GREGORIO DUVIVIER

Ator, roteirista, cronista, comediante, ele fala sobre humor, internet, homofobia, política e faz questão de deixar bem claro: “adoro o rótulo de esquerdista. Não estou nem aí”

 

Por Pedro Henrique França, do Rio de Janeiro  |  Foto Daryan Dornelles

 

STATUS 50 - ENTREVISTA

É fim de tarde de uma terça-feira quando Gregorio Duvivier nos recepciona na nova sede da produtora Porta dos Fundos, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O prédio de quatro andares é ainda mais espaçoso que o anterior. Demanda de uma empresa que não para de crescer. Passeamos por todos os pavimentos, ainda com cheiro de tinta e mobiliários espalhados. No subsolo, exatamente na sala de figurinos, encontramos o colega João Vicente de Castro vestido em trajes hilários e que vão servir para um seriado inédito desenvolvido pelo coletivo de humor para o canal Fox. É o primeiro projeto para o canal pago desde que assinaram contrato, ano passado, e começaram a veicular esquetes já exibidas nas plataformas virtuais do grupo. Sociedade formada por Gregorio e João, além de Fábio Porchat, Kibe Loco e Ian SBF, a Porta dos Fundos ainda roda esse ano seu primeiro longa-metragem. No paralelo, Gregorio ainda acaba de estrear Portátil, espetáculo de improvisação com atores da Porta dos Fundos em que retoma seu início de carreira, quando estourou com “Z.É.: Zenas Emprovisadas”, ao lado de Marcelo Adnet. Em excursão recém-inaugurada, “Portátil” chega ao Rio em setembro e depois deve ir a São Paulo.

Ainda lhe sobra(!) tempo para escrever os artigos semanais publicados na Folha de S. Paulo. Foi ali, ao comentar sobre política nas eleições passadas e declarar seu voto em Dilma Rousseff no segundo turno, que viu a pecha de “esquerdista” colar em sua imagem. Em um badalado restaurante no Leblon, o Celeiro, foi agredido verbalmente e ameaçado por um senhor que gritava no espaço. Tirando o incidente, vestiu a carapuça. “Adoro o rótulo de esquerdista”, diz.

Além de um novo livro de crônicas, a ser publicado pela Companhia das Letras, Duvivier acaba de lançar o filme Desculpe o Transtorno, de Tomás Portella, em que divide o protagonismo com a ex-mulher Clarice Falcão, que continua sua colega do Porta. Climão zero. “A gente já era amigo antes, não fazia sentido deixar de ser depois [de terminar]. Somos parceiros desde sempre. Não é porque a gente não tem mais uma relação amorosa, que não podemos ter uma relação afetiva-profissional”, salienta.

Com apenas 29 anos, Gregorio Duvivier é uma usina de ideias, criações e reflexões, especialmente sobre o Brasil e a sociedade. Em 1h30 de entrevista, discorre sobre “uma elite muito apegada ao poder” e o PMDB, “um câncer que se alimenta das deficiências do sistema”. E dá a receita do sucesso que fez de um canal de internet um conglomerado do humor. “A gente leva a piada muito a sério”.

– Programas como Tudo Pela Audiência, do Multishow, e Tá no Ar, da Globo, satirizam a própria televisão e o vale-tudo pelo ibope. O Zorra Total também foi repaginado, está mais moderno e ácido. Você acredita que a televisão brasileira amadureceu seus conteúdos de humor?
– Muito. A Globo deu um passo muito importante com o Tá no Ar e o Zorra, em direção a um humor mais livre mesmo, como a emissora já fez, no passado. Durante muito tempo a Globo foi vanguarda em todo sentido no humor. E, por conta do conservadorismo, tinha perdido um pouco este lugar. Acho muito legal ver a emissora de volta à autocrítica, ao humor mais auto-irônico.

– Quando estouraram com o Porta dos Fundos, vocês diziam que não viam espaço para o tipo de humor que faziam na televisão. E, quando fecharam com a Fox, a justificativa foi de que o canal é fechado e o humor de vocês não caberia na TV aberta. Hoje seria possível?
– Hoje eu vejo que sim, que seria possível. Mas o bom de não ter espaço antes é que a gente criou o nosso próprio espaço, a gente tem uma empresa que é nossa.

– E você consegue entender os motivos do sucesso do Porta dos Fundos?
– Somos criativos e quem manda na gente é a gente mesmo. Nunca aceitamos muito ser mandados. E isso é fundamental quando se está criando um produto artístico e, mais ainda, quando se fala de humor. Porque não existe humor sem liberdade, pelo menos não o humor em que eu acredito. Um ingrediente importante do Porta é a nossa desobediência a tudo que disseram pra gente que não podia. E a seriedade no que diz respeito ao humor. A gente adora discutir piada. Uma frase que a gente nunca vai ouvir aqui no Porta é “gente, mas isso é só uma piada”, porque piada é o que a gente tem de mais precioso e o que movimenta todas as pessoas que estão aqui. É a piada que paga as contas, os funcionários, o aluguel. A gente leva a piada muito a sério.

– O que você jamais faria em seu próprio conteúdo de humor?
– A piada velha. Ela é o que menos interessa pra gente no Porta. A piada da loira burra, do gay. Gosto do humor que provoca expectativa, que te surpreende.

– Ano passado, durante a campanha eleitoral, você escreveu algumas crônicas na Folha de S. Paulo com referências políticas e chegou a ser agredido verbalmente por ter declarado voto na presidente Dilma. As pessoas ainda te associam à política?
– Ainda. É muito doido isto. Num país que está bipartido, as pessoas acabam jogando de um lado ou do outro. E não entendem as nuances, o que é o voto crítico. Voto não é uma adesão completa, você não está tatuando uma coisa no seu rosto. Não estou nem aí. Eu adoro o rótulo de esquerdista. Porra, sou de esquerda. Se alguém não é, não tenho nada contra, cada um acha o que quiser. Mas, pra mim, é tão natural ser a favor do aborto, do casamento gay, da maconha, das liberdades pessoais intransferíveis… Não queria que me rotulassem a algo ao qual não me identifico.

– Como assim?
– Eu não poderia ser conhecido como o garoto do refrigerante, porque eu não tomo. O Roberto Carlos fala da Friboi e não come carne, mas ele se vinculou a isso, culpa dele. Aí acho grave, porque você está se veiculando a uma coisa em que não acredita. Mas nesse caso, da Dilma, eu acreditei, votei e não me arrependo. Era crítico na época e continuo crítico ao governo. Mas entre o que a gente tinha era o que me parecia mais sensato. E continua parecendo.

– E o que te parece insensato no atual governo?
– É bom lembrar que o atual governo é oposição. O governo hoje é o PMDB, o Eduardo Cunha tira qualquer ministro que a Dilma botar. Eles mandam e desmandam, representam o reacionarismo, o atraso, mantêm o Brasil no século 19. Agora tem uma pesquisa para avaliar se a concepção de família é só entre homem e mulher. O fato de haver uma pesquisa já é criminosa, porque não se pesquisa se heterossexuais e homossexuais têm o mesmo direito. Isso é óbvio ou deveria ser. E no Brasil isto ainda está sendo pesquisado.

– O Fla-Flu das últimas eleições foi bastante acirrado e, de certa forma, ainda continua. Essa polarização é saudável?
– É muito importante que as pessoas estejam divergindo sobre política, porque é sinal de que está havendo democracia. E isso é bom. Mas a democracia no Brasil é muito recente e frágil. Temos pouco tempo de democracia ininterrupta. Acho ruim quando vira Fla-Flu. As pessoas acham que política é como futebol, que você não muda de torcida. A opinião política é transformável pela conjuntura, ela não pode ser maior que os fatos. Mas no Brasil não é assim. Então as mesmas pessoas que estavam indignadas com o escândalo da Petrobras não se indignaram com o escândalo da Zelotes (operação da PF que investiga um esquema milionário de sonegação fiscal), com desvio muito maior. E o petista apaixonado também faz vista grossa para o escândalo do PT. Isto é muito ruim: botar a sua filiação partidária à frente dos fatos, da realidade.

– Você falou sobre uma elite apegada ao poder. Mas também há representantes de esquerda na elite.
– Existe uma falsa relação entre ser de esquerda e ter que fazer voto de pobreza. Todo mundo sabe que Karl Marx nunca falou isso. Me incomoda muito eles pensarem que uma pessoa não pode advogar se não for em causa própria. Uma pessoa rica de esquerda está dizendo “Eu quero, mas não é pra mim, é para os outros”. Num curto prazo, é claro que eu quero que o dólar esteja baixo, adoro viajar para fora. Mas no longo prazo, isso não resolve. Tem um cara que escreveu um artigo sobre ir morar na Holanda. Ele dizia: “Aqui eu lavo minha privada, mas posso sair com o laptop no metrô”. No Brasil, se você tiver um pouquinho de dinheiro, vai ter uma pessoa que lave seu banheiro, mas você não pode sair. Existe uma relação direta aí, entre desigualdade social e criminalidade. Enquanto tiver miséria vai ter criminalidade e as pessoas não entendem isso. Para ter um país seguro é necessário ter distribuição de renda. Um país mais justo é melhor para todo mundo, inclusive para os ricos.

– A internet concentra muitos “haters”, que disseminam a raiva em comentários de notícias ou redes sociais. Mas você também a citou como uma ferramenta democrática no Brasil. Afinal, ela é benéfica ou é maléfica para a sociedade?
– A internet é muito benéfica, um milagre, a melhor coisa para a democracia. O que falta no Brasil é democratizar mais a própria internet. É claro que ela exige do leitor uma inteligência que nem sempre ele tem, você não pode ler e acreditar em qualquer portal, tem de ver se aqueles dados são comprovados antes de compartilhar os factóides. A internet é muito perigosa, mas de modo geral eu acho que ela é muito benéfica.

– Por que casamento gay, aborto e legalização da maconha ainda são assuntos que ainda incomodam tanto a sociedade brasileira?
– O Brasil é um país muito contaminado pela religião, onde se faz uma leitura seletiva da Bíblia. Ela recrimina o relacionamento homossexual, mas também diz que não pode cortar o cabelo ao redor das têmporas e nem misturar carne com queijo. E eu não vejo nenhum pastor seguindo isso. No caso da maconha, teve uma campanha violenta muito antiga e ligada ao racismo, por ser uma droga dos negros, de marginais. O casamento gay, para mim, tem muito a ver com o machismo, assim como o aborto. A própria homofobia no Brasil está ligada ao machismo, porque o homossexual passivo, por exemplo, sofre muito mais preconceito do que o ativo. Um deputado falou outro dia “se você aparecer em Goiânia eu vou comer seu c…”, como se isso não fizesse dele um homossexual. E acho tudo isso tem a ver também com a questão do poder. O homem não fica confortável com a equidade entre os gêneros, se sente ameaçado.

– Esse momento politicamente instável é bom para o humor?
– Eu acho muito bom, na verdade, muito saudável. O humor se alimenta muito disto, da indefinição, da dúvida, dos absurdos. Os absurdos são um bom combustível.

– Você é uma pessoa aparentemente tímida. A arte foi um instrumento de socialização?
– Não me considero mais tímido. O teatro me fez relativizar a exposição, entender que você está sempre atrás de uma máscara. Você aprende no teatro não a se expor, mas, pelo contrário, a se proteger da exposição. Acho que o teatro e o humor me fizeram deixar de ser tímido. No humor você percebe que não tem problema nenhum em ser ridículo. Isso é fundamental: você perceber que o ridículo não mata ninguém. Ele te ajuda a ganhar afeto, carisma. Não existe nada de errado em ser ridículo.

– Você teve um longo relacionamento com a atriz Clarice Falcão, e continuam trabalhando juntos. Inclusive, estão ambos no filme Desculpe o Transtorno, que acaba de estrear. Amizade entre ex é, portanto, possível e saudável?
– Ah, Clarice é a pessoa que eu mais admiro no mundo. Acho ela um gênio do humor, da música, do texto, do roteiro. É uma pessoa que faz tudo com maestria. A gente morre de rir juntos. Ela me constitui muito – e espero constituir ela também. A gente fica muito maior juntos. Quero levar para a vida, não só profissional, e tudo indica que vou levar. Acredito obviamente em amizade e muito mais do que isso, em todo tipo de relação, entre homens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres. Nada é impeditivo.