ANTONIO BANDERAS

O ator espanhol mais famoso de hollywood fala à Status sobre o filme em que interpreta um dos mineiros chilenos soterrados em 2010, revela que voltou a estudar para ser estilista de moda e conta como será viver Pablo picasso no cinema

 

Foto Matt Carr (Getty Images/AFP)

 

STATUS 51 - ENTREVISTA

Antonio Banderas nunca perdeu o sotaque em Hollywood. “E me orgulho disso”, diz o espanhol nascido em Málaga, que há mais de 30 anos interpreta bandidos, justiceiros, vampiros, dançarinos, boxeadores, líderes políticos e até o Gato de Botas na Meca do cinema. “Os tipos exóticos sempre acabam caindo nas minhas mãos”, brinca o ator de 55 anos, com um dos maiores salários entre os hispânicos da indústria: US$ 12 milhões. Enquanto se prepara para interpretar o compatriota Picasso, um dos artistas mais influentes do século 20, Banderas promove o filme “Os 33”. Com lançamento no Brasil em outubro, o drama relembra o acidente em mina de cobre e ouro no Chile, na região do deserto do Atacama, onde 33 trabalhadores foram soterrados a quase 700 metros de profundidade, em 2010. Seu personagem aqui é Mario Sepúlveda Espinace, o líder dos mineiros que passaram 69 dias presos e foram salvos graças a um meticuloso projeto de perfuração de poço, por onde passava uma cápsula abrigando um trabalhador por vez. O resgate foi assistido ao vivo, por telespectadores do mundo inteiro. “Eu me lembro de ficar eletrizado diante da TV, durante a madrugada, vendo os mineiros saírem, um a um. Eu e minha filha ficamos emocionados”, conta Banderas, referindo-se à herdeira, Stella del Carmen, de 19 anos, da união de 18 anos com a atriz Melanie Griffith, de quem ele se divorciou em julho último. Banderas sempre fez a linha gentleman ao falar de mulheres. Agora mais do que nunca. “A vida continua”, resume o ator, que é o namorado atual da consultora de investimentos holandesa Nicole Kempel, 20 anos mais jovem. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida à Status.

– É verdade que você hesitou em aceitar o papel do mineiro Mario?
– Sim. Já vivi personagens verídicos antes, mas os contextos eram diferentes. Essa história tem algo a mais, pelo mundo inteiro ter assistido ao vivo os mineiros saindo da mina, numa operação que durou quase 24 horas. Quem não se lembra de Mario saindo do buraco gritando e pulando como louco? Assim que o vi, tive certeza de que alguém faria um filme sobre o episódio. Reconheci imediatamente que era material para o cinema, por ser uma história de sobrevivência.

– E isso não seria bom?
– É algo complexo, já que todo mundo conhece o final da história, que é feliz. Por isso, quando me ligaram me convidando para interpretar Mario, achei que não seria uma boa ideia, do ponto de vista da interpretação. Ainda assim, aceitei ler o roteiro. Foi aí que percebi que muitas coisas aconteceram lá embaixo, enquanto eles estavam presos na mina. Coisas que ninguém podia imaginar ao assistir ao resgate pela TV.

– Como a capacidade de Mario de liderar o grupo?
– Sim. Mario foi o homem que impediu que todos lá dentro enlouquecessem ou perdessem a esperança, até fazerem o primeiro contato com o exterior. Por Mario ter tido uma vida dura, desde o momento em que nasceu, ele aprendeu a se virar nas ruas. Isso foi o que o ajudou a administrar os ânimos durante o episódio, racionando a comida e a água. Foi crucial para a sobrevivência de todos, até a chegada da ajuda externa. Sem isso, provavelmente os mineiros teriam sido encontrados todos mortos.

– É interessante perceber o que acontece com os mineiros lá dentro, após o primeiro contato. Eles se deixam afetar pelo status de celebridades instantâneas.
– Quando abriram o buraco de alguns centímetros de diâmetro (inicialmente para passagem de água e comida), todos os sentimentos mais puros começam a ser deturpados. Gosto da cena em que os personagens começam a pensar em tudo o que mais amam na vida, como cônjuges, filhos e até certas comidas. Só que as coisas menos importantes passam a ganhar peso, quando o mundo de fora entra na mina, trazendo as contaminações. Ao receberem o telegrama do Papa e de Barack Obama, eles se sentem superstars, fazendo o espírito do grupo quebrar. Essa é, na verdade, a parte mais instigante do filme para mim. É o momento em que percebemos a transformação dos mineiros. Há uma virada na atitude de Mario quando ele considera uma proposta para escrever um livro sozinho, fazendo da tragédia uma oportunidade de ganhar dinheiro e fama. Isso só prova que todos nós somos iguais, carregando muitas virtudes e fraquezas ao mesmo tempo.

– Acha que os mineiros souberam administrar todo o circo que os esperava do lado de fora?
– Por mais que a frase de Mario seja bonita, dizendo que eles deveriam sair de lá exatamente como entraram, sendo mineiros, sabemos que não é bem assim. Até porque eles não tinham traquejo para isso, por não serem políticos, homens de negócio ou homens do mundo do espetáculo. Viram a fama como uma espécie de rocha, a partir da qual refariam as suas vidas. Mas ninguém sabia como isso funcionava. É muito difícil raciocinar sob essa pressão. Ninguém processa muito bem quando as pessoas passam a querer tirar foto com você.

– Conseguiu se identificar com Mario nesse sentido? Como ator de Hollywood, também foi seduzido pela atenção inicial que recebeu, não?
– Sim. Mas eu tive tempo para ponderar tudo. Estou nessa profissão desde os meus 20 anos. No início, você mal consegue acreditar no que está acontecendo ao seu redor, caindo em certas armadilhas. Só que o tempo me mostrou como eu deveria me portar. Os mineiros, no entanto, não tiveram esse período de aclimatação. Eles passaram da condição de praticamente mortos ao status de super-homens. Como lidar com isso? É muito difícil, sem qualquer preparação. Mario mudou. É só as pessoas perguntarem como foi a experiência para ele carregar na emoção. Há vários Marios hoje em dia, inclusive o que aprendeu a ser ator (risos).

– Sentiu na pele o que é ser mineiro, já que as filmagens foram realizadas em locações reais?
– Sim. Trabalhamos em duas minas de sal, na Colômbia, em Nemocón e Zipaquirá. Filmamos em áreas menos perigosas, claro. Ainda assim, eram muito tóxicas, deixando sempre um gosto metálico na boca. Depois de cair num lago dentro da mina, fiquei cuspindo por dois dias. Foi duro, mas eu sabia que sairia de lá depois das filmagens. Há pessoas que trabalham nas minas por mais de 30 anos, todos os dias. Eles, sim, podem reclamar. Eu não tenho esse direito. Amo o cinema por ele me deixar muito mais consciente do mundo em que vivo, colocando tudo em perspectiva. Depois de uma filmagem como essa, eu me pergunto: vale gastar tanta energia com coisas superficiais? Sem falar que o meu corpo demorou para esquecer essa passagem pela mina.

– Como assim?
– Durante a filmagem nós dormíamos num hotel próximo de um posto de gasolina, na Colômbia. Nada de luxo. Às vezes, sequer tínhamos água quente. Quando eu entrava no chuveiro, tinha de usar um sabonete próprio para quem trabalha em mina e uma escova parecida com a que usamos para limpar carros (risos). Do contrário, a graxa não saía do meu corpo. Na hora do jantar, ainda tínhamos de comer modestamente porque a ideia era perder peso ao longo das filmagens, para reproduzir o que aconteceu com os mineiros. Estávamos na cama por volta das 22h, para acordarmos às 4 da manhã. O mais engraçado era olhar para os lençóis, ao levantar no dia seguinte. Eles ficavam sempre manchados de preto. Eu via a minha imagem na cama, já que o meu corpo continuava exalando toda aquela sujeira durante a noite. Meses depois eu ainda acordava com a cama suja, o que não era nada atraente (risos).

– Ficou amigo de Rodrigo Santoro, ainda que vocês praticamente não contracenem no filme? (Santoro faz o papel do representante do governo chileno que conduz a operação de resgate.)
– Sim. Tenho um grande respeito por Rodrigo, que hoje é meu amigo. Foi ótimo ter jogado um pouco de futebol com ele no Rio de Janeiro (os atores gravaram juntos uma reportagem para o Esporte Espetacular, em junho último). Usei a camiseta da seleção brasileira e dei uma camiseta do meu time, o Málaga, para Rodrigo. Foi emocionante pisar no Maracanã. Quando era garoto, eu queria ser jogador de futebol. Só desisti porque quebrei o pé esquerdo numa partida, aos 16 anos.

– Você retoma um pouco a imagem do latin lover, ao interpretar Picasso no filme que Carlos Saura rodará sobre o pintor, não?
– Há um pouco disso também, já que Picasso passou por muitas atribulações, tanto artísticas quanto amorosas. A ação do filme se concentra nos 30 dias em que ele pintou Guernica, em 1937. Vamos ver o que passava pela cabeça dele quando a obra foi realizada. Naquela época, ele tinha várias mulheres ao mesmo tempo. Uma delas era Dora Maar, que será vivida por Gwyneth Paltrow. O malaguenho é mulherengo por natureza (risos).

– Você também é de Málaga…
– (Risos) Sim. Picasso nasceu perto de onde eu cresci. A caminho da escola eu passava por sua casa todos os dias e via a placa, com o seu nome. Talvez por isso ele tenha sido uma figura muito importante na minha vida. Picasso ainda deixou a cidade com a mesma idade que eu. Sinto uma grande responsabilidade ao interpretá-lo, já que ele foi um dos maiores artistas que o mundo viu. Obviamente, o povo espanhol vai analisar a minha performance com microscópio. Mas vou encarar.

– Daqui para frente a ideia é trabalhar menos como ator? Como a sua carreira no cinema será afetada pela sua decisão de entrar para o mundo da moda?
– Não vou abandonar a profissão que escolhi. O que muda é que levarei a vida de ator paralelamente ao curso de moda que comecei a fazer na Central Saint Martins, de Londres. Apesar dos meus 55 anos, ainda me sinto um cara jovem, a ponto de recomeçar, fazendo algo novo e me arriscando em outro território. O diretor Carlos Saura é uma grande inspiração para mim. Ele continua brilhante, aos 83 anos. Não sei ainda se vou atuar como estilista necessariamente. Mas é certo que terei algum envolvimento com moda, uma área que sempre me interessou. Sinto falta de ser estudante. O curioso é que volto a estudar na mesma época em que minha filha começa a fazer faculdade.

– A sua ligação com moda nasceu um pouco dos ensaios fotográficos para as campanhas de seus perfumes? Ultimamente você tem vendido a imagem de homem maduro que seduz com segurança…
– Talvez. Eu trabalho com a mesma empresa de perfumes de Barcelona há 18 anos, o que provavelmente representa a mais longa relação de uma celebridade com um grupo desse setor. Graças à associação, sempre me senti muito à vontade nesse universo. Sobre o meu perfume, acho que os homens que o usam não têm do que se reclamar. Principalmente os solteiros (risos).