartunistas, porém, seu texto não é sintético, e sim verborrágico – por vezes sua letra horrível vaza em cima dos desenhos. O mundo corporativo, a competitividade “solidária” do neocapitalismo, os espertalhões do mundo do entretenimento e da política são os temas de suas tiras povoadas por figuras grotescas, distorcidas e pixadas em cores berrantes. Já o mineiro Coimbra é minimalista: suas tiras são em preto e branco, não raro bem deprimentes. Niilista no talo, autodepreciação é o veneno que afoga os leitores do blog Vida e Obra de Mim Mesmo, de onde foram tiradas as tiras deste Vida de Prástico (editora Gato Preto). O mundinho hipster e sua busca por autenticidade – que leva em conta a marca mais ecologicamente adequada de pomada para passar na barba pintada de azul – são agraciados com piadas corrosivas, bem como os falsos ateus, os falsos machões, os falsos profetas e os falsos artistas.

STATUS 50 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

Alimento pra cabeça

“Artista: indivíduo que faz arte, oscila entre a megalomania e a depressão resultante dos seus poucos contatos com a realidade.
Belo: cantor de pagode famoso pelo azar no tráfico de entorpecentes (…) Romantismo: movimento do século 19 em que todo mundo se apaixonava por todo mundo mas ninguém comia ninguém.” Estes são alguns dos verbetes do “Dicionário Contemporâneo de Arte Contemporânea”, escrito pelo cartunista Rafa Campos para a edição 20 da revista Serrote (Instituto Moreira Salles).

STATUS 50 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

Linguagem é um vírus

O premiado Pílulas Azuis (editora Nemo), do quadrinista suíço Frederik Peeters, tem um corajoso mote. A linguagem compassiva e o traço simples de Peeters abordam todos os lados de um tema complicadíssimo: como é apaixonar-se por uma garota incrível que, além de ter HIV, tem também um filho soropositivo? Ao final do livro, passadas todas as emoções, aprendemos que o bicho nem é tão terrível como se apresenta. Destaque para a fabulosa imagem do rinoceronte no consultório médico – uma metáfora para a Aids que assombra a peculiar família de Peeters.

STATUS 50 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

Idílico pesadelo
Narrado com simplicidade astuciosa, este pequeno romance de Toine Heijmans é uma obra-prima impactante. Em No Mar (Cosac Naify) um pacato holandês faz uma viagem de três meses ao lado da filha de 7 anos em seu próprio veleiro, mas a menina desaparece. Em alto mar.

STATUS 50 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

Guerra quente

Um jornalista quase explode durante um atentado no Paquistão; como se isso não fosse por si só complicado, sua namorada russa está grávida e seu amigo afegão morre na explosão – não sem antes lhe soprar uma pista para uma misteriosa trama política. O mais inesperado aqui: o jornalista é brasileiro – e o autor do romance, também. Ariana (Record), romance de estreia de Igor Gielow, diretor da sucursal da Folha de S.Paulo em Brasília, é temperado por um ponto de vista nada usual: o de um jornalista de “terceiro mundo” cobrindo conflitos insondáveis entre o Paquistão e o Afeganistão. Status conversou com ele:

STATUS 50 - APPROACH, ENTRELINHAS
O livro do jornalista Igor Gielow é um thriller viciante 

– O quanto do Igor tem no Mark? E o quanto a não-ficção ajudou e o quanto atrapalhou em sua ficção?
– Partido do pressuposto de que todo escritor traz, de alguma, suas impressões para o texto, sim, há muito de Igor em Mark. Mas o principal fator que me aproxima do personagem é a busca em dar um caráter realista à história. Sobre o estilo, é uma coisa complicada entrar na ficção depois de duas décadas de jornalismo. Lutei muito para que a secura formalista do meu ofício (ao menos, acho que é o que devemos buscar) não contaminasse a prosa.

– Como foi o processo de criação?
– A parte mais rigorosa, a pesquisa, fiz ao longo dos dez anos em que cobri a “guerra ao terror” no Paquistão e no Afeganistão. Mas só fui trabalhar na trama em 2009, quando tirei férias e escrevi tudo de uma só vez, logo depois de voltar de uma viagem pela região. Em 2011 passei o original para um leitor crítico, que gostou do trabalho, mas acabei não achando editora. Desisti até 2014, quando tive um estalo de dar uma limpada no texto e enviar para uma agente, que não só gostou como aceitou me representar e colocou o livro no mercado.

STATUS 50 - APPROACH, ENTRELINHAS