UM CRAQUE NA MODA

O atacante Lucas, do Paris Saint-Germain, encarna o papel de um executivo que sabe como combinar as peças clássicas

 

Fotos Fred Othero Texto Amauri Segalla  |  Edição de moda Fabio Paiva  Coordenação Ariani Carneiro  |  Produção de moda Murilo Mahler

 

STATUS 50 - MODA

No começo de 2013, quando trocou o São Paulo pelo Paris Saint-Germain por R$ 108 milhões, o atacante Lucas Moura era só um garoto de 20 anos que morria de vergonha do assédio de estranhos, ainda muito ligado ao Jardim Miriam, bairro na periferia paulistana, e que não tinha a menor ideia do que seria viver na capital francesa. Mais de dois anos depois, Lucas é hoje uma pessoa diferente. Titular de um time recheado de craques, o brasileiro está à vontade em uma das cidades mais belas do mundo. Além de elevar a sua carreira a um outro nível, viver na França se tornou uma oportunidade de crescimento pessoal. “Passei a ser um sujeito mais antenado”, diz o craque. Nesta entrevista, ele fala da experiência europeia, analisa o desastre do Brasil na Copa do Mundo, revela os desafios da adaptação, que incluíram até uma briga no vestiário com o sueco Ibrahimovic, e diz que tem esperança de voltar logo à seleção.

Como foi a experiência de fazer um ensaio de moda?
– Foi bacana. Gostei principalmente de fazer looks diferentes do meu estilo.

De que forma Paris mudou os seus gostos, o seu jeito de ser?
– Mudou principalmente o meu estilo. Paris é a capital da moda, todo mundo se veste bem. Até para ir ao jogo eu tenho que usar terno. Aqui eu preciso me policiar na hora de sair de casa. Não posso estar vestido de qualquer jeito. Viver em Paris me tornou uma pessoa mais antenada.

Fora do ambiente de futebol, que lugares você curte na cidade?
– Não sou de sair muito. Na verdade, sou bem caseiro. Gosto de passear naquela praça em frente à Torre Eiffel. É um lugar que traz paz. Adoro ficar ali, curtindo o movimento.

Tem boas dicas para passar?
– Sou freguês do L’Avenue, um restaurante badalado e com comidas variadas. Gosto também do Cesar, um italiano que tem massa excelente, e da Pizza Pino, na Champs Élysées, que funciona 24 horas por dia.

E as baladas de Paris?
– Estou fora de baladas. Não curto. Gosto de ficar em casa, curtindo a minha namorada e a minha família. Festa não é comigo. Não gosto de álcool. Nem vinho francês eu bebo. Já experimentei, mas não rolou.

Você fala francês fluentemente?
Consigo me virar bem com a comissão técnica e o pessoal do clube. Mas foi difícil aprender, porque sou muito tímido e tenho vergonha de falar errado. Como o Paris Saint-Germain tem muito estrangeiro, você acaba demorando mais para aprender. Tem argentino, holandês, sueco, italiano. O idioma mais falado no vestiário é o italiano, porque a maioria jogou na Itália.

A relação que você tem com os torcedores franceses é diferente da que tinha com os brasileiros?
– Na Europa, os torcedores respeitam mais o jogador. No Brasil, é uma mistura de amor e ódio. Se você faz um jogo bom, é o rei. Se vai mal, é o vilão. Os torcedores brasileiros agem muito com a emoção. Em Paris, eu consigo andar tranquilamente nas ruas. Às vezes há um pequeno tumulto, mas nada comparado com o que acontece no Brasil.

O futebol brasileiro ainda é respeitado na Europa, mesmo depois do 7 a 1?
– Não dá para negar que não é mais tão respeitado quanto antes. As pessoas sabem do momento difícil que o futebol brasileiro vive. O respeito que tem é pela história, pelos jogadores que já brilharam na Europa.

Depois de um ano, dá para analisar mais friamente o que aconteceu na Copa?
– Precisamos ter a humildade de reconhecer que o futebol europeu está à frente do nosso. Coletivamente, os alemães deram uma aula para a gente. Por isso aconteceu o desastre. O futebol brasileiro aposta muito no improviso, na qualidade técnica dos jogadores, e deixa de lado a parte tática e coletiva. Isso pesou bastante naquele resultado.

No fundo, foi sorte você não ter sido convocado para a Copa. Pelo menos não fez parte do vexame…
– Muita gente diz isso para mim, mas seria hipócrita falar que eu não queria ter participado da Copa.

Ficou magoado com o Felipão?
– Não tenho mágoa nenhuma. Aconteceu, e eu não posso fazer nada para mudar isso. Foi uma opção dele. Agora é bola para frente.

Você tem esperança de voltar para a seleção?
– Tenho uma expectativa enorme. Mas sou um jogador jovem, que sabe esperar a sua hora.

Você mudou o seu jeito de jogar na Europa?
– Acrescentei a parte tática ao meu jogo. Passei a jogar sem bola, a respeitar a estrutura definida pelo treinador. Por isso acho que me tornei um jogador mais completo.

No São Paulo, você ficou conhecido pelas arrancadas. Na Europa, tem a mesma liberdade?
– Tenho um pouco, mas não é a liberdade que eu tinha no São Paulo. Aqui tenho que respeitar o esquema tático. Por isso, acabo me prendendo um pouco mais. Mas sei que não posso obedecer 100% o treinador e o esquema tático. Às vezes a gente precisa ter personalidade para fazer algo diferente.

Você demorou para explodir no PSG. O que aconteceu?
– Foi uma fase de adaptação. É um futebol diferente e você começa praticamente do zero. Também peguei um clima muito frio quando cheguei, menos 8 graus. Tive saudade do Brasil. Além disso, a disputa pela vaga de titular é muito grande. Só tem fera no time, jogadores que são titulares em suas seleções. Tudo isso influenciou na adaptação, mas já passou.

O Brasil ainda é um grande formador de talentos para o futebol?
– A diferença entre europeus e brasileiros é na preparação. O Brasil continua sendo uma grande fábrica de talentos, mas a preparação na Europa é melhor.

Melhor como?
– No Brasil é muito mais fácil o talento se perder. A transição da base para o profissional é feita de qualquer jeito e o cara acaba se perdendo. Na Europa, o garoto conta com toda a estrutura.

Uma crítica que se faz é que, no Brasil, os técnicos da base têm favorecido jogadores altos e fortes em vez dos talentosos. Isso procede?
– Sim. Eles valorizam mais a parte física. Nas categorias de base, um moleque alto de 12 ou 13 anos vai se sobressair mais do que um baixinho bom de bola. A gente vai formando cada vez mais jogadores altos e fortes. Quem tem talento perde a vez.

É uma pena, porque isso contraria a própria identidade do futebol brasileiro.
– Vai contra a história do futebol brasileiro. Vi muita gente dizer que eu não ia vingar porque era franzino.

É verdade que você fez um tratamento médico para ganhar massa muscular?
– Sempre fui franzino, o menor da turma. Fiz um tratamento de três meses no Hospital das Clínicas de São Paulo. Tomava sulfato ferroso e umas vitaminas que me ajudaram a ficar mais forte.

Os técnicos europeus estão acima dos técnicos brasileiros?
– Não tem nenhum treinador brasileiro em um time de ponta europeu. Não sei se é falta de qualidade, mas algum problema tem.

Você acha que os escândalos de corrupção da Fifa e da CBF atrapalham o futebol brasileiro?
– Não só o futebol brasileiro, mas o futebol mundial. Já passou da hora de tirar as pessoas envolvidas com corrupção e colocar gente honesta no comando. Isso vai fazer muito bem para o futebol.

Você cresceu no Jardim Miriam, um bairro na periferia de São Paulo. Como foi a sua infância?
– Foi maravilhosa, aproveitei muito com o meu irmão e o meu primo. Lembro de cada detalhe, das molecagens, de jogar bola na rua, empinar pipa, brincar de bolinha de gude. Nunca vou esquecer o Jardim Miriam, é um lugar que está no meu coração.

Você passou alguma dificuldade?
– Não. Meus pais sempre trabalharam para me dar boas condições. Mas já passei por situações de perigo, porque era um bairro com muita violência. Vi assalto, tráfico de drogas, pessoas andando com revólver, ouvi tiros à noite. A educação que tive e o sonho de ser jogador de futebol me afastaram das coisas erradas.

Você participou de uma transação que envolveu grandes cifras. Foi difícil manter a cabeça no lugar?
– Futebol hoje em dia envolve muito dinheiro. Se pagam, é porque o jogador vale. O dinheiro nunca mexeu com a minha cabeça, porque nunca esteve em primeiro lugar na minha vida.

Quem é o melhor jogador do mundo?
– O Messi, que é um espelho para mim, por causa do estilo dele.

E o melhor time?
– O Barcelona, pela temporada que fez.

Quais são os craques do futebol brasileiro?
– O Neymar, claro. Tem o Thiago Silva, o melhor zagueiro que já vi, o Marcelo, o Oscar, o Philippe Coutinho, que ainda vai brilhar na seleção.

E o que pensa do sueco Ibrahimovic?
– Ele é de outro mundo. Uma coisa é ver pela televisão, outra é jogar ao lado dele. Durante os treinamentos, ele impressiona. É incrível um cara do tamanho dele ter tanta qualidade.

É verdade que ele pegou no seu pé? Dizem que houve uma briga entre vocês no vestiário e que o Thiago Silva tomou as suas dores.
– Foi uma discussão de jogo. É normal um reclamar com o outro. A gente discutiu no vestiário e o Thiago Silva entrou para acalmar, para acabar com a discussão. Mas a história morreu ali. Hoje a gente se dá muito bem.

A impressão que se tem é que o Ibra é um sujeito marrento.
– Ele tem personalidade forte. Se não gosta de você, vai falar isso na sua cara.

Pretende voltar ao Brasil algum dia?
– Penso em voltar a jogar no São Paulo, que é o clube do meu coração.

Você jogaria em algum time que não fosse o São Paulo?
– Quando eu falo em Brasil, só o São Paulo vem à minha cabeça. Eu nunca jogaria num rival.