BRAÇOS DE AÇO

Ele faz caras e bocas, trava batalhas psicológicas e chega a entortar os seus oponentes. Conheça Felipe Ducas, o brasileiro que pode se tornar campeão mundial de luta de braço

 

Por Jr. Bellé | Foto João Castellano

 

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A transmissão era ao vivo e os principais nomes do rúgbi estavam ali no programa Footy Show, do canal 9 da Austrália, para disputar o Iron Arm Challenge, um campeonato de luta de braço para angariar recursos para uma instituição de caridade. O cenário estava montado. De um lado o gigante Wendell Sailor. Do outro, o não menos troglodita Ben Ross. Eles se olharam, fecharam a cara e se posicionaram para o embate. Ao sinal verde, começaram a luta. Mas tudo deu muito errado. O braço de Ross estalou, caiu para o lado e uma dor insuportável passou a dominá-lo. “Foi provavelmente a coisa mais dolorosa que já senti na vida. Meu osso quebrou ao meio e os músculos ficaram em espasmo por 40 minutos, até que a ambulância chegasse”, disse Ross. Ele acabaria passando por uma cirurgia para implantar uma prótese de titânio de nove centímetros, presa com parafusos, para estabilizar tanto a fratura principal, no úmero, como outra menor, no cotovelo. A cena impressionou não apenas pela dor, mas também pela forma como ele quebrou o braço. Como, afinal, um homem grande, com um bíceps que parecia uma tora, poderia se quebrar daquele jeito? A resposta para isso é uma só: falta de técnica. “Quando a pessoa não sabe lutar, não conhece as técnicas e posições, essa lesão feia pode acontecer. Se você notar, antes do Ross quebrar o úmero, ele se vira um pouco de lado, forçando o ombro sobre o próprio braço, então o adversário faz uma pequena força, e, como ele não está preparado, o osso quebra. O erro ali foi a posição do corpo e do braço, que estão de lado”, diz o paulista Felipe Ducas, 30 anos. Ele é um dos melhores lutadores de braço do Brasil e a grande esperança do País no mundial da Malásia, que acontece em setembro.

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A história de Ducas com a luta de braço foi escrita por linhas tortas, aconteceu da maneira mais inusitada. O ano era 1995 e a Rede Globo, como de costume, reprisava incansavelmente os grandes sucessos gringos de bilheteria. Felipe Ducas tinha apenas 10 anos de idade e estava em casa com seu primo, sete anos mais velho, quando Falcão – O Campeão dos Campeões, clássico definitivo dos bracistas, começou a passar na TV. Os dois foram instantaneamente capturados pela magia da trama. Ducas estava particularmente absorto e sequer suspeitava que aquele momento mudaria sua vida. Na história do longa-metragem, o Campeonato Mundial de Queda de Braço colocava o personagem Falcão, interpretado pelo astro Sylvester Stallone, frente a frente com o pentacampeão, interpretado pelo bracista profissional Rick Zumwalt. Um caminhão novinho em folha estava em jogo. A apoteótica cena final jamais saiu da cabeça de Ducas. Stallone, suado e quase abatido, faz um movimento que marcaria eternamente as sessões da tarde: vira o boné para trás, então finca o cotovelo na mesa e, num ato de extrema bravura e força, consegue reverter a iminente derrota forçando o braço do adversário, 40kg mais pesado, a lentamente declinar até encostar na almofada. “O filme mistura ficção e realidade. Aquele campeonato realmente existiu, o prêmio era o mesmo caminhão, mas quem venceu foi um norte-americano chamado John Brzenk, que na época tinha só 17 anos”, diz Ducas.

Mas essa informação ele só teria tempos depois. Naquele momento, Ducas só pôde desafiar o primo, que obviamente o venceu com facilidade. Mas isso não ficou assim por muito tempo. “Eu comecei a brincar de queda de braço na escola, e passei a ganhar. Na 6a série já estava quase dominando. Quando eu tinha 14 anos, meu primo de 21 já não ganhava mais de mim”, recorda. Já completamente viciado em braço de ferro, Ducas começou a extrapolar os limites. Se estava no cinema, desafiava o maior cara da fila. Nas festas, formava uma roda e queria ver quem ali era capaz de vencê-lo. Ganhou todas – em alguns lances de sorte, ganhou também o coração de umas garotas embriagadas pelo álcool e pela potência de seus músculos. Intrigado com a invencibilidade, Ducas resolveu tirar a prova final chamando na chincha um tio, caminhoneiro da velha guarda, de braço duro e experiente. “Foi duro, mas ganhei de novo”, conta.

Um ano depois ele entrou no Senai, estava cercado de homens de todos os tamanhos, os quais foram, um a um, decisivamente desafiados e então derrotados. “Eu virei uma lenda no Senai. Um dia eu estava na aula e me mostraram uma reportagem do jornal Lance sobre uma atleta de luta de braço. Aí percebi que existia um cenário por trás, que era um esporte reconhecido e comecei a pesquisar”. Ducas ligou para a redação do jornal, que lhe passou o contato da federação paulista, que por sua vez o recomendou um treinador de São Paulo. “O nome dele era Vidal, ele tinha uns 80 kg e uns 50 anos. Fui para a mesa com ele e não consegui mexer o braço do cara nem um centímetro. Ainda assim, segundo ele eu era muito forte e tinha futuro”. Ducas começou a treinar com Vidal em 2004, e um ano depois estava competindo. “Participei do campeonato de estreantes e do paulista de juniores e fiquei em terceiro lugar nos dois”, diz.

Então apareceu um cisto na coluna, coisa simples, resolvida numa cirurgia rápida. O pior mesmo foi que no primeiro mês sem treinar, Ducas engordou nove quilos e foi abatido de forma fulminante pelo sofá. Ele exercitou o sedentarismo por sete longos anos, saiu dos 60 kg e chegou aos 80 kg, então começou a apresentar ameaçadores quadros de colesterol alto, tratados com medicação de coloridas tarjas. Os problemas de saúde fizeram soar o gongo do desespero. “Voltei a me exercitar, em 2012, mas só treinar não me daria motivação necessária para eu mudar de vida, então decidi que tão logo entrasse em forma, me meteria a competir de novo”. Um bom problema para ele é que diferente da maioria dos bracistas, Ducas não tem um trabalho braçal, ele é analista de recursos humanos da IBM. O emprego lhe garante renda e estabilidade financeira, por outro lado o obriga a treinar em dobro para nivelar-se aos adversários.

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Voltar à academia chacoalhou sua rotina dos pés à cabeça. Começou a treinar de manhã cedinho e chegar antes de todo mundo ao emprego. O novo horário rendeu também mais eficiência, respondida com duas promoções num só ano. “Mudou tudo, da alimentação até o álcool que eu cortei totalmente. Me tornei uma pessoa regrada, com horários”, explica. Foi atrás de médico esportivo, nutricionista, fisioterapeuta e bancou boa parte disso do próprio bolso. Deu resultado.

Em 2013, nas primeiras competições após seu retorno, foi vice-campeão paulista, campeão do brasileiro interclubes e de seleções – que compreende os dois primeiros de cada estado – e se classificou para o campeonato mundial, sediado na Polônia naquele ano. A complicação, como sempre, era a grana. Ducas havia acabado de se casar, estava pagando um apartamento e não tinha condições de bancar sequer a passagem. “Foi então que uma empresa apareceu e bancou a metade dos custos. Aí o pessoal da IBM fez uma campanha, teve matéria no jornal e nos blogs internos, dispararam e-mails com meus dados bancários e de pouquinho em pouquinho inteiraram o valor”. Ducas viajou para o mundial e abocanhou um 13° lugar.

O TOPO DO RANKING

A partir de então, Ducas começou a pegar ainda mais pesado na academia e a deslanchar nas competições regionais. “O Ducas é um grande lutador. No masculino ele é nossa principal esperança para os 55kg lá na Malásia, nos dois braços”, diz Paulo Sabioni, 54 anos, presidente da Confederação Brasileira de Luta de Braço (CBLB). Inar Florenziano Filho, octacampeão nacional na categoria até 70kg, faz coro. “Como atleta, o Ducas é um grande exemplo. É o único que conheço que, depois de passar na pesagem, mantém a dieta, mantém o foco. Eu, por exemplo, não consigo. Depois que bato o peso, vou logo para a pizzaria. O Ducas, não, ele leva o esporte com muita seriedade.” Ele sabe que tem um trunfo e usa-o muito bem a seu favor: o foco. Quando senta-se à mesa para lutar, sua mente entra em estado de vigilância e sua atenção se restringe a cumprir a estratégia programada. “Há uma guerra sendo jogada com as mãos e outra com a mente. O principal é manter toda a concentração naqueles segundos de luta. Em algumas situações, é preciso mudar o estilo de jogo no meio da disputa, e é nesse momento em especial que o foco faz toda a diferença”. A mesa é também um jogo de cena, é importante fingir que a pegada da mão está confortável, afinal de contas, desestabilizar o adversário sem encostar nele faz parte das regras.

Bastante focado desde seu retorno, Ducas vem empilhando conquistas. Além dos títulos regionais, conquistou cinco nacionais no braço esquerdo, e quatro no direito, todos pela CBLB. A supremacia lhe rendeu o topo do ranking geral masculino, em que se somam os pontos entre todas as categorias de peso. Rendeu também um certo tédio. Ele parecia imbatível nos 55kg, ao menos para o nível de jogo brasileiro. No começo do ano, portanto, decidiu aumentar a massa e competir na categoria de até 60kg. Seu objetivo, logo no primeiro torneio do ano, era vencer o padeiro mais forte do mundo, Luciano Jordão, invicto há 13 anos em campeonatos nacionais e tricampeão mundial. “Ele me complicou, não deu pra vencer”, lembra Ducas. “O cara é muito forte, passa o dia todo amassando pão, tem o antebraço enorme, parece o Popeye. Meu objetivo depois de voltar do mundial da Malásia é subir de peso e derrotá-lo”.

AS DUAS TÉCNICAS BÁSICAS

Existem duas técnicas básicas e muito simples: “o jogo por dentro, ou cruzado, e o jogo por cima. As demais técnicas são variações destas duas”, diz Paulo Sabioni, da CBLB. No jogo por dentro, os punhos se cruzam e a palma da mão fica voltada para o próprio lutador. “Nesse caso, o jogo fica mais no bíceps, na força, é um estilo supinado. Já o jogo por cima é ao contrário. O lutador tenta abrir o ângulo por fora o máximo possível e trabalhar mais o ombro e o peito, de cima para baixo”, explica.

Felipe Ducas treina de duas a três horas todos os dias. “Só no sábado que pego mais pesado, pois outros atletas se juntam, aí dura um pouco mais, entre 3 e 5 horas”, conta. Ele explica que os exercícios básicos da musculação são imprescindíveis, especialmente as repetições com pouco peso, para dar resistência às articulações. Mas há alguns treinamentos específicos. “Toda musculatura usada na luta de braço precisa ser trabalhada. E isso envolve o corpo inteiro”. Os músculos oblíquos do abdome, que fazem o movimento lateral, são os primeiros a serem fortalecidos, pois eles ajudam na finalização. O ombro e as articulações também recebem tratamento especial. “Tem muito exercício de mão com alicates especiais, muito punho e muito antebraço. A gente costuma dizer que pra ser bracista a pessoa precisa fazer pelo menos um rosca punho com o peso do próprio corpo, ou seja, fazer uma repetição de levantamento usando apenas o punho”. Ducas consegue fazer quatro repetições com 76kg.

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Ducas luta com o braço esquerdo em final de campeonato

Mas um treino tão pesado também pode resultar em lesões. A mais comum é também a mais perigosa e visualmente impactante. “Ela geralmente acontece com atletas iniciantes, que não preparam os ligamentos. Primeiro é necessário reforçar os ligamentos, tendões e articulações, para aí fortalecer a musculatura. Quem não faz isso periga ter uma fratura no úmero, que infelizmente acontece bastante. Eu odeio quando me mandam um vídeo de um bracista quebrando o úmero. A gente já viu, sabe como é e não quer ficar lembrando”, diz Ducas.

AS REGRAS DO JOGO

Toda luta de braço de ferro tem um juiz e um assistente. Para Paulo Sabioni, 54 anos, presidente da Confederação Brasileira de Luta de Braço (CBLB), os quatro olhos são importantes, pois tudo acontece muito rapidamente. A duração média de uma luta é 10 a 20 segundos, algumas acabam em frações de segundos e as mais duras e disputadas podem chegar a um minuto. Sabioni explica que o juiz posiciona as mãos dos oponentes, mas o jogo só começa quando ele grita “Atenção, já!”. “Os punhos precisam estar retos, bem no centro da mesa e o lutador não pode tirar os dois pés ao mesmo tempo do chão, e nem tocar o adversário por baixo da mesa. Os cotovelos devem estar apoiados e a mão que não está em combate segurando o pino de apoio”, enumera. Depois que a luta começa, os competidores podem se movimentar livremente, sem jamais tirar o cotovelo da mesa. Segundo o presidente da CBLB, esta é a falta mais comum. “É preciso duas faltas para se ter uma derrota. A menos que você faça falta em posição perdedora, aí é derrota direto”. A posição perdedora é quando o braço já declinou para trás mais de 75% do ângulo de 90°, que corresponde à posição inicial.