ENCANTADORES DE SERPENTE

Cobras circulando por casas, quintais e até mesmo entre as crianças. Assim é a vida no vilarejo de padmakesharpur, um dos últimos redutos de encantadores de serpentes do mundo

 

Fotos e Reportagem Adrian Fisk, de Orissa, na Índia

 

STATUS 51 - TOP SECRET

Seesha Nath infla as bochechas até tomar todo o ambiente com aquele ruído hipnotizante e sedutor. O som que sai da pungi, flauta indiana de tradição milenar, não chega a formar uma canção, mas sim algo parecido com um chamado. O som vai ficando cada vez mais alto, a tensão aumenta – até que, sem aviso, e com um movimento rápido, Seesha destampa o cesto de palha à sua frente. Imediatamente, uma naja se ergue do recipiente, já com o pescoço dilatado, sua marca registrada. O animal peçonhento dá um bote em direção a seu dono, mas por sorte dele ela acaba atingindo a flauta. Depois de três tentativas frustradas de atacar seu algoz, a naja por fim parece sucumbir ao espetáculo e passa a dançar conforme a música, movendo-se ora de um lado para outro, ora de frente para trás. Com a experiência de quem lida com cobras desde pequeno, o artista reduz o volume da música, ao mesmo tempo baixando a pungi para perto do chão. A cobra parece se acalmar, até acomodar-se de volta ao cesto.

Enquanto o Ocidente vê o trabalho do encantador de serpente como uma atividade exótica e até mística, em Padmakesharpur, um pequeno vilarejo no estado de Orissa, próximo ao Golfo de Bengala, na Índia, as cobras são tão comuns quanto cães ou gatos. Com cerca de 87 famílias, o lugar é um dos últimos redutos de encantadores de serpente do mundo. Ali, é comum encontrar os répteis soltos dentro das casas e nos quintais, como um bicho de estimação. Crianças, inclusive bebês, são estimuladas a ter contato com o animal desde cedo, segundo os pais para estabelecer uma relação de confiança com a cobra. Como resultado, todos os moradores do vilarejo – inclusive aqueles que não trabalham como encantadores – acabam tendo uma relação bem próxima com as serpentes. Durante o Nag Panchami, festival de fertilidade que acontece uma vez ao ano, em agosto, as cobras são trazidas a público, para que sejam reverenciadas. Além disso, os moradores costumam organizar competições para ver quem consegue capturar o maior número de serpentes, para depois soltá-las novamente. No ano passado, a Suprema Corte restringiu o tamanho da festa, ao proibir a captura e a exposição das cobras, mas em muitas vilas, como em Padmakesharpur, o ritual permanece.

Há 30 anos, havia cerca de 800 mil encantadores de serpentes na índia. Hoje não passam de 200 mil

Apesar de uma naja adulta ter veneno suficiente para matar até 15 pessoas, os encantadores defendem a ideia de que as cobras são, na verdade, bem menos perigosas do que se imagina e que só atacam quando se sentem ameaçadas. Inclusive, uma das demandas da federação dos encantadores de serpentes é de que o animal seja retirado da lista de animais selvagens. O governo da Índia, porém, parece pouco interessado em ceder aos apelos dos encantadores. O que vem acontecendo no país é o oposto: diversas medidas têm sido tomadas para coibir esse tipo de atividade. De fato, se a lei fosse levada à risca, os encantadores de serpente estariam na cadeia. Isso porque, em 1972, o governo aprovou uma lei que proíbe o porte de cobras. Não apenas por questões de segurança, mas sobretudo por pressão de ativistas e simpatizantes dos animais. Eles argumentam que os encantadores de serpente impõem uma série de crueldades ao animal para garantir o espetáculo. Os encantadores costumam, por exemplo, arranchar as presas do animal, impossibilitando sua readaptaçao à natureza. Em casos extremos, chegam até a costurar a boca da cobra, o que significa deixá-lo sem comida por meses, até a morte. Outra preocupação dos ativistas diz respeito à rotina do show. “Pouca gente sabe, mas as cobras não ouvem. Elas parecem dançar porque se sentem ameaçadas pela flauta”, diz Kartick Satyanarayan, director da Wildlife SOS, organização indiana que condena a exploração comercial de animais em apresentações, como em circos e shows de rua.

Fechando o cerco

Uma das preocupações do governo tem sido encontrar uma alternativa de sobrevivência para os encantadores de serpente. Ainda que o número de pessoas nessa atividade tenha caído drasticamente (há 30 anos, eram cerca de 800 mil), estima-se que o país tenha hoje cerca de 200 mil pessoas nessa atividade, o que explica o fato de as autoridades ainda fazerem vista grossa ao porte ilegal de cobras. O cerco, porém, vem se fechando, com batidas em redutos de encantadores de serpente cada vez mais frequentes. Nessas blitz, artistas são presos, e suas cobras confiscadas e entregues de volta à selva. Algumas delas recebem chips, instalados sob a pele, que ajudam a monitorar suas condições e localização. Com isso, o governo tem conseguido, gradativamente, reduzir o número de serpentes encarceradas e exploradas indevidamente. Mas essa não é a única ameaça aos encantadores. O rápido desenvolvimento econômico da Índia nos últimos anos deu luz a uma juventude cada vez mais desinteressada nas tradições locais. Com a plateia reduzida, aliada à criminalização da atividade, aos artistas resta implorar por esmolas. Recentemente, o governo sugeriu um programa de treinamento para os encantadores serem transformados em salva-vidas – eles seriam acionados em situações de risco com cobras. A ideia, porém, ainda não foi colocada em prática. Qualquer que seja a solução, tudo indica que os encantadores de serpente estão fadados a existir apenas nos filmes de Hollywood.